Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

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publicado por otransatlantico às 15:02
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Terça-feira, 19 de Abril de 2011

E AGORA, COM VOCÊS, HITLER!!!!!!!!!!!!

Floor Plan I. M. Pei Building - basement floor - German Historical Museum Führer Myth and Führer Movement  -   Hitler and the Nazi Party Transfer of Power and »National Revolution« German Society and Hitler The »Führer State« Führer Power and War of Extermination German Society at War Hitler and No End

Floor Plan I. M. Pei Building - basement floor - German Historical Museum

 

 

 

         

       

            Até 6 de Fevereiro de 2011, no Museu de História da Alemanha, em Berlim, poderá ser visitada a mais completa exposição sobre Adolf Hitler desde o fim da II Guerra Mundial. Ou seja, de todos os tempos. Entre os curadores, comandados por Hans-Ulrich Thamer, pontificam ecumenicamente as maiores sumidades no assunto – do conservador Michael Stumer ao esquerdista Reinhard Rurup. O evento contempla os inúmeros âmbitos da personagem: histórico, político, militar, diplomático, estético, etc. Hitler continua sendo um tema tão melindroso que a exposição demorou seis anos para ser articulada – tantos como a guerra mundial que o seu protagonista desencadeou.

            A intenção – mais nas entrelinhas do que nos discursos oficiais – é exorcizar de uma vez por todas o tabu e equacionar Hitler como uma criatura histórica inteligível, e não como o Anticristo (no seu último romance, Norman Mailer apresentou Hitler como o sócio de Belzebu). Há alguns problemas nesta “secularização” da Besta. Primeiro, as desmioladas especulações brandidas para “decifrar” o genocida: que ele tinha apenas um testículo, que era fruto de uma relação incestuosa, que era um gay enrustido (tese de Lothar Machtan), que continha uma raríssima espécie de gene (especialmente perversa), e por aí vai. Ah, durante a I Guerra, Hitler foi condecorado com a Cruz de Ferro, em 1918, depois de ser temporariamente cegado por gás mostarda. Examinado por um psiquiatra, este diagnosticou-o como psicopata. Quantas encrencas nos teriam sido poupadas se o tivessem agasalhado numa camisa-de-força e jogado o cadeado fora.

            Depois, e tão intrincada como a racionalização deste Bicho Papão, é o nexo do Fuhrer com os alemães – antes e agora. Hitler teve envolvimentos heterossexuais em diferentes graus. Desde a sua sobrinha Geli à cineasta Leni Riefenstahl, que só faltou estuprá-lo (ele defendeu-se muito melhor do que a linha Maginot), culminando em Eva Brau. Mas, como o próprio Fuhrer professou frequentemente, “a multidão é uma mulher, e as massas adoram ser dominadas como as esposas.” Para ele,  sua suprema amante era a própria Alemanha, uma nação que idealizava como uma valquíria casta e pura, protetora e tranquilizadora. Pensando bem, o pior de tudo não foi essa tara funesta. Foi que a Alemanha lhe correspondeu passionalmente. Em um comício em 1936, perante o chilique de 140 mil extáticos apoiantes, Hitler salmodiou: “Vocês terem me encontrado, entre milhões de pessoas, é um milagre da nossa era”.

            E foi esse o principal abacaxi que os curadores tiveram que descascar – por assim dizer, assinar de uma vez por todas os papéis desse divórcio/viuvez. E sempre com um olho nos neonazistas (para que estes não convertessem o Museu em santuário) e o outro no politicamente correto (para não falar nas associações de vítimas do Holocausto, Telavive, etc.).

            A opção dos curadores, no que concerne ao acervo, foi pelo minimalista. Isto é, nada daquele monumentalismo ciclópico, encomendado a Speer e que inspirou a Walter Benjamin a observação famosa: “O fascismo estetiza a política.” Nada de paradas militares com milhares de robôs de carne e osso em passos-de-ganso uníssonos, numa versão demoníaca das coreografias de Bubsby Berkeley. Nem dos Super-Homens arianos e apolíneos filmados por Riefenstahl em Olímpia. Implicitamente, o conceito dos curadores foi, se não “small is beaufiful”, pelo menos “small is awful enough”. Assim, declinaram a oferta do exército americano de um retrato tamanho-família de Hitler, apreendido após a rendição germânica, para o átrio da exposição.

            A obsessão de não confundir a mostra com uma homenagem fez com que o próprio título do evento fosse alterado. No início, era apenas “Hitler”. Em seguida, considerou-se apropriado dar o nome aos bois e vincular o Fuhrer ao seu povo. A exposição/expiação intitula-se, cruamente, “Hitler e os Alemães – Nação e Crime”. A História é que não discordará. Afinal, a poucos metros do museu está a praça onde, no infame maio de 1933, bruxuleavam as labaredas dos livros queimados pelas multidões nazistas, em piras cada vez mais altas. E se algum judeu era usado como fósforo, melhor ainda.

            Na verdade, todo cuidado é pouco, sobretudo com a União Europeia a vacilar à beira do abismo de uma crise econômica que ameaça o Estado-Providência. No próprio dia da inauguração, foi divulgada uma pesquisa segundo a qual 1 em cada 10 Alemães aprovaria “um líder forte”, um “Fuhrer”. E quase 40%, que suspiram de saudades do robusto marco (substituído pelo tempestuoso euro) afirmaram que a Alemanha está “perigosamente ameaçada pelos imigrantes”. Isto apesar de o índice de emprego nas empresas alemãs ser praticamente o único na União Europeia que voltou a crescer.

            É certo, porém, que o tabu que rodeava o Fuhrer vem mudando há algum tempo – daí os curadores terem finalmente peitado o desafio. Para os jovens de hoje, o messias do III Reich já não é mais um avatar histórico do vilão de Harry Potter (“Valdemort”), “Aquele Que Não Se Deve Nomear”. E, para os adultos, Hitler já não é mais como a palavra “câncer”, que faz a nossa língua relutar supersticiosamente. Embora o Partido Nacional-Socialista continue proscrito, assim como a utilização da suástica, nos últimos anos proliferaram biografias e documentários televisivos sobre o austríaco que um dia se definiu como “o homem mais duro que jamais existiu.” Em 2004, o tabu levou mais um tranco com o premiado filme “Downfall”, que relata quase com uma lupa os últimos dias de Hitler no seu bunker berlinense. A obra foi aclamada por mostrar o Fuhrer como uma pessoa (ainda que odiosa) e não como um mutante apocalíptico. Por outro lado, a “persona” de Hitler ainda é protéica, difícil de sistematizar, dada a sua sedimentação no imaginário contemporâneo como a quinta-essência do Mal absoluto. Uma tentativa de instalar uma representação de cera do Fuhrer no congênere alemão do Museu Madame Tusssaud acabou com a decapitação da estátua…

            Assim, antes de aprovarem o catálogo da exposição (25 euros e quase 400 páginas, não tanto devido às peças mas aos eruditos ensaios que as acompanham, incluindo um sobre “o papel das esposas na guerra”), os curadores passaram cada item a pente fino. Logo na entrada, em vez do quadro majestático sugerido pelos americanos, o visitante se depara com três fotografias: Hitler como agitador partidário, como chanceler e – numa arrepiante fotomontagem – como efígie da própria Morte. Significativamente, o ditador nunca é exibido sozinho, mas sempre engastado no contexto social, político e militar em que atuou.

            Algumas das peças mais interessantes – e perturbadoras – nem sequer introduzem o Fuhrer, mas documentam a tal promiscuidade e empatia entre ele e o seu (Hitler arrancaria o bigodinho de taturana se lesse esta analogia) próprio “povo eleito”. Por exemplo, uma tapeçaria bordada por duas associações femininas, que representa a Juventude Hitleriana, as SA e a Liga das Moças Germânicas, marchando para o porvir radioso da raça pura. A legenda da tapeçaria, também bordada em ponto-cruz, é o Pai-Nosso… Outro item sugestivo, até pela sua singeleza prosaica, consiste numa caneca de recolha de esmolas para a caridade, que num primeiro momento parece tocante, até vislumbrarmos nela uma pequena suástica.  

            A ansiedade dos organizadores em evitar qualquer identificação do visitante com o Fuhrer – muito menos como um carismático visionário - ditou decisões inopinadas. Vemos numerosas imagens de Hitler, de fotos a bustos em pedestais, mas nunca o ouvimos: nem uma sílaba dos seus torrenciais discursos, proferidos com aquele histrionismo entre operático e a gesticulação de um guarda de trânsito. O espectro foi amordaçado.

            E objetos mais pessoais são quase escamoteados, confinados em pequenas caixas, gavetas ou estojos. É o caso do livro de fotografias “O Hitler Que Ninguém Conheceu”, de Heinrich Hoffman, o fotógrafo predileto do Fuhrer, bem como de um baralho cujas cartas ostentam líderes nazistas, de Hitler a Rudolf Hess. Uma escrivaninha de Hitler, que guarnecia a Chancelaria do III Reich, está pendurada no teto, toda torta, em vez de simplesmente pousada no chão.

            A última sala da exposição apresenta 46 capas da revista “Der Spiegel” sobre Hitler e o nazismo. Do título mais antigo (“A Anatomia de um Ditador”, de 1964) ao mais recente (“Os Cúmplices”, de 2009), tais matérias também refletem uma mudança na percepção da História. Na mesma sala, estão ainda os falsos “Diários do Fuhrer”, publicados pela rival “Stern”. O que não impediu a “Spiegel” de criticar a exposição, argumentando que, 65 anos depois do fim da II Guerra, os curadores continuaram condescendentes e paternalistas em relação ao público alemão, lidando com a “memorabilia” hitleriana como se fosse pornografia.

            Por isso, muitos duvidam de que a exposição cumpra o seu objetivo subreptício: cravar uma estaca no coração do morto-vivo. Aliás, como reconheceu um dos principais organizadores, Simone Erpel: “Ainda falta muito para acabarmos com Hitler. Cada geração tem de encontrar suas próprias respostas.”

            Quando, em 1945, os soviéticos confirmaram a descoberta dos restos mortais de Hitler, o repórter da revista “Newsweek” escreveu: “Por uma vez, a morte pôs um sorriso nos lábios da Humanidade.” Talvez esse sorriso tenha sido prematuro – e um fantasma ainda ronde a Europa.

 

                                                          

(TEXTO PUBLICADO NA REVISTA "PIAUÍ")

           

publicado por otransatlantico às 19:24
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“CONSIDEREI ESCREVER UM ROMANCE NO QUAL O EQUILIBRISTA CAÍSSE”

Deixa o Grande Mundo Girar venceu no ano passado o National Book Award, o principal prémio literário dos EUA. O autor é o irlandês Colum McCann, radicado em Nova Iorque, onde dá aulas numa faculdade. O eixo do romance evoca uma proeza histórica: na manhã de 7 de Agosto de 1974, o funâmbulo francês Phillipe Petit atravessou as Torres Gémeas (então ainda por inaugurar), caminhando sobre um cabo de aço a 110 andares de altura, quase meio quilómetro do chão. Petit desafiou várias leis, a começar pela da gravidade: correu, saltou e até dançou entre os mesmos prédios que, 27 anos depois, seriam destruídos pelos terroristas no 11 de Setembro. A corda bamba do equilibrista – hoje com 59 anos – ata um naipe de personagens inteiramente fictícios, mas convincentes e memoráveis. Colum McCann falou com exclusividade ao Expresso.

PAULO NOGUEIRA: Com o 11 de Setembro em mente, um equilibrista a dançar sobre abismo entre as Torres Gémeas é uma metáfora poderosa, emocionante e bela. E, simultaneamente, um fato verídico e inegável. Quando ocorreu-lhe a ideia, não se sentiu eufórico – quase abençoado – por nenhum outro romancista ter chegado primeiro? Certo, já havia dois livros sobre a façanha, mas de um gênero muito diferente: as próprias Memórias de Petit, e The Man Who Walked Between the Towers, a novela para crianças de Mordicai Gerstein, que ganhou em 2004 o Caldecott Award. Mas, no que diz respeito à ficção adulta, o ovo de Colombo era todo seu…

COLUM MCCANN: É verdade – foi empolgante “descobrir” tal imagem. Um daqueles momentos em que ficamos sem fôlego. Porém, foi também aterrorizante. Não estava nada seguro de como lidar com aquilo. No princípio (em 2002, e sobretudo em 2003, quando começou a invasão do Iraque), eu achava que gostaria de jogar com a ideia de história: pervertê-la, distorcê-la, arruiná-la, na medida em que tantas coisas estavam a ser aniquiladas no mundo naquela altura. Acredite se quiser: quis escrever uma história em que o equilibrista caísse... Claro que seria uma analogia política mas, quanto mais me afastava desta ideia, mais pueril ela me parecia. Ainda bem que não me aventurei por aí! Pelo contrário, as minhas reflexões amadureceram e comecei a pensar mais na justiça do que na vingança. E também sobre a regeneração. E assim, espero, o livro se tornou mais complexo e compassivo.

É importante realçar que não se trata de uma “ideia” original, no sentido em que Petit realizara a caminhada e já havia as obras que citou. Porém, concordo com a observação de John Berger, de que “nunca mais uma história será contada como se fosse a única.” E o meu romance não é realmente “sobre” a caminhada entre as Torres. Uso-a, mas não é o cerne da narrativa. Todos percorremos cordas bambas. Por vezes a meio quilómetro do solo, por vezes com os pés no chão…

 

E: A despeito da moldura de dois fatos históricos – a caminhada de Petit e o 11 de Setembro -, o seu romance parece mais interessado numa variedade de vozes e nas respectivas conexões, do que em descrições pormenorizadas no tempo e no espaço. Por outro lado, temos os dois lados da moeda nova-iorquina: Park Avenue e o Bronx…

CM: Tentei compor uma espécie de sinfonia verbal da cidade, usando todos os instrumentos e todas as vozes. Suponho que quis ouvir a música do sítio que amo. E assim perceber também que todas as vozes são necessárias. Estamos todos estreitamente ligados, às vezes para o bem, às vezes para o mal. Desde sempre escrevo sobre personagens à beira do abismo – portanto, não deixou de ser um alívio abordar igualmente os abastados, para criar um complexo mosaico humano.

