Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

O APOLO DIONISÍACO

hugh hefner

 

 

Persignemo-nos: aos 81 anos, está com os pés para a cova um dos  responsáveis pela prática do sexo sem culpa – ou seja, da coisa que é mais divertida sem nos rirmos. Mas levou um vidão: na última foto, Hugh Hefner, já octogenário, surge rodeado de uma plêiade de beldades cujas idades somadas não roçam à dele.

A Playboy tão-pouco é uma Lolita, mas uma cinquentona (nasceu em 1953). E a primeira playmate, Janet Pilgrim, já tem bisnetos! Quando HH concebeu a revista, fê-lo para um homem que não existia: independente, liberal, urbano e determinado a sorver a vida não em colherzinhas de chá, mas em conchas de sopa. O perfil incluía apreço pelo jazz e a fina-flor da literatura da época, de Nabokov a Bradbury. E familiaridade com a corrida atõmica ou a era espacial. Enfim, uma mistura de James Bond com príncipe renascentista.

Hugh Hefner quis que este cliente tivesse tudo do bom e do melhor: para textos de economia, contratou J. Paul Getty, o fulano mais rico do mundo; para os de sexo, o casal de médicos Masters & Johnson. E isso com uns tostões que pediu emprestado à sua própria mãe (imaginem: depenar a genitora para lançar a Playboy! O que Freud diria?) Produziu o primeiro exemplar na mesa da cozinha e acabou na Mansão Playboy, uma espécie de Graceland erótica.

Volta e meia, a revista servia um capítulo inédito de Ian Fleming, com o próprio 007. E quando dedicou oito páginas à nudez inefável de Brigitte Bardot, quem assinou as legendas? André Malraux. O VIP mais irascível, que não abria a boca nem para bocejar, nas entrevistas da Playboy falava pelos cotovelos (casos de Sinatra e Miles Davis). Com a sua cama-catapulta, um leitor daqueles nunca precisaria de sexo pago (apesar de este ser com frequência mais barato do que o gratuito). E as playmates jamais pareciam sirigaitas, mas a vizinha do lado (girl next door). A revista chegou a vender 6 milhões de exemplares por mês.

Em 1968, Hefner percebeu que, na calada da noite, algo mudara, ao ouvir uma jovem exclamar: “Agora a gente vai para a cama com um tipo e, bolas!, no dia seguinte ele já te quer levar para jantar!”  Ora, se as damas se tornavam mais acessíveis, não era HH quem se ia queixar. Porém, quando em 1970 a Playboy publicou os seus primeiros pêlos púbicos, a concorrência apelou, estampando monólogos da vagina. Um dos segredos da Playboy era destinar-se a um homem de hipotéticos 25 anos – qualquer que fosse a sua idade: “Se ele tiver 45 anos, gostaria de ter 25 outra vez. E, se tiver 13, também gostaria de ter 25”. Hoje, todos os homens desejam ter 13 – incluindo os de 13. E o sexo da net está aí para os saciar e até enjoar. Sem precisarem de se interessar com o jazz, ou a literatura, ou o que acontece no mundo. Um marmanjo que não sabe o que ouve, nem o que houve. De tanto reduzir o foco, limitou o seu vocabulário a uma expressão: “Foda-se!” Ou “Caralho!”. Pobres mulheres. E pobres homens.

 

(Crõnica publicada na REVISTA DE DOMINGO, do Correio da Manhã)

publicado por otransatlantico às 16:16
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Terça-feira, 27 de Julho de 2010

O PAI DO SNOOPY

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Acaba de ser lançada em Portugal a Obra Completa de Charles Schulz, nuns volumes bem convidativos, prefaciados por grandes escritores e jornalistas americanos (e Matt Groening, o criador dos Simpsons). E saiu nos EUA a biografia definitiva do homem. A vida de Schulz (que morreu em 2000) parece um sonho americano – mas, como todo a vida humana, contém as suas insônias e os seus pesadelos.

Foi mais com estes do que com aquele que o filho de um barbeiro do Minnesota se tornou o cartoonista mais rico de todos os tempos: as suas tiras povoaram 2600 jornais de 75 países, em 21 línguas. Autodidata, aprendeu o ofício por correspondência. “Peanuts” (um nome que detestava e lhe foi impingido pelo sindicato dos desenhadores) despontou em 1950. O estilo das vinhetas, minimalista e de uma ousadia sutil, irritou os seus pares. Numa entrega de prêmios, anos mais tarde, Schulz saiu de mãos a abanar e bramiu: “Fui tratado como um bastardo”.

Hoje, é encarado como o primeiro autor de BD (histórias em quadrinhos) a equipar com miolos as personagens – não é por acaso que Charlie Brown, Lucy, Linus e Schroeder têm a cabeça descomunal. O próprio cão Snoopy está para o Pluto, de Disney, como Einstein estaria para nós outros.

Multimilionário, Schulz continuou – hã – neurótico pra cachorro. E ainda bem, pois foi daí que moldou a sua tribo. Charlie Brown, sempre esperançoso e sempre rejeitado, uma criatura estóica e decente num mundo hostil ou indiferente. Lucy, a sardônica nêmesis de Charlie. O filosófico e introspectivo Linus. O pianista Schroeder, retrato do artista autista. E Snoopy, o cão com uma luxuriante vida imaginária, protótipo do talento nunca devidamente apreciado.

Como Gulliver (de Swift) e Alice (de Lewis Carroll), não são protagonistas infantis. Afinal, em “Peanuts” o amor não é retribuído, os jogos de basebol acabam sempre em derrota e, no Dia das Bruxas, a Grande Abóbora jamais aparece (como Godot). Nascidas na transição dos catatônicos anos 50 para a psicadélica década de 60, as personagens de Schulz tentam se virar na vida quotidiana com o seu fardo de angústias perplexas, sem nunca de fato as resolver.

O que não impediu meninos e meninas de adorarem aqueles baixinhos cabeçudos. Ora, como já Freud indicava, “a criança é o pai do homem”. E da mãe também. Pois, para além do mito da infância seráfica e do verniz civilizado dos adultos, somos todos uns filhos da mãe. Como Lucy resmungaria, Charlie Brown discordaria e Snoopy latiria, antes de empoleirar no telhado da sua casota, e (depois de abater provisoriamente o temível Barão Vermelho) iniciar pela milésima vez o seu romance autobiográfico. “Era uma noite escura e tempestuosa…”

 

(Crónica publicada na REVISTA DE DOMINGO, do Correio da Manhã)

publicado por otransatlantico às 11:17
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Domingo, 25 de Julho de 2010

O CACHIMBO PENSANTE

 

 

 


Esta semana, em Londres, uma ampla pesquisa revelou: 58% dos entrevistados crêem que Sherlock Holmes foi um genial detetive que existiu de verdade. Ora, durante a sua vida (acaba de sair a biografia definitiva e a edição completa da correspondência), Conan Doyle recebeu centenas de cartas a solicitar os serviços da personagem, várias brandindo fortunas mirabolantes como soldo. Não admira a longevidade da criatura, equivalente a de Dom Quixote. Em um Mundo em que a insegurança e a angústia reinam, Holmes é um bálsamo: nem sempre evita o crime ou pune o criminoso, mas sempre nos explica que diabo aconteceu, como e porquê. Foi Pascal quem definiu o Homem como "um caniço pensante" - também quem confessou estremecer de pavor ao imaginar "o espaço vazio entre as estrelas"...

