Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

O MESTRE MAGISTRAL

 

 

 

Naquela época, quando o século XX já precisava de Botox (reparem na minha camisa estapafúrdia, em plena Cambridge e já atrasado para a aula) mas ainda não estava comatoso, o Repórter ainda era jovem o bastante para se julgar, se não sábio, ao menos sagaz. Porém, o que era dele estava guardado: George Steiner iria ensinar-lhe uma lição daquelas. Ou duas. Ou…

O Repórter vivia temporariamente em Londres e tinha uma namorada portuguesa, que tinha um carrinho italiano (um Fiat Mini), que tinha a direção do lado esquerdo, ao contrário do que é padrão na Inglaterra. A namorada fazia pós-graduação em Cambridge mas tomava o comboio para lá, legando ao namorado o previsivelmente minúsculo Mini. O Repórter quase nunca usava o carro, pois, perto da destreza dele, até um recém-nascido seria um ás do volante. Sobretudo num país cujo tráfego rolava com regras opostas às que ele estava acostumado. Preferia atravessar a nado (nu e lambuzado de mel) um rio infestado de piranhas em jejum.

Porém, naquele dia houve uma greve ferroviária e ele teve de ir com o Mini buscar a namorada em Cambridge (ela apanhara boleia só de ida com uma colega). Por causa do protesto o trânsito era compacto e lento. O repórter não se importou. Dado o país, o tempo até estava bom: os ingleses sabem que o verão chegou porque a chuva é mais quentinha.

Naquela época o fumador ainda não era um serial killer, e o repórter fumava que nem um proto-genocida. Entalado no engarrafamento, tirou o último cigarro do maço, amassou a embalagem e a lançou pela janela. Na frente do Mini palpitava e silvava um camião ciclópico, daqueles que parecem uma centopeia XL, com seus duzentos pneus. A porta do paquiderme de metal se abriu qual ponte levadiça e o camionista apeou-se. Tratava-se da ideia platônica do camionista: com a barba escanhoada a machado e uma compleição de Himalaia. Aproximou-se do Mini, que, intimidado, fingiu que era Micro. Curvou-se, agarrou o maço amassado e, brandindo-o como uma granada, interpelou o Repórter numa voz gélida:

- Foi o senhor (na Inglaterra, até os trogloditas são gentlemen) que perdeu isto?

A resposta soou inteligível mas esganiçada, em falsete:

- Fui…

- Então, da próxima vez perca as coisas no seu país! – Arremessou a granada para dentro do Mini e voltou para o seu Leviatã.

Um dia memorável: o Repórter começou a parar de fumar (ainda não acabou de parar, mas quase) e descobriu o seminário de George Steiner em Cambridge.

 

 

 

 

O Mestre nasceu em Paris, filho de judeus vienenses. É o homem do mundo mais universal de todos os tempos. Teve três línguas-mãe: alemão, inglês e francês. Aos seis anos, o pai dele, entusiasta da boa e velha educação clássica, ensinou o pequeno George a ler a “Ilíada” no original grego. Pela vida fora Steiner seguiu à risca a máxima de Goethe: “Nenhum monoglota conhece verdadeiramente a sua própria língua”.

Um mês antes de os Nazistas ocuparem Paris, a família Steiner fugiu da França. Dos judeus que eram colegas de escola de George, só um sobreviveu. A sombra do Holocausto marcou o Mestre e forneceu-lhe um tema obsessivo: “A minha vida inteira foi debruçada sobre a morte”. Como a cultura que gerou Bach também produziu Auschwitz? O nexo entre fogo de Prometeu e as cinzas dos fornos crematórios...

Quando começou a lecionar em Cambridge, Steiner não foi muito bem recebido pelos seus pares, precisamente pela proeminência que conferia ao Holocausto. Contudo, acabou por se tornar quase tão inglês como a Carta Magna (apesar de adotar a nacionalidade americana). Uma síndrome que contaminou vários filósofos estrangeiros na Inglaterra, como F. A. Hayek, Isaiah Berlin (cujo estilo de escrita foi comparado ao de “um Gibbon andando de motocicleta”), Karl Popper e até o idiossincrático Wittgenstein. Não que o Mestre podasse o hirsuto gramado da sua cottage com uma pinça, usando um chapéu de coco e um guarda-chuva enganchado no braço – mas quase.

E para Steiner foi moleza a adoção do wit – o proverbial humor britânico, sutil e rarefeito. “Quem seria crítico se pudesse ser escritor?”, exclamou certa vez. Em casa de ferreiro, espeto de pau: a sua própria ficção é sofrível, pelo menos comparada com a ensaística.