E: O paralelismo elíptico entre a proeza de Petit e o 11/9 não é o único. A lutuosa Claire, por exemplo, podia ser o paradigma de qualquer mãe que perdeu o seu filho numa das guerras mais recentes da América. E há esta frase, que soa familiar: “As mentiras repetidas tornam-se história, mas não se tornam necessariamente verdade.”   

 

CM: Sim… Creio que foi Hegel quem disse que a história é um consenso sobre as mentiras. E suponho que eu estava consciente de que o Vietname pairava sobre o Iraque. Do mesmo modo que os piratas informáticos e os viciados em telemóveis refletem a ubiquidade da tecnologia nos dias de hoje. Eles experimentam a “caminhada” da mesma maneira que, actualmente, ficamos a saber de cada fato no momento em que ele acontece. Mas também há questões no romance sobre arte, fé e pertença, que são questões do quotidiano. Faulkner assinalou que a boa literatura é sobre “o coração humano em conflito consigo próprio.” E assim é em qualquer época e em todos os tempos.

 

E: O Colum nasceu na Irlanda, rodeado de uma formidável tradição literária. A Torre Martello (outra torre…), onde o Ulysses de Joyce começa, aparece duas vezes no seu romance, significativamente no início e no fim. 7 de Agosto de 1974 é o seu Bloomsday?

CM: Não: o Bloomsday é o meu Bloomsday (logo envio-lhe uma crónica em que falo disto). É completamente impossível existir outro que não o original…

E: Um crítico americano queixou-se da sua competência quanto à gíria dos nova-iorquinos, embora o Colum já viva e leccione em Nova Iorque há muitos anos…

CM: Estou perfeitamente preparado para admitir equívocos. É importante para um escritor ser humilde e enfrentar os seus erros. Aliás, reconheço que cometi alguns enganos no romance – mas não esse que o crítico apontou! Sinceramente! Submeti os meus diálogos a dezenas de nova-iorquinos de gema – de todos os estratos sociais -, e todos disseram que estava tudo irrepreensível. Empreguei o dialeto Afro-americano e pesquisei meticulosamente o calão dos anos 70. Ora, o crítico em causa queria eu escrevesse “pão torrado” em vez de “pão branco”, o que simplesmente não é mesma coisa…

E: Suponho que assistiu ao documentário de Phillipe Petit, Man on Wire. Em caso afirmativo, como se sentiu? Estou a pensar numa frase sua: “Uma foto é como um pequenino romance.”

CM: “Uma foto é como um pequenino romance.” É uma óptima frase! Onde é que eu disse isso, Paulo?! A sério: achei o documentário fabuloso. Também percebi que era muito diferente daquilo que pretendia fazer. Insisto: este é um mundo multifacetado, e cada história tem rostos diferentes sob uma luz diferente e de acordo com o operador de câmara…

E: Optou por não citar o nome de Petit no seu romance. Encontrou-o pessoalmente? Antes ou depois de escrever o livro?

CM: Encontrei-o pela primeira vez há muito pouco tempo, em Mântua, Itália. É um grande homem, bastante complexo e com imensa vida interior. Respeito-o e admiro-o como artista. Ainda não sei se ele gostou ou não do meu livro… Oxalá que sim, mas não é indispensável… Phillipe não está propriamente no romance, e sim uma espécie de sombra/avatar dele.

E: Nos agradecimentos no final do romance, o Colum diz: “A literatura pode recordar-nos de que a vida não está toda escrita – ainda existem inúmeras histórias para ser contadas.” E quanto à sua vida: é um homem e um escritor feliz?

CM: Excelente pergunta! Eu próprio às vezes faço-a aos meus colegas escritores. Sim, sou uma pessoa feliz. E quero ser um escritor feliz. Isto não significa que quero escrever apenas sobre a felicidade, claro. É difícil lançar a felicidade à página, a menos que as trevas também já lá estejam.

 

Despeço-me e penso - mas não digo, pois escreverei agora: o estilo deste irlandês - volta e meia elegíaco, porém sem nunca descambar no sentimental - adensa o livro e faz o intimismo transcender o épico balofo. Exemplo: ao adejar sobre o abismo entre as torres, Petit sente que aquilo “era como fazer amor com o vento.” Dificilmente, rumino, foi isso o que os terroristas sentiram a caminho da sua imolação assassina.                              

 

 

 

                                                                                             

 

PAULO NOGUEIRA

publicado por otransatlantico às 18:54
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Domingo, 24 de Outubro de 2010

CLARO QUE ELE ADORA PITBULLS

 

 

 

Antes de Dashiell Hammett publicar O Falcão de Malta em 1930, o assassino dos romances policiais podia não ser o mordomo, mas este era sempre suspeito. A vítima era uma oficial reformado da Marinha britânica ou algo assim, simpático e gagá. E o detective era um snob que fumava cachimbo, jogava xadrez ou cultivava begónias. O crime ocorria numa cotagge, geralmente na biblioteca, e o criminoso, ao escapulir pela janela, espezinhava os arbustos e imprimia pegadas na relva com tal veemência que até o inspector Closeau seria capaz de segui-las – porque o assassino usava uma perna de pau e, no outro pé, um sapato número 48. O detective disfarçava-se de fumador de ópio e se embrenhava nos antros de Londres para achar a pessoa que, como a Cinderela, correspondesse àquela descrição.

Exagero, claro. O romance policial clássico que os ingleses produziram entre 1880 e 1930 inclui obras notáveis. Mas Hammet injectou realidade no género (o crime não era um hobby, mas uma profissão, e era praticado por uma razão concreta, ainda que passional, e não para alternar com uma partida de bridge). Depois vieram Raymond Chandler (o Proust do policial), Elmore Leonard e James Ellroy. Sou um leitor omnívoro (dos poetas metafísicos do século XVII aos metafísicos alemães propriamente ditos) – mas admito que tenho um forte fraquinho pelo thriller. Por isso calculem a minha alegria ao entrevistar, pessoalmente, James Ellroy. Infelizmente, vi logo que o prazer não era recíproco.

O escritor tem 63 anos, mas aparenta mais. É esguio e elegante, quase janota, como um Tom Wolfe amarfanhado. Exalava crispação por todos os poros. Adicionei a diplomacia à verdade ao proclamar-me “um grande fã. É uma honra conhecê-lo”. Ele reagiu como se eu tivesse dito que estava a chover ou que eram três da tarde. Sentámo-nos e liguei o gravador, que Ellroy fitou como se fosse uma substância saída de algum intestino.

Achei aconselhável começar por um ângulo ameno, para desanuviar. “Sei que, há muito tempo, trabalhou como caddy…” Ele grunhiu, efusivamente: “Sim”. Perseverei: “Aprendeu a jogar golfe? Aprecia algum desporto?”. “Não.” Era evidente que a negativa abrangia as duas perguntas (e muitas das próximas), e que ele considerava uma entrevista uma modalidade de desporto.

Bem, era óbvio que o meu interlocutor estava a evoluir de descontente para furioso. Examinei-me de esguelha: teria a braguilha aberta? Uma coisa verde nos dentes? Nada. A minha intenção ao invocar o biscate do golfe era pô-lo a falar sobre a sua “estação no Inferno”: na adolescência, a mãe dele foi assassinada, expulsaram-no da escola e de casa, dormiu em parques e sob viadutos, pilhou lojas de conveniência, invadiu lares para surrupiar cuecas femininas, tornou-se alcoólico. Depois veio a literatura, a sublimação, a redenção: tinha 30 anos quando publicou o primeiro livro. Era aí que eu queria chegar. Tudo bem. Bastava de questiúnculas.

“Intitulou quatro dos seus romances O Quarteto de Los Angeles, culminando no White Jazz, que acaba de sair em Portugal. Inúmeras das suas obras se desenrolam na mesma cidade. Porém, se não me engano, hoje vive em Kansas City. Agora concorda com Chandler, segundo o qual ‘L.A. tem tanta personalidade como um copo de papel?’” Ele fez um esgar de nojo. “Está enganado. É a segunda vez em duas perguntas. Moro em Kansas City, mas ainda resido em Los Angeles. E Chandler era um péssimo escritor. Não percebia patavina de policiais”.

Engoli em seco. Agora Ellroy já não falava: rangia os dentes audivelmente. Comecei a ter saudades dos eloquentes monossílabos. Mas sou um profissional: “Por causa da sua prosa pessimista, já foi chamado o Demon Dog do policial americano. Mas alguns dos seus protagonistas – o tenente Klein, por exemplo – têm a sua própria e visionária moralidade…” Pronto, eu preparara o terreno para Ellroy pontificar como um Péricles contemporâneo. Ele catapultou-se da cadeira com uma expressão de indignação cósmica, como se eu tivesse jurado sobre a Bíblia que 1 + 1 = 3. “Criei Klein há 20 anos! Não me interessa peva!”. Imaginei Shakespeare a vociferar para um repórter isabelino: “Que se lixem Macbeth ou Hamlet. Só falo sobre Próspero!”.

Esbocei um sorriso amarelo. “É visto como um conservador. Mas opôs-se à pena de morte e defendeu a restrição à venda de armas…” Olhou-me profunda e sugestivamente nos olhos: “Sou a favor da pena de morte. Certas pessoas não merecem viver.”. Desatei a divagar com um derradeiro e lancinante recurso ao Governador do Estado. Ellroy acrescentou: “Mas é verdade que aprovo o controlo do comércio de armamentos”. Animado, tentei estabelecer uma cumplicidade melíflua: “Eis um mistério que gostava que me ajudasse a solucionar. Vários dos melhores escritores policiais são mulheres. No entanto, as estatísticas indicam que poucas leitoras gostam de thrillers. Tem uma pista?” “É verdade que há boas autoras de policiais. Não faço a mínima ideia porque as mulheres não simpatizam com o género”. Olhou para o relógio. Só faltou sacudi-lo. Para continuar no âmbito criminal, a cara dele agora lembrava a de Al Capone com a mãe de todas as enxaquecas.

E se lhe desse uma oportunidade de desancar nos contemporâneos? Afinal, Ellroy não se cansa de repetir que não lê os colegas, “para não ser influenciado” (apesar de ser mais compreensivo com as gerações anteriores: “Sou como Tolstoi para o romance russo e Beethoven para a música”). Adiante: “Nos últimos tempos, o policial foi reduzido a duas vertentes: a dos serial killers, e a da antropologia forense, com computadores e análises de DNA…” Ele revirou os olhos. “Eu já escrevia sobre essas coisas há séculos”.

OK, então algo que ele também escreveu e que é o seu monograma. “Parece preferir as forças policiais institucionais aos detectives particulares….” “Claro. Os investigadores privados não percebem nada do assunto. São amadores.” Hum. Lembrei-me de que ninguém leva a mal um elogio. “Diversas obras suas foram adaptadas para o cinema. L. A. Confidencial foi nomeado para nove Óscares e ganhou dois. Como se sente ao ver os produtos da sua imaginação projectados no ecrã?”. “É só uma forma de ganhar dinheiro”.

Pronto, então vamos para A Tempestade (afinal, eu já estava sob uma tormenta desde o início). “O seu novo romance, Blood’s a Rover, conclui a trilogia Underworld USA (será editado cá em Outubro). O livro reconstitui factos históricos, e apresenta personalidades célebres, como Howard Hughes e J. Edgar Hoover. Será correcto afirmar que se trata menos de uma obra policial que de ficção histórica?”. “Sim”

Sim? Ele disse “sim”? Achei melhor parar por ali e desliguei o gravador. Pela primeira vez, Ellroy não apenas concordou comigo como pareceu tolerar o facto de eu respirar (ou arfar). Despedi-me a pensar que, apesar da empatia e compaixão que os seus livros contêm, ele é o escritor mais antipático que já conheci. E olhem que a concorrência é renhida.

 

Ora, outro dia, Elrroy deu uma entrevista à sua própria namorada, a também escritora

 

Erika Schickel (aliás, bem mais jovem, simpática e bonita do que ele- uns com tanto, e outros com tão pouco!). Reparem como o Demónio da Tasmânia tratou-a. Não é defeito, é feitio. O pretexto da conversa é mais uma obra sobre a mãe do escritor, cujo assassino nunca foi apanhado.

 


 


publicado por otransatlantico às 17:58
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PASSAGEM PARA A ÍNDIA

 

 

Em novembro, Arundhati Roy completará 50 anos. Em que circunstâncias? Até 1996, data da publicação do romance O Deus das Pequenas Coisas, era uma ilustre desconhecida. A partir daí virou uma das escritoras mais badaladas do mundo, xodó da crítica e dos leitores globais. Mais tarde, porém, deu uma banana para a literatura, a fim de se embrenhar no ativismo político apartidário, 25 horas por dia, metendo o bedelho numa gama fervilhante de assuntos, sempre ruidosamente e sempre gerando crispação, adesão e polêmica.

Roy vive numa cobertura em Nova Delhi, a capital da Índia. O pai dela tinha uma plantação de chá e a mãe era uma feminista empenhada. Ao conhecer o seu segundo marido (o primeiro não vem ao caso), o cineasta Pradip Krishen, Roy se envolveu com o mundo do audiovisual. Interpretou até o papel de uma camponesa num filme de Krishen. Como não queria depender dele, exerceu vários bicos, incluindo dar aulas de aeróbica num spa de luxo (jovem, ela era de parar o trânsito – o que, nos perpétuos engarrafamentos de Nova Delhi, não é difícil). E começou a escrever roteiros para o cinema e a TV.

Arundhati é uma crítica feroz de Bollywood, a indústria cinematográfica indiana, que chegou a ultrapassar Hollywood em venda de ingressos. Deplora a dimensão folclórica das produções locais, geralmente dramalhões regados à música delicodoce e… culinária. Para não falar no proverbial patriarcalismo. Roy saudou o recente Khap – A story of honour killing, de Ajai Sinha. O filme narra o dilema de um hierarca tentado a mudar as suas convicções sexistas por amor à sua neta. Suscitou uma celeuma ensurdecedora. “Estava na cara!”, diz Roy, dando uma palmada na coxa. “É natural que as pessoas se escandalizem. Mas o importante é que reflitam sobre o filme.”