Se Sherlock é a quintessência da lógica indutiva, o doutor Watson corresponde a mais prosaica banalidade – porém, cheia de retidão e lealdade edificante. O par de Baker Street é como aqueles casais felizes cimentados pela atração dos opostos. Ou, para invocar de novo Cervantes, como Quixote e Sancho (neste caso, o delírio substitui a razão). Enquanto Watson lia o horário dos comboios (trens) ou atiçava a lareira, Holmes consumia cocaína, tocava violino ou espremia os miolos.

O próprio Conan Doyle era uma síntese instável daquelas antíteses. Escocês de Edimburgo, licenciou-se em Medicina, mas sem vocação e com fascínio pela aventura: pairou de balão pelo céu e conduziu carros e motos quando estes não passavam de geringonças excêntricas. E fervilhava de ambiguidades: autor do cerebral Holmes (com o seu método cartesiano da navalha de Ockham), converteu-se ao Espiritismo e escreveu livros a defender a comunicação com Gasparzinhos. Lembra sir Isaac Newton, o descobridor da gravitação universal, que dedicou mais tempo a Alquimia do que à Física…

Inopinadamente, Doyle acabou por odiar Holmes (que o enriquecera e imortalizara) e decidiu “matá-lo”, na obra “O Problema Final”. A reação do público foi de histeria coletiva: houve até cortejos fúnebres nas ruas de Londres. O escritor resistiu às pressões por dez anos, mas lá ressuscitou o detetive de lupa desembainhada.

Atenção: a célebre frase “Elementar, meu caro Watson!”, NÃO figura em nenhuma das 70 narrativas protagonizadas por Holmes – só nas miríades de adaptações para cinema e TV.

Ah, agora que o mistério Doyle/Holmes está deslindado, desopilemos. Eis um exemplo paródico da lógica indutiva. Holmes e Watson estão a acampar. De madrugada, Holmes acorda Watson: “Olhe para o céu e diga-me o que vê”. Watson: “Vejo milhões de estrelas”. Holmes: “E que conclui?” Watson: “Que existem milhões de galáxias. Que Saturno está em Leão. Que serão três e um quarto da madrugada. Que amanhã teremos um dia lindo. Que Deus é Todo-Poderoso e nós insignificantes. E você, o que conclui, meu caro amigo?” Holmes: “Watson, sua besta, roubaram-nos a tenda!”

 

(Crônica publicada na REVISTA DE DOMINGO , do Correio da Manhã)

publicado por otransatlantico às 11:40
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Sábado, 17 de Julho de 2010

ÇA VA?

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Sarkozy, com quem até simpatizo (tem muito mais gosto para escolher mulheres que o principe Charles) está em apuros. Como se já não bastasse a lambança económica-financeira da Europa, ele foi engolfado por uma saga que parece novela venezuelana (não veneziana, de Goldoni), em que Chavez fizesse de galã e deus ex-machina. Tudo por causa da dona da L'Oreal, uma mistura de Hebe Camargo com Dercy Gonçalves com Lili Caneças (os meus eventuais leitores que se virem). Só toco no assunto (já que não posso tocar na Carla Bruni) devido ao meu post sobre o Gainsbourg, que suscitou emoção e comoção. De súbito, a adorável libertinagem francesa virou país árabe (onde um Edward Said nunca quis viver, preferindo o enxofre norte-americano). Passa-se o seguinte.

Em 1947, pediram a Sartre que escrevesse um breve PREFÁCIO para uma edição de Baudelaire. Quando Sartre depôs a pena, tinha escrito mil páginas concisas sobre a “alteridade” do poeta – o jeito foi publicarem o texto como um ensaio XXL, e a obra de Baudelaire como “apêndice”… Esta semana os cartazes do filme “Gainsbourg” foram retirados do Metro de Paris, pois o cantor e compositor francês aparece a fumar. Se os exibisse, o Metro seria multado em 100 mil euros, por “incitação ao consumo do tabaco”. Ora, é impossível mostrar Gainsbourg sem uma auréola de fumo - fumava sem parar, excepto quando fazia amor com Brigitte Bardot, Jane Birkin, Catherine Deneuve, Isabelle Adjani e imensos etc, que me deixam marcianamente verde de inveja (bolas, o que é que ele NÃO tinha que eu também NÃO tenho?). Não era propriamente um pão, mas as mulheres salivavam por Gainsbourg, com ou sem nicotina. Tanto que a própria Whitney Houston pirou e degenerou numa versão brega e sem panache - apenas pirada. OK, esses Gauleses são doidos. Eis o dilema deles sobre qualquer novidade: “Na prática, funciona. Mas funcionará na teoria?”

publicado por otransatlantico às 21:28
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TRÊS ALEGRES TIGRES

Apenas um comentário científico: sou muito mais telegênico quando não estou na TV.

 

 

 

 

publicado por otransatlantico às 10:28
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Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

O ARCANJO OBSCENO

 

 

 

 

 

 

Provocador nato, amante irresistível, dono de palavras que semeavam o escândalo mas também o sucesso, o «cabeça de couve» nascido Lucien Ginzburg, morreu há quase 20 anos, e França recorda-o agora com a publicação de uma biografia (definitiva?), a antologia do seu repertório recolhida em álbum duplo e em 18 CD e um biopic nos cinemas. Como dizia Brigitte Bardot, «era uma vez um príncipe louco de um reino demasiado exíguo para ele...»

Há 20 anos, a criatividade francesa perdia um dos seus melhores malditos: Serge Gainsbourg, um descendente legítimo de uma estirpe de delinquentes magistrais, que inclui expoentes como Villon, Lautréamont, Baudelaire e Rimbaud.

Gainsbourg era um virtuoso da autopromoção e um provocador incomparável. Num programa de televisão em direto e ao vivo, queimou uma nota de 500 francos diante de um apresentador embasbacado, para denunciar a ganância tributária do Governo. Compôs uma versão iconoclasta da «Marselhesa», o hino nacional francês, que fez espumar os membros mais chauvinistas da Legion D'Honneur. Noutra emissão de TV (vídeo abaixo), anunciou alto e bom som para uma Whitney Houston de olhos esbugalhados e sentada ao seu lado: «I want to fuck you!»

 

 


 

 

 

 


 

 

Mas engana-se redondamente quem julga que ele não passava de um bufão escandaloso, criado pela imprensa popular. O impacto dele na música francesa é inestimável. Com mais de 200 canções gravadas por vozes que vão de Juliette Greco a Yves Montand, ou de Alain Chamford a Vanessa Paradis, Gainsbourg alcançou uma audiência que transcendeu gerações e eras musicais. Daí que, quando morreu, fosse uma espécie de tesouro nacional - embora um tesouro escabroso como Sade.

