Quinta-feira, 5 de Agosto de 2010

CHURCHILL E OS CHARUTOS

churchill.jpg

 

 

Um belo dia, Freud estava a fumar e o paciente no divã grunhiu-lhe que o charuto é um símbolo fálico. O pai da Psicanálise engasgou-se, ficou da cor de um carro de bombeiros e esboçou um sorriso amarelo: “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”.

Para Winston Churchill, um charuto nunca era apenas um charuto, mas também um adereço mediático, um florete retórico e um prazer quase (presumivelmente…) incomparável. É o que realça o encantador livrinho Churchill´s Cigar, de Stephen McGinty, no fundo uma biografia transversal daquele que os espectadores da BBC elegeram o maior britânico da História. Churchill, de fato, foi um dos supremos paus para toda a obra de sempre: político genial, soldado valoroso, escritor brilhante (Nobel de Literatura) e pintor aceitável (mais de 500 telas, com exposição individual na Royal Academy, em 1959).

Expeliu a sua primeira baforada aos 15 anos, e nunca mais parou. Começava ao pequeno-almoço (café da manhã), e a média eram sete por dia – o que dá cerca de 180 mil ao longo da vida. O que o espectro do titã diria da nossa época antiséptica, para a qual o fumador é um híbrido de leproso com serial-killer? Talvez se contentasse em assinalar que morreu aos 90 anos. Ou talvez acrescentasse que o seu inimigo figadal (e nosso, já agora), o velho e mau Adolf Hitler, não bebia, não fumava e era vegetariano. Sim, o Fuhrer gostava de apregoar: “Não bebo, não fumo, durmo muito. É por isso que estou cem por cento em forma”. Até que Churchill perdeu as estribeiras e espumou-lhe: “Bebo como uma esponja, sofro de insónias e fumo como uma chaminé. É por isso que estou 200 por cento em forma”.

Eis um fascinante instantâneo de Winston no seu escritório: “Não inalava o fumo. Soprava-o em meditativos balões, ficando por vezes a olhar para eles como se fossem lagos com peixes, ou como se tivesse deixado cair qualquer coisa valiosa lá dentro e procurasse encontrá-la”.

Não era certamente a jovialidade, pois esta ele jamais perdeu. Como em certas reuniões do Ministério: “Fumava em silêncio, deixando que a cinza crescesse até representar metade do comprimento do charuto. Os ministros ficavam hipnotizados por aquele aparente desafio às leis da gravidade e quase esqueciam o que estava a ser dito, à espera de que a cinza caísse”. O que ignoravam é que o primeiro-ministro tinha espetado um longo alfinete no charuto, e era isso que estava a sustentá-la…

Um “puro havano” foi batizado com o nome do estadista, que uma vez confessou: “Tenho sempre Cuba nos meus lábios”. E na praça principal de Churchill, uma cidade pacóvia (caipira) da Austrália, foi erigido um monumento de 40 metros de altura, conhecido como ‘O Grande Charuto’. OK, é um monstrengo kitsch, como os seus conterrâneos ‘A Grande Banana’, ou ‘O Grande  Koala’.

Mas o que conta é intenção. Churchill sabia disso. E sabia também que, como os charutos acabam em cinzas, também nós temos de voltar ao pó. O que nunca o impediu de agradecer a Prometeu, por ter roubado o fogo aos deuses. Onde há fogo, há fumo.

publicado por otransatlantico às 11:34
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2 comentários:
De Pedro Neves a 12 de Agosto de 2010 às 10:26
Bom dia,

Este post aparece em destaque no Radar do SAPO, em http://www.sapo.pt

Boa continuação!

Pedro
De helena marques a 15 de Setembro de 2010 às 23:16
Adoro Churchil, li ha cerca de 4 meses uma biografia dele, era um homem espantoso, e quanto amim um dos maiores do s[eculo XX, curioso, talvez seja a tal sincronocidade junguiana de que ja falei aqui no post sobre o Koestler, hoje lembrei;me de Churchill, e da expressao que ele tinha quando a depressao o assolava, chamava.lhe black dog.

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