O lançamento de O Deus das Pequenas Coisas, que conjuga reminiscências da infância da autora no campo com a história da esquerda na Índia – tudo banhado num exotismo lírico e comedido – entronizou Roy como ficcionista de renome planetário. O romance embolsou o Booker Prize de 1997 e entrou na lista dos melhores do ano do New York Yimes. O sucesso comercial não foi menos atronômico: só de adiantamento, a escritora recebeu 1 milhão de dólares. Editado na Índia em maio, no final de junho o livro já tinha sido vendido para 18 países. Na Grã-Bretanha o entusiasmo foi mais matizado, apesar do Booker Prize. Um dos jurados do prêmio chegou a grunhir que a obra era “execrável”.

Por volta de 2001, Arundhaty deu uma guinada. Os atentados dos extremistas muçulmanos nos EUA e a retaliação americana provocaram nela uma epifania intelectual, uma espécie de “contra-catarse”. Mais ou menos como a operada no ensaísta Christopher Hitchens, que de guru de uma certa esquerda cosmopolita e literária formulou o conceito de islamo-fascismo e defendeu as invasões do Afeganistão e do Iraque. Roy foi no sentido oposto.

Para compreender a renúncia dela à literatura e a opção pela militância, convém olhar para a Índia. Houve uma época em que alguns economistas, para definir o Brasil, falavam numa “Belíndia” – com tantos contrastes, o País seria uma mistura de Bélgica com Índia. Ora, hoje a própria Índia é uma Belíndia… A terra de Gandhi, Tagore e Ray é agora um dos BRIC (ao lado dos outros emergentes: Brasil, Rússia e China), Bangalore consiste no seu Silicon Valley. Entra ano, sai ano, cientistas indianos açambarcam prêmios Nobel de Física, de Química, da Medicina, o escambau.

Porém, quem percorre as ruas de Nova Delhi (ou de qualquer cidade do subcontinente) fica embasbacado com indescritível miséria, imundície e degradação urbanística. Perto de Nova Delhi, a Rocinha é Mônaco. Trata-se de um país-pária, uma nação-intocável. Milhares de prédios são habitados com a construção interrompida e gangrenada, verdadeiros abortos arquitetônicos. Vacas (e um eventual elefante) competem no tráfego das principais avenidas com os tuck-tuck (versões atuais dos riquixós, puxados ou por ciclistas ou motociclistas) e ônibus caindo aos pedaços. As calçadas são canteiros de lixo gorgolejante e dormir em plena rua constitui um hábito corriqueiro não apenas dos sem-teto, mas de qualquer um que esteja fora de casa, esperando um transporte que só vem amanhã (se vier). A ONU calcula que 55 por cento (638 milhões) da população da Índia defecam ao ar livre. E são numerosos os mictórios escancarados (sem tetos nem portas, uma parede com um buraco), utilizados só pelos homens. As mulheres provavelmente contam até mil.

As razões para esta sordidez dantesca são várias, mas três se destacam: a demografia (o formigueiro indiano tem 1,2 bilhão de habitantes), os anacronismos religiosos como a questão das castas e a corrupção quase molecular (a evasão fiscal é alucinante). E é devido a disparidade entre uma nação moderna e até digital por um lado, e por outro pavorosamente injusta e desigual que Roy renunciou às palavras ordenadas para se dedicar às palavras de ordem. Décadas antes, Gandhi fez algo parecido – só que a resistência da escritora nada tem de “passiva”. É mais tipo boca no trombone e botar pra quebrar.

Roy vive em um singelo prédio de quatro andares num recanto discreto de Nova Delhi – um plácido atol no meio de um colossal Triângulo das Bermudas. Não se trata, claro, daquelas mastodônticas torres/fortalezas em que os bilionários indianos se barricam nos seus condomínios fechados, patrulhados por exércitos privados que davam para pacificar o Iraque e o Afeganistão com um pé nas costas (e o Paquistão de lambuja).

A escritora mora no último andar. Atravessamos a sala, decorada com simplicidade, cartazes de filmes e estatuetas orientais, cortinas em tons pastéis quase translúcidas, para conferir uma sensação de ventilação e arejamento. Ainda assim, vindo esturricado da rua, ao ver o aparelho de ar condicionado tive de me refrear para não montar cavalinho nele. Não havia mais ninguém, nem o marido (a não ser nas molduras), nem sons de outra presença humana – reinava um silêncio de abadia. Roy guia-me até ao terraço no telhado, onde há floreiras com flores estóicas, uma gaiola com um periquito dorminhoco, mesa e cadeiras de vime e um toldo puído. “Só se aguenta estar aqui no final da tarde”, explica ela, fitando o meu rosto afogueado. “Desde que passemos repelente de insetos, naturalmente”. Até aí, tudo bem: eu tinha me lambuzado com repelente que dava para afugentar uma praga bíblica de gafanhotos. Enquanto me atrapalhava com o gravador, Roy pediu licença por um minuto e se ausentou.

Uma das primeiras campanhas dela foi contra a construção da barragem de Narmada. Soa contraproducente, pois uma das maiores carências da Índia é o saneamento básico (o Ganges é a cloaca onde grande parte do país ainda se banha e lança os seus mortos, para não falar nos animais em decomposição e no lixo industrial). Mas Roy alega que “a represa é uma falsa solução: deslocará meio milhão de pessoas, e não suprirá nem irrigação nem água potável “. Por causa dos seus protestos, Arundathy foi processada pelo Estado. No tribunal, aproveitou que estava com a mão na massa: denunciou a corrupção nos concursos públicos para a construção da obra. Recusou-se a pedir desculpas e foi condenada a um dia de prisão e a uma multa de 2500 rupias.

Regressou minutos depois, com um bandeja, duas xícaras e um bule. “Quer chá?” Querer, não queria, pois era quente como lava. Reconheci o massala chai, o chá que todos os indianos consomem, independentemente da classe social – uma espécie de sandálias havaianas da Índia. Até agora eu tinha conseguido escapar. Bem, beco sem saída. O gosto até é bom, com umas gotinhas de leite e especiarias que não identifiquei. “Sabia que foi uma portuguesa que introduziu o chá na Inglaterra?”, perguntou Arundathy, enquanto eu soprava furtivamente para a xícara. Fingi que não sabia. “Foi Catarina de Bragança, a princesa lusa que casou com Carlos II. Aliás, ela ensinou também os ingleses a comerem com garfo e faca.” Sempre que ouço essa história, rumino: “Pena que não levou também umas receitas culinárias para a Inglaterra. Bacalhoada, por exemplo.”

Mesmo os que reconhecem a coragem de Roy acham que ela às vezes, bem, surta. Exagera e simplifica. Com uma gargalhada sarcástica, a própria concorda: “Sou histérica! Grito por causa do sangue que pinga dos telhados. Há quem reclame: ‘Psiu! Você vai acordar a vizinhança!’ Ora, eu quero acordar a vizinhança inteira! Quero que todo mundo abra os olhos.”

Quanto à escrita, não é que Arundhaty tenha trancado o seu laptop num sarcófago – apenas a ficção. Ela não só equipara moralmente os atentados do 11 de Setembro à Guerra ao Terror como – recordando as palavras de Adorno sobre fazer poesia depois de Auschwitz - exclama, ao seu estilo elegíaco e veemente: “Será outra vez possível apreciar o lento e perplexo pestanejar ao sol de um lagarto recém-nascido, ou responder ao ronronar de um gato no nosso ouvido – sem pensar nas Torres Gêmeas ou no Afeganistão?”

Os livros de ensaios panfletários proliferam: antiglobalização, contra o que intitula “neo-imperialismo americano”, contra a “nuclearização indiana” (em 2006, a administração Bush assinou um controverso acordo nuclear com a Índia). O argumento de que o vizinho e hostil Paquistão tem a bomba não a convence: “Atacar o Paquistão implicaria espalhar ainda mais o terrorismo e precipitar toda a região no caos”.

Volta e meia Roy é criticada pelos seus pares mais proeminentes. Depois dos atentados terroristas contra hotéis de Mumbai, em 2008, observou que estes não podiam ser encarados isoladamente, mas num contexto histórico mais amplo, como a pobreza generalizada, “o último pontapé do colonialismo britânico”. Salman Rushdie ridicularizou o elo que Roy vê entre o extremismo e uma discriminação contra os muçulmanos (a Índia ainda é o país com maior população islâmica, depois da Indonésia). Após Roy lamentar o estatuto icônico do Taj Mahal, Rushdie espumou: “Este comentário foi apenas o mais recente de uma série de diatribes dela contra a Índia e as coisas indianas”.

Arundathy pergunta se eu gostaria de mais chá. Respondo que não quero abusar e insisto nas críticas à sua militância. Ela esboça um sorriso seráfico: “Ah, santo de casa não faz milagre… Confundem tudo. Nada pode justificar o terrorismo, que é uma ideologia sem coração. Veja o Talibã. Espancam, estupram, apedrejam e infantilizam a mulher. Porém, quando acharam conveniente, os EUA os apoiaram e lhes forneceram armas. O discurso dos governantes americanos são puro Big Brother: ‘Somos pacíficos. Porcos são cavalos. Meninas são meninos. Guerra é paz’.” Obama também entra na dança: “Bush era de uma estupidez obscena. Quanto a Obama, de boas intenções o Inferno está cheio”.

A voz da escritora é doce, mas não melíflua. A amargura e o azedume adejam nas proximidades. A suavidade da dicção acompanha uma retórica inexorável. Os olhos são grandes como os de uma coruja que já viu tudo. As mãos não param de gesticular, que nem um maestro germânico ou um italiano… bem, italianíssimo. Verifico que, com meio século de vida e a antítese do tipo Paris Hilton, Arundathy ainda é uma mulher atraente, apesar do cabelo preso, da testa abobadada. Uma fusão tardia de Jennifer Beal com Halle Berry – menos chocolate e mais jambo.

As objeções à militância de Roy não se restringem a indianos. Estes, e mesmo os que subscrevem muitas das suas posições, assinalam que ela negligencia os efeitos positivos do desenvolvimento econômico do país. Um recente relatório da UNICEF sobre a pobreza no sudeste asiático, quase uma réplica à escritora, indica que “as medidas da Índia para reduzir a mortalidade infantil são uma fonte consistente de esperança.” A conclusão do documento é clara: “Os bons resultados são uma consequência do actual crescimento da economia”. Arundathy não engole essa: “É, eles adoram as torres gémeas da modernidade – o mercado e a democracia….O verdadeiro produto dessa política é a massificação e o fascismo. A democracia é uma fraude.

Sorvo abnegadamente as últimas gotinhas de chá, suando em bica. E, de súbito, ouço a informação que é (ou pode ser…) um arco-íris no fundo do túnel: “Mas estou escrevendo um novo romance… Sem pressa. Afinal, levei cinco anos para acabar O Deus das Pequenas Coisas’

Agradeço a todos os deuses do panteão hindu- o que leva um certo tempo (só os da Primeira Divisão são 22). O suficiente para que me ocorra uma última pergunta: “Pode pelo menos levantar uma pontinha do véu sobre o tema do romance?” Os olhos da autora emitem uma centelha marota: “Ah, uma indiana da gema jamais levanta a ponta do seu sari publicamente.

 

(Texto publicado no nº de Outubro da revista brasileira "Piauí"

publicado por otransatlantico às 17:41
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Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

O MESTRE MAGISTRAL

 

 

 

Naquela época, quando o século XX já precisava de Botox (reparem na minha camisa estapafúrdia, em plena Cambridge e já atrasado para a aula) mas ainda não estava comatoso, o Repórter ainda era jovem o bastante para se julgar, se não sábio, ao menos sagaz. Porém, o que era dele estava guardado: George Steiner iria ensinar-lhe uma lição daquelas. Ou duas. Ou…

O Repórter vivia temporariamente em Londres e tinha uma namorada portuguesa, que tinha um carrinho italiano (um Fiat Mini), que tinha a direção do lado esquerdo, ao contrário do que é padrão na Inglaterra. A namorada fazia pós-graduação em Cambridge mas tomava o comboio para lá, legando ao namorado o previsivelmente minúsculo Mini. O Repórter quase nunca usava o carro, pois, perto da destreza dele, até um recém-nascido seria um ás do volante. Sobretudo num país cujo tráfego rolava com regras opostas às que ele estava acostumado. Preferia atravessar a nado (nu e lambuzado de mel) um rio infestado de piranhas em jejum.

Porém, naquele dia houve uma greve ferroviária e ele teve de ir com o Mini buscar a namorada em Cambridge (ela apanhara boleia só de ida com uma colega). Por causa do protesto o trânsito era compacto e lento. O repórter não se importou. Dado o país, o tempo até estava bom: os ingleses sabem que o verão chegou porque a chuva é mais quentinha.

Naquela época o fumador ainda não era um serial killer, e o repórter fumava que nem um proto-genocida. Entalado no engarrafamento, tirou o último cigarro do maço, amassou a embalagem e a lançou pela janela. Na frente do Mini palpitava e silvava um camião ciclópico, daqueles que parecem uma centopeia XL, com seus duzentos pneus. A porta do paquiderme de metal se abriu qual ponte levadiça e o camionista apeou-se. Tratava-se da ideia platônica do camionista: com a barba escanhoada a machado e uma compleição de Himalaia. Aproximou-se do Mini, que, intimidado, fingiu que era Micro. Curvou-se, agarrou o maço amassado e, brandindo-o como uma granada, interpelou o Repórter numa voz gélida:

- Foi o senhor (na Inglaterra, até os trogloditas são gentlemen) que perdeu isto?

A resposta soou inteligível mas esganiçada, em falsete:

- Fui…

- Então, da próxima vez perca as coisas no seu país! – Arremessou a granada para dentro do Mini e voltou para o seu Leviatã.