Para assinalar a primeira década da sua morte (de ataque cardíaco…), foram lançados em França «Gainsbourg», a biografia definitiva de autoria de Gilles Verlant (ed. Albin Michel, 763 págs.), o álbum duplo «Gainsbourg Forever», antologia de 43 canções, e uma caixa homónima com 18 CD.

Quem era afinal este homem que foi chamado por uns «cabeça de couve» e por outros «apocalipse estável»? Serge Gainsbourg nasceu Lucien Ginzburg, em Paris, no ano de 1928. O pai dele era um judeu russo, que viera para França depois da revolução bolchevista. Durante a ocupação alemã, a família usou primeiro a infame estrela amarela ao peito, mas conseguiu sobreviver graças a documentos falsos. Em tais circunstâncias, o rapaz começou a esgrimir uma visão de mundo cínica e fatalista, cristalizada mais tarde num verso de 1979: «Moralidade: água e gás em todos os seus estados».

Desde a adolescência, ouvia Scarlatti, Bach, Chopin, Gershwin e Irving Berlin no piano paterno. «O meu pai parou em Schumann, Debussy e Ravel, mas eu continuei com Stravinsky, Schoenberg e Alban Berg», explicava. Depois, virão Billie Holiday, Art Tatum, Cole Porter e Dizzie Gillespie.

Nos anos 50, o jovem Gainsbourg ganha a vida como pianista de cabarés da Rive Gauche e como pintor de cartazes de cinema. Na casa nocturna Milord Arsouille (onde se estreara Charles Trenet), conhece Boris Vian, que o encoraja a escrever canções. Ele não se faz rogado, e num piscar de olhos está a compor para as maiores vedetas do chamado grupo de St. Germain-des-Près, onde a boémia era feérica, onírica e oficial. Eis o lema daquele cenáculo existencialista: «Nenhuma pessoa civilizada vai para a cama no mesmo dia em que dela se levantou». Juliette Greco ungiu obras como «Le Poinçonneur des Lilas» e «La Chanson de Prévert» em clássicos instantâneos. Já então Gainsbourg fumava como uma chaminé e bebia como um peixe. Mas não, não foi ele quem exclamou, certa tarde num 'bistrot': «Quem roubou a rolha do meu almoço?» Até porque, naquela tarde, Gainsbourg já estava uns quinze ou vinte copos acima do nível do mar.

Um belo dia, Lucien tomou duas decisões importantes. A primeira: (seguindo um conselho de Jacques Brel) que ninguém podia cantar as suas canções melhor do que ele próprio. A segunda: mudar o seu nome para Serge Gainsbourg. O primeiro álbum, lançado em 1958, entrou por um ouvido do público e saiu pelo outro. Mas os críticos e os seus pares caíram de joelhos e lamberam os beiços. Serge não se importou, pois nem mesmo ele levava a mal um elogio.

No princípio dos anos 60, Gainsbourg dividia irmãmente o seu tempo entre discos pessoais e composições para terceiros. Mas tudo mudou quando encontrou a cantora France Gall, então com 18 verdejantes aninhos. Foi a primeira Lolita deste Humbert-Humbert. Ela projetara-se recentemente, com uma seráfica canção sugestivamente intitulada «Sacré Charlemagne». Porém, quando a pequena despontou na TV, com um tantalizante chupa-chupa (pirulito) na mão, a cantar «Les Sucettes», de Gainsbourg, a carreira de ambos disparou com a iridescência de um cometa. A letra continha um duplo sentido bastante evidente, que só a intérprete não percebeu: «Annie aime les sucettes/ Les sucetts à l'anis/ Les sucetts à l'anis/ D'Annie/ Donnent à ses baisers/ Un goût anis/ Sée quand elle en a sur sa langue/ Que le petit bâton/ Elle prend ses jambes à son corps/ Et retourne au drugstore». Quando lhe explicaram o sentido, ela nunca mais dirigiu a palavra a Gainsbourg.

A partir de então, o pária niilista era uma coqueluche mediática. Após anos como um ícone da empertigada Rive Gauche, o cantor-compositor era recrutado pelo «mainstream», como um artesão de sucessos. Gainsbourg habitou até uma comédia musical na televisão, flanqueado por Anna Karina e Jean-Claude Brialy. Mas o melhor, ou pelo menos o mais bombástico (sejamos precisos: o abalo sísmico) ainda estava por vir.

Naquela época, ele teve um caso com a portadora de um lendário beicinho, uma certa Brigitte Bardot. Na sua autobiografia («BB», ed. Grasset, 1996), a diva evoca o amante com um nó cego na garganta: «Era uma vez Gainsbourg, príncipe louco de um reino demasiado exíguo para ele. Ocultava a sua vulnerabilidade atrás de uma insolente agressividade que, à imagem do seu coração e da sua face, não representava mais do que a parte visível desse iceberg incandescente e generoso.» Bardot e o iceberg incandescente gravaram juntos clássicos como «Bonnie and Clyde» e «Harley Davidson». Contudo, depois de gravarem «Je T'Aime… Moi Non Plus» (que vegetou nas prateleiras da Philips durante 17 anos!), os dois se separaram para sempre.

O que aconteceu? Bom, aconteceu que Brigitte, apesar daquela fachada de pecado capital ambulante, considerou que a tal canção era demasiado ousada e vetou o lançamento. Gainsbourg encolheu os ombros e procurou outra parceira. Que foi, como reza a história, Jane Birkin.

Birkin era uma actriz de cinema inglesa (consta que, quando a viu pela primeira vez, Serge resmungou: «As inglesas são tão finas que não têm peito nem bunda!» - o que era injusto com Jane). Diga-se a bem da verdade que ela já tinha um certo nome, graças à sua participação no mítico filme de Antonioni, «Blow Up», onde aparecia como viera ao mundo (há mundos com sorte).

A segunda versão de «Je T'Aime… Moi Non Plus» foi distribuída em 1968, e imediatamente assumiu o estatuto de hino erótico daquele ano trepidante. A canção foi censurada pelo Vaticano (que implorou ao Governo italiano para a banir) e sumariamente proibida em países que iam do Brasil à Suécia, passando por Espanha. O escândalo atingiu tais proporções que, em Inglaterra, a gravadora Fontana simplesmente renunciou ao disco, não obstante ele estivesse engastado no segundo lugar do «Top 10». Uma pequena companhia, a Major Minor, rapidamente adquiriu os direitos da canção e fez um relançamento, que por sua vez galgou para o primeiro lugar - a única música francesa que até hoje realizou tal façanha em Inglaterra.