O Repórter não chorou de barriga cheia: o seminário foi um recital de erudição – um nadinha cabotina, como convém a um mandarim, mas sempre condimentada com epigramas mordazes e um carisma até histriônico. Numa aula alguém perguntou ao Mestre se ele nunca tinha lido nada leve quando era criança.

- Claro! Li “Moby-Dick”.

Na versão integral, naturalmente.

Sem ilustrações, como é óbvio.

No fim-de-semana, o centro acadêmico organizou uma visita a Stonehenge. Para assombro de todos, quando o autocarro estacionou o Mestre aderiu ao grupo, flanqueado por um amigo de fora que ia ciceronear. O Repórter sentou-se ao lado de um jovem oriental, que não deu um pio durante os 150 kms do percurso, sempre com o nariz e a testa colados no vidro da janela. Será que ferrara no sono? Ou cometera haraquiri furtivamente?

 

Stonehenge

 

 

Stonehenge é impressionante, mas os monolitos estavam rodeados por uma corda. Não, o Repórter não pretendia rabiscar com a Bic “Eu estive aqui” numa pedra hierática - mas foi um tanto anti-clímax. Pensou menos nos druidas ou na Matéria da Bretanha do que em Natasha Kinski, que por ali passara no auge do seu esplendor, como o cabide cinematográfico da Tess de Thomas Hardy.

De volta ao autocarro, o Repórter encalhou no corredor, atônito: não tinha reparado que havia dois jovens orientais sentados à janela na mesma fila que ele – qual deles era “o seu”? Não, não que “japonês é tudo igual” – ora, o Repórter praticamente não vislumbrara o rosto do seu esquivo parceiro! Enquanto ruminava, notou que o Mestre, já instalado, o observava com um sorriso irônico. Na aula seguinte, com toda a gente ouvindo Steiner como se ele fosse um salmista, o Mestre deu um jeito de gozar com a fobia histórica do “Perigo Amarelo” – e lançou uma olhadinha marota ao Repórter. Ainda hoje este se lembra de ter corado até ficar da cor do mirtilo (as bochechas fumegavam, a testa crepitava). O Mestre não perdeu tempo: “Já o Perigo Vermelho…” O Repórter entrou praticamente em combustão espontânea.

O Repórter sempre fora doido por citações, quase um colecionador. Aliás, uma das mais engraçadas (de Jô Soares!) é sobre o anúncio classificado de um colecionador: “Colecionador de coleções compra coleção de coleções”. Na aula de Cambridge, Steiner pontificava sobre aforismos e filosofia (de Pascal a Cioran) e mencionou um epigrama que o Repórter adorava. Mas com um lapso! Seria possível? Aquele enciclopedista? Era possível (naquela época nem o seu ouvido – nem outras partes mais temperamentais do corpo do Repórter – o enganavam). A frase era do poeta Robert Browning, e troçava da memória e, principalmente, do sentido: “Quando escrevi isso, só Deus e Robert Browning sabiam o que significava. Hoje, só Deus sabe”. Mas o Mestre trocara Browning por Tennysson!

O Repórter esboçou um sorriso mefistofélico: feito a vichyssoise , a vingança é um prato que se come frio. Levantou o braço como se hasteasse a bandeira das tíbias cruzadas e – arvorando uma humildade melíflua – corrigiu-o polidamente. O Mestre soltou uma gargalhadinha triunfal e deu palmadinhas na capa de um livro que tinha na outra mão.

- Ah, é um prazer verificar que vocês, apesar de a vida ser cheia de perigos coloridos, estão prestando atenção.

Agora o Repórter – e os colegas - podiam ver a capa do livro.

Era de Robert Browning. Uma marcador assinalava a página da citação.

O Repórter já não estava Vermelho. Muito menos Amarelo. Estava branco como uma aspirina. E precisando de emborcar uma caixa de aspirinas.

Mas a Lição não foi aquela. Com um homem que sabia 100 por cento de 99 por cento das coisas, o então presunçoso Repórter aprendeu que não sabia quase nada sobre quase tudo. Muitos anos mais tarde, numa autobiografia em que fala explicitamente sobre a sua vida sexual (aos 80 anos! Agora era a vez de os escolásticos de Cambridge corarem), Steiner confirmou que não pode ser acusado de falsa modéstia:

- Em meio século de magistério, encontrei apenas quatro pupilos (três homens e uma mulher) mais espertos do que eu.

O Repórter tem tanta certeza de não ser nenhum daqueles três como de que não é a quarta.

publicado por otransatlantico às 10:13
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