Um dia memorável: o Repórter começou a parar de fumar (ainda não acabou de parar, mas quase) e descobriu o seminário de George Steiner em Cambridge.

 

 

 

 

O Mestre nasceu em Paris, filho de judeus vienenses. É o homem do mundo mais universal de todos os tempos. Teve três línguas-mãe: alemão, inglês e francês. Aos seis anos, o pai dele, entusiasta da boa e velha educação clássica, ensinou o pequeno George a ler a “Ilíada” no original grego. Pela vida fora Steiner seguiu à risca a máxima de Goethe: “Nenhum monoglota conhece verdadeiramente a sua própria língua”.

Um mês antes de os Nazistas ocuparem Paris, a família Steiner fugiu da França. Dos judeus que eram colegas de escola de George, só um sobreviveu. A sombra do Holocausto marcou o Mestre e forneceu-lhe um tema obsessivo: “A minha vida inteira foi debruçada sobre a morte”. Como a cultura que gerou Bach também produziu Auschwitz? O nexo entre fogo de Prometeu e as cinzas dos fornos crematórios...

Quando começou a lecionar em Cambridge, Steiner não foi muito bem recebido pelos seus pares, precisamente pela proeminência que conferia ao Holocausto. Contudo, acabou por se tornar quase tão inglês como a Carta Magna (apesar de adotar a nacionalidade americana). Uma síndrome que contaminou vários filósofos estrangeiros na Inglaterra, como F. A. Hayek, Isaiah Berlin (cujo estilo de escrita foi comparado ao de “um Gibbon andando de motocicleta”), Karl Popper e até o idiossincrático Wittgenstein. Não que o Mestre podasse o hirsuto gramado da sua cottage com uma pinça, usando um chapéu de coco e um guarda-chuva enganchado no braço – mas quase.

E para Steiner foi moleza a adoção do wit – o proverbial humor britânico, sutil e rarefeito. “Quem seria crítico se pudesse ser escritor?”, exclamou certa vez. Em casa de ferreiro, espeto de pau: a sua própria ficção é sofrível, pelo menos comparada com a ensaística.

O Repórter não chorou de barriga cheia: o seminário foi um recital de erudição – um nadinha cabotina, como convém a um mandarim, mas sempre condimentada com epigramas mordazes e um carisma até histriônico. Numa aula alguém perguntou ao Mestre se ele nunca tinha lido nada leve quando era criança.

- Claro! Li “Moby-Dick”.

Na versão integral, naturalmente.

Sem ilustrações, como é óbvio.

No fim-de-semana, o centro acadêmico organizou uma visita a Stonehenge. Para assombro de todos, quando o autocarro estacionou o Mestre aderiu ao grupo, flanqueado por um amigo de fora que ia ciceronear. O Repórter sentou-se ao lado de um jovem oriental, que não deu um pio durante os 150 kms do percurso, sempre com o nariz e a testa colados no vidro da janela. Será que ferrara no sono? Ou cometera haraquiri furtivamente?

 

Stonehenge

 

 

Stonehenge é impressionante, mas os monolitos estavam rodeados por uma corda. Não, o Repórter não pretendia rabiscar com a Bic “Eu estive aqui” numa pedra hierática - mas foi um tanto anti-clímax. Pensou menos nos druidas ou na Matéria da Bretanha do que em Natasha Kinski, que por ali passara no auge do seu esplendor, como o cabide cinematográfico da Tess de Thomas Hardy.

De volta ao autocarro, o Repórter encalhou no corredor, atônito: não tinha reparado que havia dois jovens orientais sentados à janela na mesma fila que ele – qual deles era “o seu”? Não, não que “japonês é tudo igual” – ora, o Repórter praticamente não vislumbrara o rosto do seu esquivo parceiro! Enquanto ruminava, notou que o Mestre, já instalado, o observava com um sorriso irônico. Na aula seguinte, com toda a gente ouvindo Steiner como se ele fosse um salmista, o Mestre deu um jeito de gozar com a fobia histórica do “Perigo Amarelo” – e lançou uma olhadinha marota ao Repórter. Ainda hoje este se lembra de ter corado até ficar da cor do mirtilo (as bochechas fumegavam, a testa crepitava). O Mestre não perdeu tempo: “Já o Perigo Vermelho…” O Repórter entrou praticamente em combustão espontânea.

O Repórter sempre fora doido por citações, quase um colecionador. Aliás, uma das mais engraçadas (de Jô Soares!) é sobre o anúncio classificado de um colecionador: “Colecionador de coleções compra coleção de coleções”. Na aula de Cambridge, Steiner pontificava sobre aforismos e filosofia (de Pascal a Cioran) e mencionou um epigrama que o Repórter adorava. Mas com um lapso! Seria possível? Aquele enciclopedista? Era possível (naquela época nem o seu ouvido – nem outras partes mais temperamentais do corpo do Repórter – o enganavam). A frase era do poeta Robert Browning, e troçava da memória e, principalmente, do sentido: “Quando escrevi isso, só Deus e Robert Browning sabiam o que significava. Hoje, só Deus sabe”. Mas o Mestre trocara Browning por Tennysson!

O Repórter esboçou um sorriso mefistofélico: feito a vichyssoise , a vingança é um prato que se come frio. Levantou o braço como se hasteasse a bandeira das tíbias cruzadas e – arvorando uma humildade melíflua – corrigiu-o polidamente. O Mestre soltou uma gargalhadinha triunfal e deu palmadinhas na capa de um livro que tinha na outra mão.

- Ah, é um prazer verificar que vocês, apesar de a vida ser cheia de perigos coloridos, estão prestando atenção.

Agora o Repórter – e os colegas - podiam ver a capa do livro.

Era de Robert Browning. Uma marcador assinalava a página da citação.

O Repórter já não estava Vermelho. Muito menos Amarelo. Estava branco como uma aspirina. E precisando de emborcar uma caixa de aspirinas.

Mas a Lição não foi aquela. Com um homem que sabia 100 por cento de 99 por cento das coisas, o então presunçoso Repórter aprendeu que não sabia quase nada sobre quase tudo. Muitos anos mais tarde, numa autobiografia em que fala explicitamente sobre a sua vida sexual (aos 80 anos! Agora era a vez de os escolásticos de Cambridge corarem), Steiner confirmou que não pode ser acusado de falsa modéstia:

- Em meio século de magistério, encontrei apenas quatro pupilos (três homens e uma mulher) mais espertos do que eu.

O Repórter tem tanta certeza de não ser nenhum daqueles três como de que não é a quarta.

publicado por otransatlantico às 10:13
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Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

MACACO É A SUA AVÓ!

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E a minha também, naturalmente. Culpa de Charles Darwin, cujo bicentenário comemorou-se recentemente, assim como os 150 anos de A Origem das Espécies. Para se avaliar o impacto do aniversariante, basta pensar que, na altura, ainda prevaleciam os cálculos do prelado irlandês James Ussher. Este, depois de uma vida inteira de estudos exaustivos, anunciou triunfalmente que a Criação do Mundo ocorrera em 26 de Outubro de 4004 a.C., às 9 da manhã em ponto.

Bem, digamos que errou por, hum, imenso. Hoje os astrofísicos estimam que o Big Bang foi há 13,7 biliões de anos, e que a vida na Terra despontou há 4 biliões de anos. Antes de Darwin, o consenso era de que, obviamente, os dinossauros se tinham extinguido porque não cabiam na arca de Noé. Claro: a reacção foi o fim da macacada. O bispo de Oxford perguntou-lhe: “Mr. Darwin, o senhor pretende descender do macaco por parte de pai ou de mãe?” Darwin adiou anos a fio a edição da sua obra-prima, onde propõe que as espécies são seleccionadas através de variações favoráveis devidas ao acaso. De excelente carácter, e embora acabasse a vida como um afável agnóstico, Charles sofria com o desgosto que causava à mulher, Ema. Esta, uma cristã fervorosa, achava que, por causa das teorias do marido, ambos passariam a Eternidade separados: ela no Céu, com querubins, auréolas e harpas, ele no Inferno, a assar em lume brando com um tridente espetado no rabo.

Ainda hoje, nos EUA (que detêm metades dos cientistas nobelizados), só 1 em cada 2 americanos acredita que o Homem possa resultar de milhões de anos de evolução. Na terra natal de Darwin, 1 em cada 4 ingleses pensa que ele era chanfrado ou charlatão. É sugestivo o facto de que este suposto iconoclasta mefistofélico esteja agora sepultado na Abadia de Westminster.

O que ele diria da actual pancadaria entre os Criacionistas (e os fãs do “design inteligente”, que pregam uma espécie de “teologia natural”) e racionalistas passionais como Richard Dawkins? Darwin possuía uma paixão sincera e silenciosa, mas isenta de preconceitos e imune a qualquer género de reducionismo – seja místico seja materialista. Ao refutar irreversivelmente a cronologia bíblica, nunca excluiu, ao menos teoricamente, a hipótese de que a selecção natural pudesse ser uma lei de Deus – isso eram contas de outro rosário, que não lhe diziam respeito. Daí que - aposto o meu pescoço de cisne! -, perante tanta crispação e histeria sectária em redor da suas descobertas, ele provavelmente mandaria os dois lados da barricada irem pentear macacos.

publicado por otransatlantico às 13:11
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Quinta-feira, 23 de Setembro de 2010

A MENSAGEM NUMA GARRAFA

 

Observo a perene  baixaria de Amy Winehouse (nome é destino?) ou Lindsay Lohan e rumino que, no mundo da música e da representação, tudo continua na mesma como a lesma - não faltam nem faltarão ovelhas negras, autodestrutivos compulsivos, dionisiacos feéricos (dependendo do ponto de vista). Já o mundo das letras há muito que anda mais recatado, sobretudo no que diz respeito a molhar a goela. Quem nos viu e quem nos vê.

No dia 2 de Fevereiro de 1821, o bebedor de gim Lord Byron anotou no seu Diário de Ravenna: "Estive pensando sobre o motivo por que acordo sempre a uma determinada hora da manhã, e muito mal disposto. Na Inglaterra, há cinco anos, sofria do mesmo incomodo, só que acompanhado de uma sede tal que cheguei a beber 15 copos de água numa única noite, depois de ir para a cama, sem me sentir saciado. Será o fígado?"

No diário do crítico e ficcionista Edmund Wilson, 130 anos depois, há esta entrada: "Certa noite bebi uma garrafa inteira de champanhe e o resto de uma garrafa de whisky e abri uma outra de vinho tinto - tudo começou pelas cinco da tarde. Adormeci na minha cadeira e quando acordei pensei que já era o dia seguinte. Não jantei e me senti enjoado durante 24 horas." Como assinala Gore Vidal, Wilson não se pergunta se "será o fígado". Ele sabe-o. Tanto que conclui: "Esse tipo de vida, a longo prazo, vai ficando pouco saudável." Pois.

O próprio Vidal fala de um carta que recebeu do então notório escritor Upton Sinclair, confessando-se copofónico e comentando que todos os colegas de ofício que conhecera pessoalmente, entre eles o seu amigo do peito Jack London, tinham - por assim dizer - morrido afogados (mas não em água, seja doce ou salgada). Wilson ainda - com o perdão do trocadilho - se aguentou nas canetas valorosamente, tendo em conta o combustível que ingeria. Já septuagenário, entrava no Princeton Clube com passo vacilante e pedia seis martinis simultâneos (enfileirados na mesa), que ia emborcando enquanto conversava. Ora, quando morreu, aos 77 anos, andava a aprender Húngaro (depois de ter aprendido Russo - para traduzir Pushkin - e Hebraico - para analisar os Pergaminhos do Mar Morto).

Mas foi uma longeva exceção. A maioria dos prosadores alcoólicos arruinou a sua vida ou a sua obra ou ambas. Para ficar só em território americano, a lista é espantosa: Scott Fitzgerald, Hemingway, Faulkner, Eugene O'Neill, Dorothy Parker, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, John Steinbeck, John O'Hara, James Thurber, Truman Capote, Tenesse Williams, William Inge, Elizabeth Bishop, Wallace Stevens, Robert Benchley, Ring Lardner, Thomas Wolfe, Jack Kerouac, Malcolm Lowry, Robert Lowell, James Agee, John Cheever, Ambrose Bierce, Theodore Dreiser, Hart Crane, Edna St. Vincent Millay, Stephen Crane, Jack London e Edgar Allan Poe. Ufa, cansei. E citei apenas aqueles cujo pedigree literário está acima de qualquer suspeita, já referendados por uma dose (ups!) suficiente de posteridade.

Dos sete americanos que embolsaram o Nobel de Literatura, cinco eram alcoólatras: Sinclair Lewis, Eugene O'Neill, Hemingway, Faulkner e Steinbeck. Saul Bellow era judeu e, historicamente, os judeus são parcimoniosos com a bebida (não, não é piada antisemita). Resta Pearl S. Buck - mas, como argumentou alguém, quando ela ganhou o Nobel, o júri sueco é que devia estar bêbedo.

Porquê os autores bebiam tanto? Um acadêmico escreveu uma tese sobre o assunto, intitulada The Alcoholic Republic. Enuncia vários rótulos (psicose maníaco-depressiva, personalidades fragmentadas, esquizofrenia, etc) e desata a colá-los nos escritores. Ora, se Poe, Fitzgerald e Lowry eram esponjas porque sentiam-se fracassados, então Faulkner, Hemingway e Steinbeck deviam enfrascar-se porque eram coqueluches...

Fitzgerald fez uma autocrítica divertida: "Não consigo permanecer sóbrio o tempo suficiente para achar graça em estar sóbrio." Já Faulkner dizia que a única coisa que o chateava no álcool eram os longos ataques de soluço, tão retumbantes que deviam ouvir-se até no imaginário condado de Yaknopatawpha, onde se desenrolam as suas criações. Mas vivia a vomitar sangue, a sofrer estupores (numa festa dada em Paris em sua honra pela editora Gallimard, ele balbuciava qualquer grunhido e recuava um passo, até acabar no jardim, sozinho, onde fazia um frio de rachar), a cair de escadas e de cavalos - uma das quedas provocou-lhe uma trombose fatal. Hemingway, que tinha alucinações, acabou com o fígado visível à distância, protuberante sob a gordura da barriga.