Nos Estados Unidos, nem se pôs a hipótese de «Je T'Aime» tocar na rádio - se ainda fosse na Casa Branca de Bill Clinton! Sim, era a época do amor livre, mas não exageremos. Não era tanto a letra que arrepiava os cabelos do Tio Sam (afinal, para a maior parte dos americanos, francês é sânscrito), mas os gemidos concupiscentes de Jane Birkin, que tornavam «visualmente» inteligíveis os seguintes versos lascivos: «Je vais, je vais et je viens/ Entre tes reins/ Et je/ Me re-/ Teins…»

Proliferaram versões de «Je T'Aime» em oito idiomas, incluindo o japonês. Seis meses depois, dois milhões de cópias tinham sido vendidas. Apesar da ausência de divulgação radiofónica e de «marketing» profissional, com aquela canção, Serge Gainsbourg tornou-se o cantor francês de maior sucesso de todos os tempos nos EUA. O êxito foi tanto que a própria Jane Birkin, que gemia esplendidamente mas cantava tão bem como um pato, manteve uma longa carreira de intérprete em França.

Nos anos 70, Gainsbourg experimentou outros caminhos. Realizou até anúncios para a TV e gravou com os músicos de Bob Marley. Num concerto em Estrasburgo, enfrentou coléricos e ruidosos pára-quedistas do exército francês, zangados com a versão impertinente de «A Marselhesa». A situação era tão explosiva que os Wailers de Marley se recusaram a subir ao palco, apesar de toda a erva para ganhar coragem. Gainsbourg foi sozinho e começou a cantar «a capella», o hino francês original, sem acompanhamento musical, perante aquela multidão ribombante. Acabou ovacionado.

Gainsbourg era um misógino incorrigível, tendência que fica clara em canções como «La Femme des Uns Sous le Corps des Autres». Não postulava a «libertação sexual» (seja lá o que isso signifique), mas o hedonismo individual. Todavia, as suas obras foram memoravelmente interpretadas e gravadas por senhoras como Petula Clark, Juliette Greco, Françoise Hardy, Barbara, Dalida, Nana Mouskouri, Anna Karina, Catherine Deneuve e Brigitte Bardot. Com aquela cara de quem abusa do absinto, foi também um feio irresistível, que circulava por anónimos lençóis de prostitutas e seduzia as mais aristocráticas, olímpicas e desejadas mulheres. Como ele dizia: «A fealdade é superior à beleza, pois é permanente.» Por outro lado, sabia gozar de si mesmo, quando era traído. Só se zangou um bocadinho uma vez, ao saber que a namorada não apenas tinha outro, como também cozinhava para ele na sua própria casa: «Corno sim, mas não anfitrião!»

Gainsbourg era contraditório e sardónico o bastante para, quando lhe pediram para escrever uma canção contra as drogas - a ele, o paladino de todos os excessos -, responder afirmativamente. Assim, produziu mais um panfleto lírico e pungente: «Aux enfants de la chance/ Qui n'ont jamais connu les transes/ je dirai en substance/ Ceci/ Touchez pas à la poussière d'ange/ Angel dust/ Zéro héro à l'infini/ Je dis dites-leur/ De casser la gueule aux dealers/ Qui dans l'hombre attendent l'heure/ L'horreur/ de minuit.»

Prismático no seu talento, é também o cineasta «underground» de quatro filmes, entre os quais «Equateur», unissonamente vaiado no Festival de Cannes, e «Charlotte For Ever», tardiamente apaparicado por Jean-Luc Godard. Antes, tinha provocado o enésimo ultraje, com a letra e o teledisco da canção «Lemon Incest», no qual aparece estendido numa cama e vestindo apenas as calças do pijama, e a sua filha Charlotte, então com 14 anos, ajoelhada ao seu lado, vestindo somente a parte de cima do dito pijama. Mas explicou-se: «Disseram que era incesto. Mas não: era a vertigem do incesto.»

A derradeira Lolita de Gainsbourg foi Vanessa Paradis (hoje casada com Johnny Depp), para quem compôs 11 músicas do disco «Variations sur le Même T'Aime» - e de quem dera uma definição tipicamente gainsbourguiana: «Ela emana uma aura de sedução própria das estrelas. Paradis (Paraíso) é o inferno!»

Afinal, qual o segredo da «persona» idiossincrática de Serge Gainsbourg, entranhada quer na sua vida quer na sua obra? No que toca à sua música, é importante realçar a qualidade melódica contagiante, e o humor com que ele zomba das suas próprias atitudes, quase tanto como dos supostos puritanos que tão encarniçadamente tentava ofender. E a sua bufonaria satírica oferecia aos ouvintes uma ferramenta para resistirem aos aspectos mais embotadores de uma vida meramente consumista.

Mas Gainsbourg é, sobretudo, o poeta maldito e o trovador popular-erudito, autor de preciosidades como «La Javanaise», «Je Suis Venu Te Dire que je M'En Vais», «Initials B.B.», «Dieu Fumeur de Havanes», «La Décadence» e tantas outras. É o compositor de canções fáceis, para embolsar dinheiro fácil, mas também o visionário experimentalista. Mestre da colagem inovadora, atravessou todos os sons, do jazz ao hip-hop, passando pelo reggae e o pop, e tornou-se o mentor espiritual de importantes bandas contemporâneas, como os Divine Comedy. Introduziu em França sonoridades então inéditas naquelas paragens: o soul, os ritmos afro-cubanos («Couleur Café»). Musicou e interpretou os poetas rebeldes que amava: Musset, Nerval («Le Rock de Nerval»), Baudelaire («Le Serpent Qui Danse»). Cantando o prazer e a dor, o êxtase efémero e a mágoa visceral, parece às vezes uma combinação de Bob Dylan com Tom Waits e Leonard Cohen.

E, finalmente, é também, como acusam as suas nêmesis crispadas, o corruptor da juventude. Mas convém lembrar que o próprio Sócrates suportou a mesma acusação - e não fugiu (nem pagou o galo a Asclépio). Num daqueles dias em que uma pessoa se arrepende de sair de casa, Gainsbourg gemeu: «Fui bem sucedido em tudo - exceto na minha vida.» Vinte anos depois, a posteridade discorda dele.

 

(Texto publicado no Expresso, revista Única)

publicado por otransatlantico às 17:15
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Quarta-feira, 14 de Julho de 2010

RESORT 1 ESTRELA (NO PEITO)

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Roubaram a inscrição de Auschwitz, “O Trabalho Liberta”, o maior humor negro de sempre. Sei quem NÃO foi o ladrão: o presidente do Irão, para quem o Holocausto nunca existiu (é uma pena, mas ele corrigirá a incúria riscando Israel do mapa, com uma borracha, com cuspo ou empoleirado numa bomba, como o doutor Strangelove).

Tinha uns dias livres-pensadores e pensei: visito o Danúbio Azul ou ouço Mozart em Salzburg (o único lugar do mundo em que Mozart é kitsch). Visitei Auschwitz. Morbidez? Niilismo? Necrofilia? Não. Eis a sua lição: o horror que podemos infligir aos outros nunca terá limites. O que me dá calafrios, na verdade, é – com tal currículo - o nosso próximo horror. Parti de Cracóvia. Os Polacos não são nenhuns santos nessa história. Lech Walesa, a perder a Presidência, chamou ao rival “judeu”, como uma pronúncia excrementícia. Depois tergiversou com um sorriso amarelo: “Quem me dera ser judeu, pois teria mais dinheiro!” E pensar que fui demitido por um jornal de esquerda por defender o Solidarność, na época “evidentemente” um lacaio do imperialismo….