E olhem que Hemingway possuía uma resistência gargantuesca. Bateu o seu próprio record numa noite em Cuba, no bar Floridita, onde foi inventado o daiquiri duplo gelado - double frozen daiquiri, também conhecido como "Hemingway" ou "papa double". Consiste de duas doses e meia de rum Bacardi selo branco, sumo de dois limões e meio, grapefruit e seis gotas de marasquino. Tudo é despejado num liquidificador e batido furiosamente. Naquela noite, Hemingway emborcou 16 papa double - ou seja, 32 doses. Se as testemunhas não mentiram, consta que foi para casa na vertical, usando os próprios pés.

Não foram só americanos, claro. George Simenon bebeu quase tanto como escreveu - o que é torrencial. Consumia, anos a fio, três ou quatro garrafas de vinho por dia ("como se fosse água", conforme explicou), além de um aperitivo antes de cada refeição e de um conhaque para começar a escrever.

E a família de Fernando Pessoa ficou fula com João Gaspar Simões, por o biógrafo ter abordado francamente o alcoolismo do poeta. Como revela outro biógrafo, por vezes a premência de Pessoa era tão aguda que ele saía a galope do escritório, para ir a uma tasca que ficava mesmo ao lado. Robert Brechon destaca que, para o poeta dos heterónimos, a bebida não era um prazer. "Álvaro de Campos não quer saber da qualidade nem mesmo da natureza do que bebe. Fala de 'um vinho de bêbedo quando nem a náusea obsta." Morreu aos 47 anos, de uma crise hepática.

Não formulo julgamentos. Hoje o alcoolismo (como a toxicodependência) é considerado uma doença, cuja causa é ainda imprecisa - se o ambiente, a hereditariedade ou ambas. Com penas aguçadas brandidas, desculpas epigramáticas nunca faltaram. George Jean Nathan, o maior crítico teatral da história dos EUA, sibilou: "Bebo para tornar as outras pessoas interessantes." E Robert Benchley saiu-se com esta: "Dizem que a bebida mata lentamente. Ora, e quem é que está com pressa?"

O grande equívoco - sem caretice - é esquecer que, sem tanto álcool, os escritores teriam escrito mais - e eventualmente melhor. Se teriam sido mais felizes? Bem, isso é uma outra história, e cada uma tem um final.

publicado por otransatlantico às 12:30
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Domingo, 19 de Setembro de 2010

ALTA COSTURA E ALTA CULTURA

 

 

 

DIOR A MEDIR CAUTELOSAMENTE UMA PERNOCA FEMININA

 

 

 

 

Não confundo alta-costura com alta cultura: um trapinho sublime não equivale a um romance genial. Mas a produção de roupas é uma arte, e a mais antiga. E também a mais efémera, como demonstra simbolicamente a sua primeira expressão, a “body painting”, anterior às pinturas rupestres. Ora, uma mulher bem vestida é quase tão irresistível como uma bem despida (claro que há quem fique bonita com tudo – e principalmente sem nada). Porém, existe uma coisa chamada gosto: violeta será uma boa cor para os cabelos no dia em que morena for uma boa cor para uma flor. Para não falar na utilidade: os saltos altos foram inventados por uma espertalhona que até então só tinha sido beijada na testa.

2007 foi um ano que esteve na última moda - até porque depois a crise deu o ar da sua graça e continua na crista da onda. Tivémos os 50 anos da morte de Dior, Valentino pendurou a tesoura e Calvin Klein celebrou 25 anos de cuecas.

Dior revolucionou a moda em 1947 – e foi a estrela da exposição “The Golden Age of Couture”, no Victoria & Albert Museum, em Londres (que se prolongou até Janeiro de 2008). Logo na primeira coleção, introduziu aquilo a que a editora da “Harper’s Bazaar, Carmel Snow, ungiu como o “new look”. Com as saias em forma de sino e as cinturas de vespa, exumou o glamour e feminilidade, depois da neura macilenta e patibular da II Guerra Mundial.

Dior, como a maior parte dos estilistas, era bicha até à raiz dos cabelos. Quando um rapaz resistiu aos seus avanços, alegando ser hetero, o costureiro ficou parvo: “Mas para quê raio precisas de uma mulher, se já nasceste?”

Já Valentino foi aquele que tornou as mulheres ainda mais tentadoras aos olhos masculinos. OK, existem feias potáveis. E é verdade que há numerosas beldades em que a coisa mais profunda é o sono. Mas a beleza é comovente, até por ser tão perecível. Como os boxers que Calvin Klein criou, com o seu logótipo em letras garrafais no elástico da cintura. Pausa para verificar se estou a usar boxers CK (não, por acaso não). Resultado: actualmente, só Alberto João Jardim aconchega os países-baixos em cuecas tipo slips. Certo, o marketing ajudou imenso. O primeiro modelo da primeira campanha CK foi o atleta olímpico Tom Hintnaus, fotografado pelo lendário Bruce Weber. A 30 euros o kit de 3 peças, a função da roupa interior CK não é apregoar luxo, e sim estilo. Assim como ele reciclou aquele epigrama gay de Dior: “Para o meu grande constrangimento, vim ao mundo na cama com uma mulher”.

 

Já Gabrielle "Coco" Chanel (que ainda por cima era mais bela do que as top models de outrora e de agora) personificou dois temas vitais da história do século XX: a capacidade de as artes aplicadas influenciarem a alta cultura, e a fraqueza da criatividade sob pressão moral. Entre muitas outras coisas, Chanel inventou o prêt-à-porter (pronto a vestir) - antes dela, a alta moda era um privilégio exclusivo dos muito privilegiados. Com a fortuna que embolsou, patrocinou a melhor vanguarda, assinando cheques em branco para Diaghlev e Stravinsky, entre tantos.
Mas no melhor pano cai a nódoa: durante a Ocupação de Paris pelas tropas de Hitler, aceitou a "proteção" de um oficial nazi (por quem, ao que parece, estava realmente enamorada). Quando os Aliados retomaram a cidade, ela escapou por uma unha negra: fugiu para a Suíça. Por muito menos, a grande actriz Arletty permaneceu na prateleira durante dois anos, e não podia por os pés fora de casa. Se fosse apanhada pelos comités da l'Épuration, estes certamente fariam mais que cortar-lhe na casaca. Com toda a certeza, Chanel inauguraria um novo estilo de penteado chique: a cabeça rapada (castigo aplicado a centenas, se não milhares, de francesas que dormiram com os invasores).
Por fim, as autoridades concederam-lhe autorização para regressar à base. O Governo francês tinha percebido que o talento dela era um tesouro nacional.
A destroçada economia de França não podia dispensar a alta costura, muito menos quando o Citroen DS19 ainda estava a ser desenhado. (Sem a alta cultura podia: entre os escritores, Robert Brasilach foi fuzilado, Drieu de la Rochelle matou-se e Céline só voltou muito mais tarde.) Por falar em escritores, Coco Chanel tinha sempre um poeta á mão de semear, para lhe cunhar aforismos de que ela em seguida se apropriava. Como este, que "perfilhou" de Pierre Reverdy: "O luxo é uma necessidade quando a necessidade acaba."  Voilà.

publicado por otransatlantico às 12:07
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Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010

AGENTE FINO É OUTRA COISA

 

 

Como eu previa, não aqueceu nem arrefeceu (ou, em brasileiro mais cru, não fedeu nem cheirou) A Essência do Mal, o “novo” livro com James Bond, lançado no ano passado. O pai (adoptivo) da criança é Sebastian Faulks, autor de romances históricos “sérios” – o que é irónico, pois as aventuras de 007 sempre foram uma fantasia delirante. Bond nada tem a ver com os contorcionismos éticos, ideológicos e metafísicos dos espiões de Graham Greene, John Le Carré  ou Alan Furst (para não mencionar O Agente Secreto, de Conrad).

Há um enclave tipicamente britânico – e culturalista – naquela estirpe, e não só ficcionalmente: os casos de Burgess, Philby, Maclean e Anthony Blunt (este último um dos maiores críticos de arte ingleses, feito cavaleiro do reino pela Rainha), todos na vida real “toupeiras” soviéticas, falam por si. A lealdade era devida mais ao par, ao “igual”, do que à nação. Como disse o escritor E. M. Foster, que não foi espião nem escreveu romances do género, mas comungava daquele credo: “Se tiver de escolher entre trair o meu país e trair o meu amigo, espero ter a coragem de trair o meu país.”

Fleming era farinha de outro saco. O negócio dele era o evasionismo balsâmico, louvado seja Deus. Nada de dilacerações filosóficas. A escolha de Faulks partiu dos herdeiros de Ian Fleming, o papá biológico do agente com licença para matar.

Jornalista da Reuters e oficial da Inteligência Naval britânica, Fleming nunca foi um espião no terreno, mas ajudou a criar a CIA. Em 1952, decidiu escrever “um thriller para acabar com todos os thrillers”. O nome do herói brotou de uma obra então famosa (ah, a fugacidade das coisas!), O Guia Definitivo dos Pássaros das Índias Ocidentais, de autoria de um agora obscuro, ou eclipsado, James Bond. Já o termo 007 deriva de um conto de Rudyard Kipling.

A fórmula? Vilões mefistofélicos, carros vertiginosos e fálicos, paisagens exóticas e boazonas mazinhas – tudo no pano de fundo, hoje gagá, da Guerra Fria a ferver. Parece trivial, mas contém a alquimia dos mitos.

No cinema, 007 teve vários cabides, mas o seu habitat natural foi um ex-camionista escocês - Sean Connery (acaba de fazer 80 anos) -, que calcificou a alma do agente: taciturno, brutal, sardónico e frio. E mulherengo 25 horas por dia – mas nunca misógino! Como todo o mito, a série gerou uma iconografia: a receita de Martini, o Aston Martin (e epígonos), as Bond Girls (de Ursula Andress – a sair do mar em Doutor No como a Vénus de Boticelli – a Kim Basinger). Um dos charmes da coisa está no erotismo requintado e oblíquo (em vez de boçal).

Em Moonraker, uma nave espacial se prepara para reeingressar na atmosfera da Terra. Quando a imagem via satélite aparece numa tela gigante ao Ministro britânico da Defesa, 007 está a bordo a ofegar e arquejar por cima da Bond-Girl, ambos nus. O ministro resmunga: “Cruzes, que raio ele está a fazer?” O chefe de Bond, “M”, suspira: “Creio que está a tentar reentrar, Sir”. Fleming escreveu as obras na sua casa na Jamaica, denonimada “Goldeneye”. Não me admirava que algumas frases fossem surripiadas ao vizinho, o epigramático Noel Coward.

Os dois eram amigos e assistiram juntos em Londres ao desfile de estadistas na coroação de Isabel II. De súbito, passou majestosamente a carruagem com a rainha do Togo, que diziam ser canibal. Ao lado da monarca, ia um pigmeu rechonchudo. Fleming intrigou-se: “Quem será aquele?” Coward não teve dúvidas: “Ah, deve ser o lanchinho dela!”

Fleming morreu em 1964, de ataque cardíaco, com apenas 54 anos. Acabara de alinhavar Só Se Vive Duas Vezes. Um título equivocado. Pois ele descobrira, se não a eternidade, algo que anda lá perto. Aposto que, quando chegou à porta do Céu, São Pedro pediu-lhe a senha. Canja: “Bond, James Bond”. A casa é sua.

publicado por otransatlantico às 10:52
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Terça-feira, 7 de Setembro de 2010

TREVAS AO MEIO-DIA

Arthur Koestler y Cynthia

 

 

Não é estranho que o autor de um dos melhores livros (Sleepwalkers, Os Sonâmbulos) de divulgação científica de todos os tempos acreditasse (ou pelo menos admitisse) também em parapsicologia e quejandos? Nem por isso. Afinal, Arthur Koestler, nascido em Budapeste em 1905, acreditou piamente, durante muitos anos, que o Comunismo seria o paraíso na Terra - e não os vários modelos de  Inferno que demonstrou ser. E já Sir Isaac Newton tinha dedicado mais tempo de vida à procura da pedra filosofal e da transmutação de chumbo em ouro segundo a alquimia do que à gravitação universal ou à rarefacção da luz. O escritor Conan Doyle, criador do ultrarracional Sherlock Holmes, acreditava em espíritos, reencarnações e ectoplasmas

Koestler pelo menos  redimiu-se e deixou a melhor obra de ficção contra o totalitarismo, Darkness at Noon (Trevas ao Meio-Dia), inopinadamente traduzido para o francês e o português como O Zero e o Infinito. Sim, melhor que 1984 e Animal Farm (de Orwell) ou O Admirável Mundo Novo (de Aldous Huxley) ou Nós, de Y.I. Zamiatin.

George Steiner, que foi amigo de Koestler, conta que um dia ambos estavam a dar um passeio pelo campo e Koestler desatou a abordar "coincidências estranhas". Não era estranho que o secretário de Lincoln, chamado Kennedy, tivesse implorado ao presidente  que não fosse ao teatro (onde seria assassinado), como, mais tarde, o secretário de Kennedy, chamado Lincoln, tivesse suplicado ao presidente que não fosse a Dallas? O assassino Booth não matou Lincoln num teatro, refugiando-se em seguida num armazém, e Lee Harvey Oswald não abateu Kennedy a partir de um armazém, escondendo-se depois num teatro? E não era verdade que os sucessores de ambos os presidentes chamavam-se Johnson?

Confidencialmente, é estranho. Se eu já não fosse demasiado calejado para conversões, convertia-me a.... bem, sei lá a quê.

Koestler comeu o pão que o diabo amassou: conheceu o exílio, a prisão, a vilificação, o isolamento e a pobreza. Exilado em Paris, assistiu a ocupação da França por Hitler. Nunca foi convidado para uma casa francesa. Escreveu que "um francês seria capaz de abraçá-lo e depois deixá-lo tremendo de frio, na rua." A opinião dele não melhorou quando foi preso pela polícia colaboracionista e recolhido a um campo de concentração.

Muitos anos depois, já tendo adotado a nacionalidade britânica, fez um pacto de suicídio com a sua mulher Cynthia. Quando foi acometido por uma doença incurável que o teria submetido a um suplício servil e inútil, ambos mataram-se na sua recatada casa londrina, no bairro de Knightsbridge, após duas belas chávenas de chá envenenado.

Aliás, Koestler era vice-presidente da "Exit" (Saída), uma sociedade cujo postulado é que saiamos desta vida a tempo, com dignidade, antes de perder as faculdades, sem passar pelo ignóbil trâmite da decadência intelectual e física. O gesto pode ser discutido, mas é difícil não lhe reconhecer a elegância.

A nota de suicídio continha a seguinte passagem: "Desejo que os meus amigos saibam que deixo a sua companhia num estado de espírito sereno, acompanhado por algumas esperanças tímidas numa sobrevivência posterior para lá dos confins do espaço, do tempo e da matéria, e para além dos limites que podemos compreender. Este 'sentimento oceânico' serviu-me muitas vezes de apoio em momentos difíceis e apoio-me nele uma vez mais, enquanto escrevo estas palavras".

Nada a acrescentar.

publicado por otransatlantico às 19:08
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Sábado, 4 de Setembro de 2010

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

 

 

Em 1933, quando o casal Gertrude Stein e Alice B. Tocklas almoçava na Casa Branca com Eleanor Roosevelt (então Primeira Dama e ela própria não invicta em experiências homoeróticas), a anfitriã comentou: "Não acham que existe algo próximo da nobreza nos camponeses e operários, lutando para manter seus lares e famílias?" Gertrude pigarreou: "Talvez. Mas prefiro observá-los a uma distância decente."

Gertrude Stein viveu em Paris a maior parte da vida, foi uma espécie de madrinha dos literatos americanos expatriados e cunhou o termo "geração maldita". Ela própria escrevia, incluindo o dubiamente famoso verso "uma rosa é uma rosa é uma rosa" (Rose is a rose is a rose is a rose is a rose.). Talvez a única coisa legível dela hoje seja A Autobiografia de Alice B. Toklas - sim, escrito na primeira pessoa, não pela amante de sempre mas pela própria Gertrude Stein. O que não impede o livro de conter afirmações como esta: "Na minha vida conheci três gênios: Pablo Picasso, Alfred Whitehead e Gertrude Stein."

Bem, o amor é cego. Tão cego que uma vez Alice foi ouvida a suspirar embevecidamente, contemplando a amada: "Ah, a Gertrude, quando se arruma, fica igualzinha a um general da Guerra da Secessão..."

O quadro lá em cima é um retrato de Gertrude Stein pintado por Picasso. Favorece-a muito.


publicado por otransatlantico às 12:29
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Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010

O TABACO SALVA!

Romance & Cigarettes Poster

 

 

O meu Francês não é muito bom. Outro dia, em Paris, fui pedir o isqueiro a um transeunte para acender o cigarro e lhe pedi que me ateasse fogo. E, sem querer, dei com o recôndito “Musée du Fumeur”, pertinho do Père Lachaise. Sim, eu sei: é que os fumadores estão por definição a um passo do cemitério.

Entre ‘sheeshas’ egípcios e cachimbos da paz sioux, deparei com o cartaz: ‘No Smoking!’ (um primo meu, que sabe Inglês quase tão bem como sei Francês, julgou que era proibido usar smoking). No próprio museu do tabaco, anti-tabagismo primário! Ainda ontem, os Franceses esgrimiam os seus Gauloises como floretes de D’Artagnan. Por ocasião da cremação de Jean Cocteau, um fã suspirou languidamente: “Este querido poeta! Extingue-se como um cigarro!”

Desde 1 de Setembro de 2009, não se pode fumar nas repartições públicas da Alemanha, nem nos comboios (trens). Bem, Hitler abominava o tabaco (e era abstêmio e vegetariano – só gostava de carne para canhão e daqueles discursos-chiliques).

Nos clubs e pubs ingleses, gerações de escritores (de Oscar Wilde a Philip Larkin) sugaram inspiração dos seus charutos e louvaram Sir Walter Raleigh, o pirata-cavalheiro que trouxe o tabaco para Europa. Hoje, seriam multados em 75 libras. Na própria terra de Marlboro, os Estados Unido da América, já só se pode fumar debaixo da cama.

Há meses, a Disney anunciou a proibição de cenas de fumo nos seus filmes para adultos. Ah, os penachos que se evolavam das piteiras de Marlene Dietrich e Rita Hayworth! Conseguem imaginar Humphrey Bogart com um chupa-chupa (pirulito) a pender dos lábios sardônicos? Na França, arrancaram dos corredores do Metropolitano os cartazes de um “biopic” sobre Serge Gainsbourg, porque ele aparecia com um Gauloise entre os dedos.

Hoje, para a Sétima Arte, só os serial killers é que fumam. Bom, talvez os pedófilos também – e eventualmente os canibais. E, sobretudo, os serial killers pedófilos canibais.

Admiro aquele fulano que ficou tão horrorizado com o que leu sobre os efeitos da nicotina que parou de ler. Ora, a moderação é a regra de ouro. Nunca fumo mais de um cigarro de cada vez, e evito fumar a dormir. Li “The Cigarette Century”, de Allan Brandt. O século é o XX. No XXI, fumo só mesmo no museu. Em 1964 ficou provado que o tabaco provoca cancro (câncer)  no pulmão. OK, mas a vida não é apenas quantidade: é também “joie de vivre”. O fumo combate o tédio, controla a ansiedade, proporciona consolo e é elegante (bem, mais do que um palito de dentes a bailar nos beiços babões).

Entendo a ira dos fumadores passivos (admito que ser passivo não deve ser mole). Há uns 20 anos, um tio meu estava num comboio (trem), no compartimento para não fumadores. Quando alguém empunhou um maço e lhe perguntou se se importava que fumasse, o meu tio sorriu seraficamente: “Claro que não, se não se importar que eu vomite.”

Mas é pura mentira (uma conspiração do comunismo capitalista, com a conivência diligente da AlQaeda e do Mossad) que o tabaco cause habituação. Falo por experiência própria, pois fumo há décadas. Claro que, fumando como fumo, em breve não precisarei mais de pedir isqueiros emprestados a franceses pirômanos. Afinal, onde há tanta fumaça, tem de haver um foguinho.

publicado por otransatlantico às 13:30
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Sábado, 21 de Agosto de 2010

PINTAR O INSTANTE

 

 

A máquina fotográfica é como o pai de um hipotético bebé de Paris Hilton: só os eunucos não são suspeitos da autoria. A própria palavra “câmara” é uma relíquia da “camera obscura”, que Leonardo da Vinci descreveu nos seus abstrusos cadernos. Também meteram a colher Daguerre, Talbot, Eastman. Este lançou em 1888 a sua primeira Kodak, nome escolhido por causa do K, “uma letra incisiva e forte nas duas extremidades” (em Praga, um certo Franz, segundo o qual a vida é uma praga que alguém nos rogou, concordaria).

Entretanto, em Paris, Nadar fotografava titãs culturais como Balzac,  Baudelaire, Wagner. E grunhia: “A fotografia é uma arte que pode ser praticada por qualquer imbecil.” A foto sedimentou os tiques modernos: o instantâneo e o múltiplo. E libertou os pintores do figurativismo. O que gerou diálogos inopinados na rua: “Oh, que lindo bebé, o seu!” “Ah, mas isso não é nada! Devia ver a fotografia dele!” E Marlene Dietrich ralhou com o seu fotógrafo: “Que diacho se passa consigo? Há anos fazia-me parecer maravilhosa!” “Eu sei”, respondeu o coitado, “mas nessa altura eu era muito mais novo”.

O mais belo objecto do mundo é uma máquina fotográfica: a Leica, esgrimida de Kertész a Friedlander, de Cartier-Bresson a Sebastião Salgado. Nasceu porque o seu inventor, o alemão Oskar Barnack, sofria de asma e não era capaz de carregar os trambolhos existentes de um lado para o outro qual burro de carga. Quando a Leica despontou, em 1925, uns paspalhões gozaram: parecia um brinquedinho de mala de senhora!

Aliando forma e função, lembrava antes um design da Bauhaus. Enquanto uma Nikon ou uma Canon implicam um manual de instruções tipo Antigo Testamento, a Leica abana o rabiosque na palma da nossa mão, como um cachorrinho suplicando para ir dar uma volta ao quarteirão e fazer umas travessuras. Cartier-Bresson, que comprou a sua em 1932, em Marselha, quando vegetava como menino mau de uma família boa, ronronou: “Ela é a extensão óptica dos nossos olhos”.

Por um triz não se chamou ‘Lilliput’, mas alguém sensato desaconselhou Barnack. A série M é a das Leicas clássicas, sobretudo a M3 (6 mil euros a unidade). Com o foco e o cálculo da exposição manuais, não é para mariquinhas  – nada de pilotos automáticos! A rainha Isabel II tem uma M3 desde 1958, e fez questão de posar com ela num selo postal. Coisa do passado? Uma espécie de Flintstone das câmaras? Dobrem essas línguas! Este ano, o site eBay sondou os internautas: “Qual o supremo gadget de todos os tempos?” O Game Boy ficou em quarto, o Walkman Sony em terceiro, o iPod em segundo e – tchan, tchan, tchan! – a Leica em primeiro.

Provou-se uma verdade universal. Eis outra, também na esfera fotográfica: se te pareces com a fotografia no teu passaporte, é porque estás a precisar de umas férias urgentes.

publicado por otransatlantico às 18:36
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Quarta-feira, 18 de Agosto de 2010

LEVANTADO DO CHÃO

(foto de Rui Duarte Silva)

 

Uma versão tipo making of do documentário de Miguel Gonçalves Mendes, José e Pilar, sobre a intimidade do casal Saramago e del Rio, foi exibida hoje na Bienal do Livro de São Paulo. Ela inclui cenas que não constarão do filme, cuja estreia está prevista para Novembro, baseado em 230 horas de gravação, ao longo de três anos, durante a elaboração do romance A Viagem do Elefante. Destaco, sem comentários, duas sequências. Na primeira, o escritor aparece concentradíssimo e ensimesmado, diante do computador, no seu sacrossanto e alquímico escritório. Pilar passa, ele dá-lhe uma palmadinha afetuosa no quadril. Quando a câmara mostra o monitor, o prémio Nobel está a... jogar Solitário.

Na segunda, ele diz à mulher: "Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de te ter conhecido, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora."

publicado por otransatlantico às 12:33
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Terça-feira, 17 de Agosto de 2010

VAN GOGH PINTAVA O CANECO

self portrait with bandaged ear and pipe

 

 

 

Há 120 anos, o criador Van Gogh entregava a alma ao Criador propriamente dito. Hoje um dos artistas mais valorizados do Mundo, foi acolhido pela sua época como um leproso numa colónia de nudistas. Brigou com o inimigo do peito Paul Gauguin e cortou a sua própria orelha (felizmente, não pintava de ouvido). Aliás, uma biografia recente jura que foi Gauguin o ceifeiro da tal orelha.

Van Gogh tentou suicidar-se com um tiro na cabeça, mas falhou o alvo (que pontaria!) e atingiu o estômago. OK, tudo está bem quando acaba bem: morreu dias depois, em agonia dilacerante, aos 37 anos.

 


Produziu 2000 obras, mas em vida só vendeu uma mísera tela e mesmo assim por três réis de mel coado. Instrutivo: há dias, a casa de leilões Christie’s, em Londres, alcançou o recorde de vendas num semestre na história do mercado da arte: 3,5 biliões de euros. O preço mais alto foi obtido por um quadro de Andy Warhol (72 milhões de euros). Com o seu conceito de pintura em série, Warhol foi um anti-Van Gogh. O figurativismo de Wahrol dá um jeitão como enfeite – se bem que as telas penduradas nos restaurantes nunca são muito melhores que a comida servida nos museus.

O realismo de Warhol é tal que um homem retratado por ele pode fazer a barba diante do seu retrato. Já Van Gogh ajudou a vingar a pintura abstracta, que, forçosamente, é uma coisa sem pés nem cabeça.

Henri_Matisse_-_Le_Bateau

 


Em 1961, o quadro Le Bateau (reprodução acima), de Matisse, esteve exposto durante 47 dias no Museu de Arte de Nova Iorque, até que alguém notou que estava de cabeça para baixo. Uma multidão de extasiadas 120 mil pessoas já tinham desfilado reverentemente diante da tela quando o equívoco foi apontado. As obras de Jackson Pollock, um mestre moderno, são uma data de rabiscos emaranhados, como se alguém estivesse a tentar fazer escrever uma Bic recalcitrante e se distraísse (considero um génio o pintor que consiga plagiar um quadro dele).

Enfim, a arte moderna é quando se compra uma tela para tapar um buraco na parede, e depois decidimos que o buraco ficava muito melhor. Não, que farisaísmo! Mas o ultraje de ontem é o chique de hoje e o cliché de amanhã. Daí que o sofrimento dilacerante de Van Gogh – que sabia do seu gênio mas queria reconhecimento para autenticá-lo - e comer...) também tenha passado de moda.