Há um autocarro chique mas não há placas a dizer Auschwitz. Transpomos um prédio com um snack-bar (lanchonete), um quiosque de fotos e uma bilheteira. Aí marcavam os prisioneiros com os números ignóbeis e indeléveis, rapavam-lhes o cabelo e a humanidade, e os oficiais escolhiam as escravas sexuais judias. Interroguei-me por que razão há um pavilhão destinado às vítimas de cada nacionalidade – mas os judeus não aparecem mencionados em lado nenhum. Pergunto a um guarda, com ar afável. Ele aponta o pavilhão 37, trancado com uma corrente. Lá dentro apodrece o espólio torpe dos judeus: os cabelos, as pernas de pau dos veteranos que lutaram  e sucumbiram pela Polónia na I Guerra Mundial, os sapatos desirmanados das crianças (que nunca ficaram apertados), os poucos dentes de ouro dos poucos que podiam pagar dentes auríferos (não, não eram piratas do Caribe).

O autocarro segue, mas não pára em Auschwitz III. Lá, foram escravos, entre outros, Primo Levi e Elie Wiesel. Saio e vou a pé. Chega-se a um portão novo, com arame farpado e guardas a sério com metralhadoras, hospitaleiros como Cérberos. O campo estava a bombear fuligem para o céu! Nunca foi fechado. I.G. Farben, a fábrica de produtos químicos que controlava o “trabalho” em Auschwitz, permaneceu a operar, alegando que tinha de pagar indenizações aos antigos escravos. OK, em termos de humor negro, empatou com a placa da entrada. Em 2004, prestes a ser obrigada a fazê-lo, abriu falência – mas não sem antes tirar da cartola a Agfa, a BASF, a Bayer e a Hoechst.

Vou-me embora com as unhas quase a cortarem as palmas  lívidas das mãos. Pergunto-me: seria eu capaz de limpar as câmaras de gás para me deixarem viver mais um mês? De encher os fornos?

 

(CRONICA PUBLICADA NA REVISTA DE DOMINGO DO CORREIO DA MANHÃ)

publicado por otransatlantico às 18:40
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Sábado, 10 de Julho de 2010

JACQUES, LE FATALISTE

A Bélgica está à beira de uma secessão. Como sabem, tem duas populações, os Valões e os Flamengos, com as suas próprias línguas - e cada vez mais hostis. Estive em Bruxelas há 10 dias e a vitória eleitoral da Nova Aliança Flamenga radicalizou o antagonismo entre a Flandres (norte) e a Valônia (sul). A própria capital é um atol francófono em Flandres. Para terem uma ideia de onde já chegou o extremismo, 99% das livrarias de Bruxelas só têm livros em flamengo (ou em inglês) - em francês, bulhufas (nicles)! E os cardápios (ementas) dos restaurantes vêm em flamengo (dialeto do holandês). É um exemplo arrepiante da crise de identidade - antropológica e filosófica -  de toda a União Européia. Acudiu-me à memória o espírito que era uma síntese transcendente da encrenca belga e um admirável artista e ser humano: Jacques Brel (morto há 32 anos).

Brel era um caleidoscópio militante - e coerente. Filho de pai flamengo, era francófono, mas satirizava tanto a sociedade burguesa de Bruxelas (em "Les Bourgeois") como o chauvinismo novo-rico dos valões ("Les Flamandes"). Amava a Bélgica, a precária harmonia universalista, como explica à filha no vídeo 1. Com saco cheio do maniqueísmo recíproco, marchou para Paris, onde foi descoberto por Jacques Canetti (irmão de Elias Canetti, Nobel de literatura). Canta com Georges Brassens e aí não pára mais. Chega a ultrapassar 365 shows em um ano (em 1974, sete espetáculos em uma noite). Em 77, estava um bagaço: grava o último disco ("Brel"). Apesar de recusar toda a publicidade, o mais de 1 milhão de álbuns estavam reservados antes da edição e mais 700 mil foram comprados no primeiro dia de vendas. Morreu pouco depois, deixando, entre um colar de pérolas musicais, a súplica - sublime/abjeta - do amor como pedinte rastejante que renuncia a qualquer amor-próprio: "Ne me quitte pas" (vídeo 2, versão Maysa). Hoje, os valões juram que ele era valão, e os flamengos que era flamengo (até agora ninguém disse que era Fluminense). Recorda-me a frase de Einstein: "Se a minha Teoria da Relatividade estiver certa, a Alemanha dirá que sou alemão e a França me declarará 'cidadão do Mundo'. Mas, se estiver incorreta, a França dirá que sou alemão, e os alemães que sou judeu".

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HITLER, MEU AMORZINHO

 

 

 

 

 

Se, como reza o equitativo provérbio popular, «atrás de todo grande homem há uma grande mulher», atrás de um genocida monstruoso como Hitler há quem? Uma sogra daquelas, que quando dá palmadinhas nas costas é para descobrir o melhor lugar onde enterrar o punhal? Nem por isso: afinal, como veremos, o Fuhrer casou-se literalmente no túmulo. Uma coisa ninguém lho nega: foi, sem dúvida, um matrimónio original - ele e a respectiva esposa enviuvaram poucos minutos depois da boda…

Esta semana as livrarias começam a receber um livro cujo título fala por si próprio: «As Mulheres de Hitler», de François Delpla. Não se trata de uma obra sensacionalista – na verdade, o autor assinou uma das biografias canónicas sobre o líder nazi, «Hitler», publicada em1999 pela prestigiosa editora Grasset. Muito judiciosamente (e seguindo a dica da judia Hanna Arendt, a quem não faltavam miolos, exceto na hora de ir para a cama com Heidegger), Delpla finta o clássico alçapão de quem disseca o protagonista do III Reich: demonizá-lo como a sobrenatural quintessência do mal, uma aberração da natureza, singular e irrepetível. Pelo contrário, Hitler «possuía algumas características que todos conhecemos bem demais».  Não se trata, claro, de branquear a besta (e muito menos de negar o Holocausto, como fazem um punhado de energúmenos). Trata-se, isto sim, «de integrá-lo na espécie de que faz parte, e cujas potenciais trevas adensa». Convém assinalar, só de passagem, que o próprio Estaline – aliado de Hitler até que este invadiu a Rússia, com quem tinha dividido irmãmente a Polónia e os Estados bálticos –, matou mais Ucranianos do que Hitler matou Judeus (ver «Gulag, Uma História», de Anne Applebaum, prêmio Pulitzer 2004), e semeou muitos mais campos de concentração. Para não falar em Mao, Pol Pot, e outros monstrengos sortidos.