Quando perguntaram a Salvador Dali se lhe era difícil pintar, encolheu os ombros: «Não é fácil nem impossível.» Debatendo a falsificação, indagaram ao prolífico Picasso (de longe, o artista mais rico de sempre) como sabia quais eram realmente as suas telas. Resposta: «Se gosto do quadro, digo que é meu. Se não gosto, digo que é falso». Uma coisa é limpinha: ninguém ouve tanta tolice como um quadro pendurado num museu.

publicado por otransatlantico às 11:34
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Sábado, 14 de Agosto de 2010

FAMA E INFÂMIA

 

 

Há dias, a atriz Lindsay Lohan, de 21 anos, foi detida por condução embriagada e posse de cocaína. Há dois meses, acontecera o mesmo – e ela passou uma temporada na clínica Promises, em Malibu, L.A.. Agora exibiu para o juiz as unhas de dois dedos, com o verniz F e U. No início do ano, Britney Spears acampou na Promises por 29 dias, depois de uma série de maluqueiras. Outro hóspede: Mel Gibson, bêbado ao volante. E Ben Affleck, Charlie Sheen, Diana Ross e a milionária profissional Paris Hilton. Já Kate Moss preferiu a clínica The Meadows, no Arizona. Lá, foi colega de Tara Conner, miss EUA, ameaçada de perder a coroa por deboche incontinente.

Não sou propriamente um Vitoriano ou uma Testemunha de Jeová, mas que raio há com essa gente? Ok, Hollywood sempre foi meio pirada. Liz Taylor tem cadeira cativa na clínica Beth Ford. E lidar com o êxito é difícil – nenhum homem está preparado para o sucesso (alheio). Talvez o sucesso signifique precisamente nunca ter de admitir que você é infeliz. Descobrimos que a solidão tem vantagens – por exemplo, poder ir à casa de banho (banheiro) e deixar a porta aberta. Mas aqui há gato.

Nos seus 15 minutos de fama, os colunáveis estão sempre em exposição, como uma estátua na rua. Vira-se uma bola de neve – ou derrete-se. Outrora, o dicionário era o único lugar onde o sucesso vinha antes do trabalho. Hoje, a notoriedade pouco tem a ver com o mérito ou com a substância. Os VIP são célebres por serem famosos – e a fila anda. Alguém aí já ouvi falar de Pontoppidan, Bonaventte, Bjornson, Eucken (eu quem?), Reumond, Echegaray, Heyse, Gjellerup, Deledda, Undset, Laxness, Karfeldt, Anon, Larkvist, Martinson? Tudo prémios Nobel da Literatura, Saramagos no tempo deles. Em compensação, Tolstoi, Kafka, Proust, Joyce, Conrad, Henry James, Bulgakov, Mandesltam, Rilke, Nabokov, Borges e outros esperaram sentados (de preferência, na posição da Esfinge). Agora estão todos deitados, na posição definitiva.

Como autor de romances, descobri que um escritor é famoso no dia em que gente que nunca o leu começa a dizer que já. Não há receita para o êxito. Mas, para o fracasso, há uma infalível: tentar agradar a toda a gente. Aliás, percebi (nas minhas montanhas-russas) que a pior coisa do sucesso é termos de entediar-nos com pessoas que antes eram esnobes connosco. Ah, seja afável com os outros quando estiver a subir, pois vai encontrá-los de novo – quando estiver a descer.

A mania com a celebridade não é de agora. Eróstrato, um grego do século IV A.C., incendiou o Templo de Artemis, em Éfeso, uma das sete maravilhas do Mundo Antigo, com o objetivo confesso de obter a fama a qualquer preço. A população grega foi proibida, sob pena de morte, de pronunciar o nome dele e de registrar o seu feito pelas gerações futuras. O que não resultou: cá estou eu a falar no sacana. Ai de mim. Ai de nós.

Naturalmente, há presos e prisões. O tal do Gibson, um anti-semita cada vez mais fanático, não é Mel – é fel. Em compensação, no século XIX o filósofo Emerson foi visitar o escritor Henry Thoreau na cadeia (encarcerado por uma razão política). Emerson exclamou: “Que diabo estás a fazer aí dentro?” Resposta: “E tu, que diabo estás a fazer aí fora?”

Há circunstâncias na História em que somente os canalhas e os patifes não correm o risco de prisão – seja um comboio de gado para um campo de concentração, seja uma ilha do arquipélago Gulag.

Ah, Lady Gaga, que não é gaga, nem gagá e muito menos lady, tem uma canção auto-paródica intitulada Fame Monster. Mas a do vídeo abaixo, Speechless, é melhor (juro que não estou a trocadilhar com o título....)

 


publicado por otransatlantico às 20:34
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Terça-feira, 10 de Agosto de 2010

CASAIS DE ESCRITORES: PALAVRINHAS OU PALAVRÕES?

 

 

Martha Gellhorn and Ernest Hemingway

The Posh & Becks of their day: Martha Gellhorn and Ernest Hemingway in 1941.

 

 

Dizem as estatísticas de mercado que o público sente uma curiosidade insaciável pela vida íntima dos escritores – especialmente casais de escritores. Um dos motivos – além da mexeriquice pura e simples – deve residir na ilusão de que, se os prosadores conseguem urdir vidas ficcionais onde as coisas se encaixam, as suas existências reais irão fornecer exemplos ainda mais instrutivos.

Um dos méritos do livro “Between the Sheets: The Literary Liasions of Nine 20th Century Women Writers” é precisamente dissipar aquela miragem.

Lesley McDowell atesta que geralmente os escritores são mais trapalhões na vida quotidiana do que as outras pessoas. Para tanto, a autora passou a pente fino a relação de nove pares de pombinhos literários: Katherine Mansfield e John Murry; Hilda Doolittle e Ezra Pound; Rebecca West e H. G. Wells; Jean Rhys e Ford Madox Ford; Anais Nin e Henry Miller; Simone de Beauvoir e Sartre, Martha Gellhorn e Hemingway; Elizabeth Smart e George Barker; e Sylvia Plath e Ted Hughes. Alguns nomes podem soar menos familiares aos leitores, mas acreditem: o talento per capita aqui era abundante.

Então, se não foram felizes para sempre, ao menos o sexo deve ter sido sísmico – com toda aquela imaginação a bordo…Certo? Errado. OK, Samuel Bellow, Nobel da literatura, ronronou: “Se és escritor, toda a gente quer ir para a cama contigo”. Bem, eis uma portentosa extrapolação. Provavelmente Bellow pensava mesmo aquilo, então toda a gente dormia com ele. Mas juro a pés juntos que alguns de nós temos de suar a camisa e fazer das tripas coração: e muitas vezes ficar a chuchar no dedo.

Tanto as coisas entre os casais literários não são um mar de rosas que, por exemplo, Sylvia Plath meteu a cabeça no forno, ligou o gás e matou-se; Doolitle casou com Pound mas gostava mesmo é de mulheres e Simone de Beauvoir angariava amantes para Sartre. Todavia, a maior virtude de “Between The Sheets” é desmantelar um mito. Ou seja, o de que a responsabilidade de tanto infortúnio foi sempre da misoginia dos parceiros masculinos. Como a autora diz: “Estas nove artistas não foram vítimas de modo nenhum: escolheram conscientemente o seu destino e sem o subterfúgio da vitimização”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean-Paul Sartre with Simone de Beauvoir

Jean-Paul Sartre with Simone de Beauvoir in 1954, Vienna


O sexo era sofrível por causa do egoísmo e/ou da promiscuidade varonil? Logo de caras, Katherine Mansfield avisou o marido: “Primeiro sou escritora, depois sou mulher”. Ora, mas as autoras não usam a sua sexualidade na escrita, como fazem os autores – aliás, como fazem todos os grandes ficcionistas, independentemente do género, que utilizam tudo o que a vida lhes traz?

Tudo bem, Ezra Pound criou o nom de plume de Hilda Doolittle (HD), mas será isto uma manipulação tão medonha? Ah, e ele dactilografava os manuscritos dela, um gesto que não parece lá muito porco chauvinista nem digno de Fred Flintstone.

Henry Miller era um fauno priápico que ou não pensava em nada ou só pensava naquilo? Façamos de conta que sim. Mas Anais Nin (interpretada no cinema por Maria de Medeiros) lhe deu o troco, taco a taco – e talvez até com algum juro. De fato, TODAS as nove escritoras aqui examinadas – muitas delas mártires para hagiógrafas feministas – tiveram casos com homens casados, ou enquanto elas próprias estavam casadas. Sorte dela que aquele odioso Ahmanejad não andava por perto.

Martha Gellhorn, uma das melhores repórteres de sempre (especializada em teatros de guerra…) foi de longe a mais esperta das mulheres de Hemingway. E não era nenhuma florzinha de estufa: sempre se recusou a ter um filho com ele e mais tarde adotou um: “Não há necessidade de parir uma criança quando se pode comprar uma”. Escreveu que o autor de “O Velho e o Mar” “foi o homem menos gentil que conheci, uma espécie de suíno”. Não, ela não queria dizer ideologicamente: “Herdou do pai o gosto por sanduíches de cebolas e, em Espanha, gostava de as mastigar com ingredientes locais e goles copiosos do seu cantil cheio de whisky – eis uma mistura nauseabunda “.

Em 1942, ao saírem de uma festa na qual se enchera a cara, Hemingway teimava em conduzir. Quando Martha ocupou o volante e arrancou, ele esbofeteou-a. Ela abrandou a velocidade e estampou o adorado (e novo em folha) carro do romancista contra uma árvore. Deixou o marido lá dentro, feito num oito - e apanhou um táxi.

 

 

TED HUGHES AND SYLVIA PLATH

 

Os exemplos mais eloquentes (e talvez as duplas mais brilhantes) são os pares Ted Hughes/Sylvia Plath, e Sartre/Simone. Enquanto Sylvia se instalava na fábula como uma sensibilidade de cristal, Ted era pintado como um engatatão impiedoso, com mais namoradas que o Cristiano Ronaldo (e ainda mais novas). Pura treta maniqueísta. Evidências irrefutáveis (para não falar nos seus próprios poemas e textos autobiográficos) demonstram que as perturbações de Plath vinham de longe – de quando ela nunca tinha visto o marido mais gordo. E tão-pouco é verdade que Hughes proferiu este pavoroso (mas divertido) epigrama de humor negro, depois do suicídio da mulher: “Nesses anos todos, meter lá a cabeça foi a única coisa boa que ela fez no nosso fogão”.

Quando, há dois anos, a França começou a comemorar o centenário de nascimento da virtual mãe do feminismo, as solenidades foram ensombradas pela abertura de uma caixa de Pandora sobre a vida íntima da autora de “O Segundo Sexo” (com a sua frase de efeito: “Uma pessoa não nasce mulher – torna-se mulher”. O que é verdade, pelo menos no caso de Roberta Close, aquele atraente transexual brasileiro, e da recente Lea T.).

É certo que ainda foram a tempo de atribuir o nome de Simone de Beauvoir a uma das pontes sobre o Sena e de realizar um seminário na Sorbonne. Mas, logo depois, haja roupa suja para lavar! O “L’Express” interrogou-se se o país estava pronto para desafiar um ícone. Parece que estava em ponto de bala! Pesquisas denunciaram uma “libertinagem calculada” da escritora – ela terá professado um ocasional lesbianismo só para “chocar a burguesia”. Mais: a pensadora sofria de “complexo de Pigmaleão”. O Pigmaleão, claro, era Sartre (que jamais escreveu uma linha sobre ela). O casal (conhecido como “o Fred Astaire e a Ginger Rogers do Existencialismo”) nunca casou nem juntou as escovas de dentes – manteve até ao fim uma “relação aberta”, baseada na “honestidade”.

Ao menos da boca para fora. O que as investigações revelam é que a matriarca do feminismo se sujeitou ao patriarcalismo do filósofo, um tipo glacial, mandão e machista (enfim, o estereótipo do “marido burguês”).

Pior: Simone volta e meia fazia de proxeneta de Sartre, ajudando-o a seduzir jovens alunas de ambos (o filósofo não era propriamente um pão). Nas suas penosas Memórias, Bianca Lamblim conta que, ainda na cama de hotel em que acabara de perder a virgindade, ouviu Sartre a armar-se: “A criada ficará atónita, pois ontem desflorei outra rapariga neste mesmo quarto”.

McDowell não desmente tais factos – só realça que Simone “escolheu-os”, e levou a vida que quis. De Beauvoir admitiu que teve o seu primeiro orgasmo aos 39 anos, não com o filósofo zarolho, mas com o romancista americano Nelson Algren. Numa carta, ela comunica a Algren o seu anseio de “lavar-te a loiça, de avental, e calçar-te os chinelos quando chegares a casa – e serei fiel como uma esposa árabe”. Ah, essas feministas sabem como estragar um homem com mimos…

Portanto, o que “Between The Sheets” comprova é que as ilusões sobre a vida amorosa dos ficcionistas não passam de…ficção. Afinidades eletivas? Ajudam mas não garantem nada. E não são sequer uma exclusividade literária: médicos casam com médicas, arquitetos com arquitetas, cozinheiros com cozinheiras. Pensando bem, casos de amor entre colegas de trabalho acontecem até em conventos.

 

(Texto publicado nas revistas Notícias Magazine DN/JN)

 


publicado por otransatlantico às 21:18
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Domingo, 8 de Agosto de 2010

O DONO DA VOZ

 

 

 

 

 

 

 

Aleluia! Hosana! Iuuuuupiiiiiiiii! Saiu o messianicamente aguardado The Man, the Music, The Legend, coletânea de ensaios de sumidades internacionais que canoniza Sinatra como o maior rouxinol mamífero de todos os tempos. Destaco um aspecto: a sua volta por cima.

Em 1953, o desgraçado comia o pão que o diabo amassou. A Columbia demitira-o com um pontapé nos fundilhos (depois de o obrigar a cantar até com um cão). Programas de rádios e TV? Cancelados para aquela persona non grata oficial. Nas casas noturnas, cantava para mesas vazias, e até as toalhas bocejavam (os copos viravam-lhe as costas, se conseguiam encontrá-las). A MGM rasgara-lhe o contrato como ator. O jornal Variety publicou um anúncio do seu agente, a mandá-lo pastar, lamber sabão, pentear macacos – só faltaram publicar a participação da sua missa de sétimo dia.