A tentação de estereotipar Hitler como um avatar de Belzebu, numa metafísica maniqueísta, seduziu o escritor americano Norman Mailer, que, aos 80 anos, descreveu (no seu último romance, «The Castle In The Forest») o líder nazista como um sócio de Satanás (apresentado como «o Maestro»). Ora, claro que o antigo cabo austríaco e pintor canhestro tinha as suas extravagâncias: aquela maneira de discursar, por exemplo, que lembrava um espasmódico polícia de trânsito infestado de pulgas. Mas, mesmo aí, é bom realçar que ele exprimia-se em alemão. E, como observou alguém, «o alemão é uma língua que foi desenvolvida com o único objectivo de permitir a quem a fala cuspir nos outros, sob o pretexto de conversar educadamente».

Bem, como aconselhou um certo judeu vienense viciado em charutos (que Hitler enxotou da Áustria), espreitar a sexualidade das pessoas ajuda a compreendê-las um bocadinho melhor. Também nesse campo, Hitler já foi rotulado de tudo: sedutor, impotente, bicha louca, sadomasoquista, incestuoso – até de escatofilia. O próprio Norman Mailer explica a perversidade da personagem como uma psicopatologia: o pequeno Adolf era o fruto de um casamento incestuoso. Muito jovem, o pai de Hitler, Alois, manteve uma relação sexual com uma meia-irmã, da qual nasceu Klara, ao mesmo tempo filha e sobrinha de Alois. Apesar da diferença de idade, Klara acaba por se tornar a terceira mulher de Alois, e mãe de Hitler. O problema, para a tese de Mailer, é que ascendência do Fuhrer tem pontos obscuros: não se conhece a identidade do avô paterno, e, portanto, tudo não passa de suposição. Ou melhor, de vulgata freudiana colada com cuspo.

Questão recorrente é ainda a da homossexualidade de Hitler, postulada no livro do historiador alemão Lothar Machtan, «A Face Oculta de Hitler». Todavia, todas ligações do ditador, devidamente provadas, foram com mulheres. E há, por fim, a mirabolante versão de que o líder nazi sofria de monorquidia – isto é, tinha apenas um testículo. De fato, o relatório da autópsia do corpo de Hitler, encontrado pelo Exército Vermelho a 2 de Maio de 1945 (naquela época Estaline negou sempre o achado), sustenta que os restos mortais continham só um testículo. Numerosas biografias assumiram, portanto, que o ditador era, por assim dizer, «mono» desde a nascença, negligenciando a explicação mais lógica: o desaparecimento circunstancial do órgão durante a cremação do cadáver.

A propósito de cadáveres, depois de1945 circulou o mito da sobrevivência da Hitler, que terá simulado o suicídio e escapado do bunker de Berlim para um esconderijo (provavelmente, o mesmo de Elvis). E, claro, com a mãozinha de uma mulher, a aviadora Hanna Reitsche, apaixonada pelo Fuhrer e nazista «uber alles». Segundo essa lenda, tal dama aterrou ao pé do Bunker e resgatou o amado sob de uma chuva de obuses soviéticos, no melhor estilo Barão Vermelho. Churchill, em Londres, soltou uma gargalhada apoplética ao ouvir o disparate – mas, pelo sim pelo não, enviou ao local o historiador Trevor-Ropert, que concluiu inequivocamente pelo suicídio.

Que Hitler idolatrava a mãe e levava fenomenais surras do pai (infelizmente, como se viu, não as suficientes), não se discute. Quando Klara estava a morrer de um tumor maligno, o filho não teve coragem de lhe contar que falhara no exame para a Escola de Belas Artes de Viena. Pelo contrário, mentiu-lhe descaradamente, embora não fosse capaz de desenhar nem uma seta. A propósito de escolas, é intrigante recordar que Hitler foi condiscípulo do futuro filósofo Ludwig Wittgenstein, ainda na sua cidade natal, Linz. Pena que Adolf não tenha seguido uma das supremas proposições de Wittgenstein: «Quando não souber o que dizer, o melhor é calar-se». Como é óbvio, Hitler fez precisamente o contrário – e pelos cotovelos. Falava horas a fio e não dizia coisa com coisa.

Tudo indica que a iniciação sexual do líder nazi foi com uma prostituta. Mas a primeira mulher importante na vida dele, ainda numa fase inicial do Nacional-Socialismo, foi Winifred Wagner, casada com o filho do grande compositor Richard Wagner.  A obra de Wagner tem sido constantemente associada ao Nazismo. Mas, em primeiro lugar, trata-se de um anacronismo. Em segundo, se é certo que o músico não era flor que se cheire (como pessoa, era um cacto), o seu anti-semitismo nunca o impediu de colaborar com judeus, e de ter como chefe de orquestra um homem elucidativamente chamado Hermann Levi. Winifred era de outra praia: tão nazi como uma suástica. Depois do fiasco do putsch de 1927, em Munique, Winifred visitou Hitler na prisão, com um volumoso embrulho com cobertores, roupas e livros. Chegou a viajar aos EUA, só para convencer Henry Ford a interessar-se pela ideologia nazista – e conseguiu-o plenamente. Outra da mesma estirpe foi Elisabeth Nietzsche, irmã do filósofo Nietzsche. Reacionária e anti-semita, quando o pensador perdeu o último parafuso e foi internado num sanatório (morreu em 1900, mas estava civilmente incapacitado desde 1889), Elizabeth responsabilizou-se pela edição das obras dele, censurando-as, distorcendo-as e por vezes reescrevendo-as, a ponto de fazer o pobre lunático lembrar um boneco cujo ventríloquo fosse Joseph Goebbels.

Como em certos aspectos os homens são todos iguais, Hitler gostava delas novas. A estonteante Maria Reiter («Mitzi») tinha apenas dezasseis anos quando ele a comeu. Mas foi sol de pouca dura: os rumores ameaçavam prejudicar a carreira política de Adolf (afinal, ela era menor). Resultado: um dos esbirros de Hitler obrigou a rapariga a rubricar um ato notarial segundo o qual não consumaram nenhuma relação sexual. Em seguida, o futuro Fuhrer arrastou a asa por uma sobrinha em primeiro grau, Angelika, mais conhecida por Geli. Quando esta andava pelos quinze anos, iam com frequência a um lago perto de Munique, onde as jovens se banhavam nuas. O tio divertia-se a fazer ricochetear pedras na água (aposto o pescoço como nem no lago acertava). Hitler arranjou um marido para Geli, um certo Maurice, mas continuou a rondá-la como um tubarão rodeia um náufrago numa tábua. Em 1929, passou a viver sozinha com o tio, enquanto o tal Maurice sumia do mapa. Em 1931, Geli matou-se com uma bala no peito, usando um revólver de Hitler. Este não se dignou a cancelar o comício marcado para o dia seguinte, em que discursou com o histrionismo destrambelhado do costume.

De acordo com «As Mulheres de Hitler», Eva Braun é, neste conto «fantástico e cruel», a Cinderela que se apaixona pelo príncipe. Um Príncipe das Trevas, convenhamos. Depois de tal paixão, alguém ainda poderá professar a opinião de que «gosto não se discute»? A seguir às filmagens de «Quanto Mais Quente Melhor», Tony Curtis resmungou que «beijar Marilyn Monroe era como beijar Hitler». Duvido. E duvido ainda mais que beijar Hitler fosse como beijar Marilyn Monroe. Em todo o caso, Eva ia nos 17 anos quando fez o Fuhrer lamber os beiços – e em pouco tempo assumiu a vaga deixada por Geli. E mimetizou a finada sobrinha quase demasiado bem: na noite de 1 de Dezembro de 1932, Eva disparou uma bala sobre o próprio pescoço, depois de escrever ao amante uma carta cujo teor permanece desconhecido. O ferimento foi ligeiro, mas, três anos depois, houve outra tentativa: emborcou 20 comprimidos de Phanadorm, um sonífero – foi salva casualmente por uma amiga. Aos poucos, o estatuto de Eva junto de Hitler prosperou. Já em 1938, o ditador recebia-a com frequência no Berghof, o seu ninho de águia (ou de abutre), onde ela dispunha de um quarto, separado do dele apenas por uma casa de banho (banheiro). Ninguém sabe quão engarrafado era o trânsito naquele lavabo. Depois da guerra, o médico pessoal de Hitler revelou que Eva lhe pedira comprimidos para estimular o desejo masculino. Razões para ciúmes de Eva, havia muitas. A principal chamava-se Leni Riefenstahl.

De todas as mulheres de Hitler, Leni é de longe aquela sobre a qual há mais documentação. Ajudou o fato de  morrer aos 101 anos, em 2003. Em 1987, a própria cineasta publicou umas copiosas (e fajutas) Memórias, e em 1993 estreou-se um filme de três horas sobre a sua obra, «O Poder das Imagens», de Ray Muller. E acaba de sair, nos EUA, «The Life and Work of Leni Reifenstahl», de Steven Bach, que arruma a questão. Dando o nome aos bois (ou melhor, à mulher do boi), Riefenstahl era aquilo a que, outrora, costumava chamar-se (decerto injustamente) uma cortesã. Enfim, e os mais sensíveis que fechem os olhos AGORA! – uma grandessíssima vaca. Sexualmente insaciável, preferia os esportistas vistosos. Mas abria assíduas exceções para qualquer homem que pudesse ajudar a sua carreira. E, em meados dos anos 30, ninguém melhor do que o Fuhrer. Quando acabou de ler o «Mein Kampft», ela ronronou para o amigo no outro lado do lenço: «Este é o tipo!»

Uma vez, na praia, Hitler abraçou a convidativa Leni, que não se fez de rogada. O líder nazi, porém, elevou as mãos ao céu e bradou: «Não tenho o direito de amar uma mulher, enquanto não completar a minha obra». Riefenstahl achou ótimo: teria a fama e o proveito, sem a canseira. Foi convidada para realizar, em Nuremberga, o documentário sobre o primeiro congresso do Partido Nacional-Socialista depois da chegada ao poder, em 1933. O filme, sugestivamente intitulado «O Triunfo da Vontade», obteve o primeiro prémio no Festival de Veneza e a medalha de ouro na Exposição Universal de Paris. Em 1936, ela rodou «Olímpia», sobre os Jogos Olímpicos de Berlim. Com tais obras, modelou quase toda a iconografia e o simbolismo visuais que ainda hoje detemos do nazismo – ou seja, uma estetização romântica e pomposa dos valores fascistas. É significativo que mesmo Susan Sontag, uma inimiga ferrenha de Leni, tenha considerado aquelas duas fitas «os melhores documentários jamais realizados». Para começo de conversa, não eram documentários (como Bach demonstra conclusivamente), na medida em que filmavam uma «realidade» encenada e postiça. Os nazis forneceram à cineasta milhares de extras, para que ela ensaiasse, exaustivamente, as suas geometrias humanas dos corpos arianos. Ou seja, cenas tão espontâneas como as coreografias de Busby Berkeley nos musicais da Metro.

Por fim, e no fim, Eva Braun reconquista a ribalta. Em Outubro de 1944, esta mulher ainda jovem (32 anos), redige o seu testamento. Em 7 de Março de 1945, fecha-se no bunker de Berlim, junto com Hitler. No dia 20 de Abril, há naquela cripta uma festa lúgubre: o quinquagésimo sexto aniversário do Fuhrer. Restava apenas uma via aberta, para sudoeste – mas o líder nazi recusou-a, autorizando os que quisessem partir (o primeiro a sair com o rabo entre as pernas foi Goering). A tímida Eva declarou: «Sabes que fico contigo, não deixo que me afastem!». Então, pela primeira vez, beijou-o na boca em público. No dia 28, Hitler desposou a Fraulein, treze anos depois do primeiro encontro. A noiva assinou «Eva Hitler» na certidão, e cortou o nome de solteira. No dia 30, o Fuhrer apertou a mão de todos os presentes, e o casal se retirou para os seus aposentos. Lá, Eva emborcou uma ampola de cianeto e o marido deu um tiro em cheio nos miolos (foi preciso pontaria). Mais chocante foi o gesto do casal Goebbels: também no bunker, não apenas suicidaram-se como assassinaram os seus seis filhos pequenos.

Hitler afirmou frequentemente que a multidão é uma mulher, e que as massas adoram ser dominadas como as esposas. Para ele, a sua verdadeira cônjuge era a própria Alemanha, uma nação que idealizava como uma donzela casta e pura, protetora e tranquilizadora. Pensando bem, o pior de tudo não foi essa tara funesta. Foi que a Alemanha correspondeu-lhe.

publicado por otransatlantico às 11:57
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Terça-feira, 6 de Julho de 2010

O ETERNO RETORNO DO ETERNO FEMININO

 

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Com mais ou menos floreados, os cosméticos sempre se arvoraram em Ponce de León – o espanhol do século XVI que teria descoberto a mítica fonte da juventude. Anos após ano, cremes e poções prometeram às mulheres beleza, viço, sensualidade e, por implicação, amor. Independentemente dos méritos dos produtos, do ponto de vista comercial a coisa resultou (com trocadilho) …lindamente. Afinal, a esperança é mais difícil de deitar fora do que um bumerangue velho.

Porém, o marketing da Dove reciclou o pregão. Criou a «Campanha pela Beleza Real». Segundo a empresa, trata-se «de uma iniciativa global, ainda no início, para catalisar e a ampliar a discussão e a definição da beleza». Ou seja: a Dove começou a assobiar a ideia (música para os ouvidos de inúmeras mulheres) de que a beleza é uma quimera fabrica pela midia – e tenta aposentar o padrão, delineando modelos plurais de beleza.

Não, não se trata de realçar a formosura interior – como disse o outro, «beleza interior é lingerie». A partir de agora, somos todos belos. Já há meses, a Dove lançara um creme com cartazes de «mulheres autênticas» – atraentes, mas de vários tamanhos (de Liliput a Brobdingnac). E anunciara produtos para os cabelos com centenas de mulheres de perucas louras idênticas (descritas desdenhosamente como «o género que aparece nas revistas»), que arrancavam as jubas artificiais e celebravam o seu cabelo genuíno (meticulosamente penteado e milimetricamente tingido). A revista «Advertising Age» (a bíblia do setor) proclamou que a campanha minava «décadas de publicidade, explicando às mulheres que estas são lindas como são». Mas a Dove aprofundou o safanão no paradigma, com um vídeo on-line de 75 segundos, («Evolution»), que introduz uma mulher aparentemente comum. Em 20 segundos, maquiadores e cabeleireiros fazem por ela o que a fada madrinha fez pela Cinderela: floresce uma beldade de olhos de aurora boreal, cabelos em cascata cristalina, feições esculpidas em mármore e pele de alperce. Depois entram em cena o mouse do computador e o abracadabra digital. Por fim, a Vénus nascida daquela concha postiça povoa outdoors com o carisma mesmerizante da Gioconda. A legenda: «Não admira que a nossa noção da beleza seja distorcida». Até ontem, o vídeo atraíra 10 milhões de visitantes nos YouTube (e no www.campaignforrealbeauty.com).

O conceito de beleza é assim tão fixo – ou, ao contrário, tão camaleônico? Já o grego Hesíodo gemia: «Quem é belo é querido, quem não é belo não é querido». O que desencadeou a Guerra de Tróia? Uma espécie de concurso de Miss Universo, vencido por Helena (claro que houve falcatrua). Outro ponto sugestivo: mesmo com os metrossexuais, a cosmética continua um santuário do segundo sexo – e repleto de alçapões. Como suspirou Agatha Christie: «A vida é dura. Os homens não gostarão de nós se não formos belas – e as mulheres não gostarão se o formos».

A Dove radicalizou a campanha com um anúncio em curso na TV portuguesa (e nos cartazes de rua), que mostra cinquentonas nuas em pelo. O slogan é veemente: «Dove is pró-age, not anti-age». Uma revolução copernicana? Até agora, envelhecer era como ser-se punido cada vez mais por um crime que não se cometeu – e o sonho secreto dos adultos correspondia a uma espécie de adolescência vitalícia. Um anseio aliás recente, como indica uma novela de Ian McEwan, ambientado em 1962: «Aquela ainda era a época – prestes a terminar – em que ser jovem era um estorvo social, uma marca de irrelevância, uma situação ligeiramente embaraçosa para a qual o casamento era o início de uma cura».

Ora, envelhecer não é assim tão mau, quando se pensa na alternativa... (e, quando somos caquéticos e encarquilhados, ninguém nos vem chatear com seguros de vida). E estamos a envelhecer mais. Até 2050, a esperança da vida das portuguesas (hoje de 79,9 anos) saltará para 84,7 anos. (A dos homens, hoje nos 72,9 anos, avançará para os 79.) No passado, a longevidade aumentou devido a progressos básicos, como o acesso universal a vacinas ou à água potável. Agora, será alargada graças a profilaxia através do ADN, ou cirurgias dantes tecnicamente impossíveis. O «papy boom», o choque demográfico que o envelhecimento da população provocará no futuro imediato (contraponto ao baby boom pós-II Guerra), terá um impacto não equacionado na economia, afetando os sistemas de aposentadoria. Comemorar o centésimo aniversário, atualmente privilégio de 0,01 por cento da população lusa, será uma façanha bem mais comum em 2050 (credo, imaginem quantos Manoéis de Oliveira farão filmes chatérrimos aos cento e muitos!). De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o número de centenários no planeta rondará os 2,2 milhões, 15 vezes mais do que hoje. Bom, quando ouço pessoas a discutir o controlo da natalidade, lembro-me sempre de que fui o quinto. Contudo, convém não esquecer de que a ordem divina ‘Crescei e Multiplicai-vos» foi dada quando a população mundial consistia em duas pessoas.

A Dove gera celeuma. Uma jornalista, Alex Kuczynski, publicou um livro-réplica: «Beauty Junkies». Alex defende as cirurgias, o Botox, as lipoaspirações. E ruge que as plásticas são um novo feminismo e um novo acivismo político. A argumentista Nora Ephron (de «Sleepless In Seattle» e «Um Amor Inevitável») contra-atacou com uma sátira: «I Feel Bad About My Neck» (top-ten do «New York Times»), onde, todavia, admite que as mulheres «precisam» de pintar os cabelos.

Haja saúde? Se há poucas gerações o flagelo mais temido era a fome, o maior fantasma dos países ricos é agora a obesidade. As top-models, magras como hologramas, estão a sendo intimadas a se empanturrarem ao menos com uma azeitona por dia – e só se recusam aquelas cujo cérebro é do tamanho de uma ervilha. Para a esteticista Lurdes Jesus, as dietas da moda, que baniam clãs inteiros de alimentos como serial-killers, perderam credibilidade, Hoje, os especialistas aconselham a não descartar carboidratos, gorduras e proteínas. Na hora H, o próprio ovo frito foi salvo da cadeira elétrica.

Em «Survival of the Prettiest», Nancy Etcoff parte a loiça das ilusões: a beleza realmente existe e, pior ainda, a desnaturada Mãe Natureza a distribui de forma desigual. Até os bebês, quando lhes mostram fotos de desconhecidos, fixam as caras que os adultos consideram mais belas. A beleza não é uma mera ficção social, e nem toda a moça é bonita da maneira que é. Como o resto da loteria genética, a beleza é injusta e fortuita. Toda a gente fica aquém da perfeição – mas enquanto alguns são limítrofes, outros jazem nos antípodas. Como grunhiu Freud, «anatomia é destino». Os parâmetros piraram? Umberto Eco, na «História da Beleza», diz que no século XXI reinará o ecumenismo: «Trata-se de ensinar a interpretar o mundo com olhos diferentes, a gozar o regresso a modelos arcaicos ou exóticos». Talvez, mas é provável que continuem a vingar certas regras. Como o paralelo entre o whisky e os seios de uma mulher: um é pouco, três é de mais. Se ficará mais difícil definir o bom gosto? Depende. Como sempre, foleiro é perguntar o que é chique. E chique é não responder. Afinal, a moda é aquilo que seguimos quando não sabemos quem somos. E, como confessou Coco Chanel, «a moda é feita para passar de moda.»

Numa conferência sobre manipulações biológicas, ouvi uma filósofa jurar a pés juntos que jamais faria uma plástica nem pintaria o cabelo. Mas ela admitiu que pagaria qualquer preço para ter mais 15 pontos de QI. Bem, como suponho que esteve implícito neste texto, parece que a verdadeira confiança não depende da beleza, mas exige autoconhecimento – a mais difícil forma de conhecimento…

 

(Artigo publicado na "Única", revista do semanário "Expresso")

publicado por otransatlantico às 19:06
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