A relação com Ava Gardner esfarelava-se : sem que ele soubesse, ela se esgueirava rumo a Londres, para abortar um filho dele. Por que Sinatra não se matou, como qualquer pessoa no seu juízo perfeito teria decidido – por muito menos, aliás? Porque já não se faziam comprimidos como antigamente. Tudo o que conseguiu ao emborcar o frasco com uns 500 ansiolíticos (uma dose capaz de fulminar um brontossauro) foi uma azia vulcânica e mais um escândalo. Jurou que para a próxima serraria os pulsos.

Ava está para os fãs de Sinatra como Yoko Ono para o de John Lennon (fisicamente, claro, as duas eram respectivamente como a Bela e o Monstro). Jean Cocteau descreveu Ava como “o mais belo animal do Mundo” – e, se Cocteau, que não era consumidor do produto, achava isso, calculem Sinatra, que não podia ver rabo de saia sem pôr as manguinhas (e tudo o resto) de fora.

Nancy, então esposa do cantor e mãe dos seus dois filhos, encolheu os ombros: a sirigaita não tinha dotes de dona de casa, e jamais engomaria e dobraria as meias de Sinatra como ele gostava, arrumando-as na gaveta quase que por ordem alfabética!

Mas impedir aquele romance era como arrolhar o Vesúvio. Não durou muito, mas foi um sol da meia-noite, ou uma aurora boreal. Como disse Ava: “Éramos o máximo na cama, mas as brigas começavam a caminho do bidé”. Ela odiava os amigos de Frank, que, depois de tomarem todas, se deitavam de sapatos enlameados na cama do casal, depenavam o frigorífico, falavam de boca cheia e apalpavam os testículos com as duas mãos, como almofadas anti-stress.

Mas Ava pelava-se por toureiros, como o homérico Dominguin – quando a diva pousava em Madrid, os touros acordavam banhados em suor, cientes de que perderiam as orelhas, o orgulho e a vida, não necessariamente por esta ordem. Humphrey Bogart ralhou com Ava: “Metade das mulheres da Terra quer praticar o Kama-Sutra com Sinatra, até decorar tudo na ponta da língua. E preferes esses tipos em collants (meia-calça) e sapatilhas de bailarina!”

Resultado: Frank cumpriu a promessa, esgrimindo umas gilletes com um gume de guilhotina. Mas um amigo ligou para o 112 e safou-o da poça de sangue. Teimoso como uma mula enamorada, Sinatra parou de comer. Num ano a pão e água, chegou aos 48 quilos – parecia um holograma de si próprio. Aí, preferiu viver. Embolsou o Oscar de melhor ator e gravou a celestial série de discos da Capitol – uma Suma Frankológica, com excruciantes ‘torch songs’ (canções de fossa), de uma vulnerabilidade viril.

Um minuto de silêncio, por obséquio. Foi a última vez na história que os gostos da elite e das massas coincidiram.

 

publicado por otransatlantico às 16:35
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Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010

LIVROS? DEUS ME LIVRE! 1 e 2

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LIVROS? LIVRA! (1)

 

Hoje em dia, quem espreitar a montra (vitrine) de uma livraria verá algo inopinado: a maioria dos autores é da TV. E não só cá: na Inglaterra e nos EUA, os hits são o livro de receitas de Jamie Oliver, e ‘ABC of Sex’ e ‘Supernanny’, de apresentadoras de TV. A diferença é que cá os VIP da TV nos infligem romances sem dó nem piedade, à sangue-frio (mas não o de Capote).

Aliás, em Portugal não há quem não queira escrever um romance (o que seria um bom sinal, se ao menos também os lêssemos). Ah, pavonear a nossa obrinha na estante da sala, entre o Camões e o Pessoa! E, agora que o homem bateu a bota, o Saramago, com o seu Nobel lindinho. Ora, nada mais fácil: como ouvi de alguém, todo o livro deve ser feito como um relógio e vendido como uma salsicha (só que o relógio é dos ciganos, e é mais fácil digerir uma banana de dinamite do que esta salsicha).

Dizia-se que a TV mataria a literatura, mas ela foi mais esperta: reciclou-a em iliteracia encadernada – os analfabetos funcionais são leitores vorazes. Há muito que os escritores se apearam da torre de marfim e vendem o seu peixe na ágora – em vão. Hoje, nem que Shakespeare ressuscitasse venderia um milésimo de qualquer boçalidade assinada por um tipo que lê o boletim meteorológico na TV. Hoje, as pessoas compram livros como quem compra a ‘TV Guia’ ou a ‘Nova Gente’. Uma imagem vale por mil palavras? OK, então agora tentem dizer isso em imagens… Culpa dos editores? Sim, mas não só: alguns editores são escritores falhados, mas isso a maior parte dos escritores também é.

Nunca fui populista em relação à cultura (nem a nada), mas não me agrada conversar com autores que escreveram mais do que leram.

Bem sei que Cervantes e Dickens foram popularíssimos em vida, mas hoje há algo de contranatura num ‘best seller’ genial. Já imaginaram um Kafka a dar autógrafos num hipermercado? Seria a coisa mais kafkiana de sempre. Será que todos os que compram Saramago e Antunes os devoram? Ou é só para condizer com os ‘bibelots’ da estante da sala?

A literatura de verdade tem a ver não com campeões de audiência, mas com duas solidões: numa extremidade, a do escritor a escrever; na outra, a do leitor a ler. O resto é fábrica de adubo.

E os escritores televisivos urdiram uma cilada para os autores literários. Até ontem, eis uma das raras vantagens em ser-se um romancista lusófono: escrever consistia na única profissão em que ninguém era considerado ridículo se não ganhasse dinheiro. Hoje, nem isso.

Com o cotovelo em estado de coma, estou quase a entrar na dança e a apregoar: não precisam ler os meus livros – basta comprá-los! Mas, não, essa livralhada não é para mim. Assim como não é a daqueles escolásticos que sabem tudo sobre a literatura – menos como divertir-se com ela.

(Esta crónica continua para a semana. Não percam os próximos parágrafos, cheios de sexo e violência!)

 

LIVROS? LIVRA! (2)

 

Quando critico a logorreia dos livros televisivos excluo as obras dos telejornalistas. Profissionais da escrita, não fazem parte da salsicharia editorial. Mas celebridade não é reputação – não é por trabalharem na TV que os seus romances são melhores ou piores.

Todos ouvimos falar na morte do livro, na morte do autor, na morte do leitor. Os computadores nunca substituirão os livros: não se pode subir numa pilha de CD para chegar à prateleira de cima.

E a TV? OK, comparados com esta, os livros vacilam. As imagens televisivas são um veículo perfeito: correspondem ao que representam. As palavras impressas, não. Não passam de marquinhas negras no papel – têm de ser decifradas, numa operação mental complexa, que requer concentração e introspeção. A civilização nasceu sobre tal operação. Conseguirá sobreviver sem ela?

Os programas literários na TV? Louváveis. Mas defender que conseguem salvar a literatura equivale a acreditar que é possível convencer um miúdo de oito anos de que beijar uma jovem pode ser mais divertido do que comer um gelado (sorvete).

Os riscos da cultura na TV são ou o reducionismo ou o cabotinismo. Quanto ao primeiro, ouvi um apresentador explicar que «prosa é quando todas as linhas, menos a primeira, chegam até à margem. Poesia, não.» Dicas para a apreciação? Ora, a crítica às vezes assume a forma: «tens talento e eu não, e claro que isso não pode continuar assim». Em compensação, arrasar uma coisa, sobretudo se é emproada e presunçosa, constitui um sadismo delicioso. Enfim: é muito mais fácil ser crítico do que ser justo.

Sobre o programa da Bárbara Guimarães já falei. Nunca fui entrevistado por ela (claro que a noite ainda é uma criança*), mas um escritor deve sentir o mesmo que Dante sentiu quando Virgílio o confiou à Beatriz – a entrar no Céu. Já Francisco José Viegas denota uma cordialidade um tanto esfíngica, mas que nunca descamba na descontração oca e pateta. E dá a impressão de que realmente leu as obras cujos autores interpela (não calculam o quanto isto é raro). Ana Sousa Dias deixava os convidados falarem – só por isso, devia ser beatificada. Paula Moura Pinheiro tem uma certa tendência a pontificar. Porém, eu lhe perdoaria tudo, se ao menos ela parasse um bocadinho de simular aspas com os dedos (nem que para tanto fosse necessário roer as unhas).

Divulgar os livros na TV é uma tarefa árdua. Mas pensem nisto: a literatura é muito mais apaixonante que a própria existência. Observem a vida real. Convenhamos: a ação é repetitiva, os diálogos bastante fracos e o início e o fim sempre iguais.

 

(* Depois desta crónica, publicada no Expresso, fui entrevistado pela Bárbara Guimarães. Quem não chora, não mama)

publicado por otransatlantico às 19:53
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Quinta-feira, 5 de Agosto de 2010

CHURCHILL E OS CHARUTOS

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Um belo dia, Freud estava a fumar e o paciente no divã grunhiu-lhe que o charuto é um símbolo fálico. O pai da Psicanálise engasgou-se, ficou da cor de um carro de bombeiros e esboçou um sorriso amarelo: “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”.

Para Winston Churchill, um charuto nunca era apenas um charuto, mas também um adereço mediático, um florete retórico e um prazer quase (presumivelmente…) incomparável. É o que realça o encantador livrinho Churchill´s Cigar, de Stephen McGinty, no fundo uma biografia transversal daquele que os espectadores da BBC elegeram o maior britânico da História. Churchill, de fato, foi um dos supremos paus para toda a obra de sempre: político genial, soldado valoroso, escritor brilhante (Nobel de Literatura) e pintor aceitável (mais de 500 telas, com exposição individual na Royal Academy, em 1959).

Expeliu a sua primeira baforada aos 15 anos, e nunca mais parou. Começava ao pequeno-almoço (café da manhã), e a média eram sete por dia – o que dá cerca de 180 mil ao longo da vida. O que o espectro do titã diria da nossa época antiséptica, para a qual o fumador é um híbrido de leproso com serial-killer? Talvez se contentasse em assinalar que morreu aos 90 anos. Ou talvez acrescentasse que o seu inimigo figadal (e nosso, já agora), o velho e mau Adolf Hitler, não bebia, não fumava e era vegetariano. Sim, o Fuhrer gostava de apregoar: “Não bebo, não fumo, durmo muito. É por isso que estou cem por cento em forma”. Até que Churchill perdeu as estribeiras e espumou-lhe: “Bebo como uma esponja, sofro de insónias e fumo como uma chaminé. É por isso que estou 200 por cento em forma”.

Eis um fascinante instantâneo de Winston no seu escritório: “Não inalava o fumo. Soprava-o em meditativos balões, ficando por vezes a olhar para eles como se fossem lagos com peixes, ou como se tivesse deixado cair qualquer coisa valiosa lá dentro e procurasse encontrá-la”.

Não era certamente a jovialidade, pois esta ele jamais perdeu. Como em certas reuniões do Ministério: “Fumava em silêncio, deixando que a cinza crescesse até representar metade do comprimento do charuto. Os ministros ficavam hipnotizados por aquele aparente desafio às leis da gravidade e quase esqueciam o que estava a ser dito, à espera de que a cinza caísse”. O que ignoravam é que o primeiro-ministro tinha espetado um longo alfinete no charuto, e era isso que estava a sustentá-la…

Um “puro havano” foi batizado com o nome do estadista, que uma vez confessou: “Tenho sempre Cuba nos meus lábios”. E na praça principal de Churchill, uma cidade pacóvia (caipira) da Austrália, foi erigido um monumento de 40 metros de altura, conhecido como ‘O Grande Charuto’. OK, é um monstrengo kitsch, como os seus conterrâneos ‘A Grande Banana’, ou ‘O Grande  Koala’.

Mas o que conta é intenção. Churchill sabia disso. E sabia também que, como os charutos acabam em cinzas, também nós temos de voltar ao pó. O que nunca o impediu de agradecer a Prometeu, por ter roubado o fogo aos deuses. Onde há fogo, há fumo.

publicado por otransatlantico às 11:34
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Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010

O IMPACIENTE INGLÊS

Pigs Have Wings (4CDs) - PG Wodehouse read by Martin Jarvis

 

 

Segundo ele, para um escritor na América das primeiras décadas do século passado, “trabalhar sem três nomes era como sair de casa nu em pêlo”. Já que não gostava lá muito de chamar-se Pelham Grenville, optou por P.G. Wodehouse como “nom de plume”. Este gênio (para ser cientificamente escrupuloso, quase picuinhas) do humor anglo-saxónico nasceu em Hong-Kong, foi educado em Inglaterra e viveu na América (incluindo Hollywood).

O sujeito era uma máquina de escrever: ninguém até hoje delimitou a sua obra, pois publicou títulos sob numerosos pseudónimos. Em 93 anos de vida, lançou pelo menos 96 livros, assinou 16 peças de teatro e compôs a letra (ou o libreto) de 28 musicais (alguns com Jerome Kern). Mas, atenção: “O Código dos Wooster” está entre os quatro primeiros volumes – em capa dura – que a Everyman Library editou há dois anos, numa esplêndida seleta de Wodehouse.

Em 1914, ele ainda patinava. Nos anos 20, porém, a sua obra já lhe rendia 200 mil dólares anuais. Mas era a antítese do mercenário: desde que tivesse fumo para o cachimbo, estava contente da vida, todo lampeiro. Aliás, pessoalmente, este autor cintilante era mortiço e tímido. A mudar-se para Nova Iorque, rogou à mulher que alugasse um andar no rés-do-chão (térreo): “Nunca sei o que dizer nos elevadores”. Em 1951, sofreu uma ameaça de enfarte em plena Park Avenue, e cambaleou para um consultório médico, mais morto do que vivo, branco como um lírio. O doutor fungou: “Que mendigo…” A enfermeira corrigiu-o: “Não, é um inglês”.

Um dos segredos da prosa de Wodehouse consiste na reciclagem elítica dos clichês. Como nas suas supremas figuras, que desconstroem os arquétipos britânicos: o cerebral mordomo Jeeves, e o seu mentecapto patrão, Bertie Wooster. Snobismo ingles? Só regada com repuxos de verve epigramática. Como assinalou o próprio autor, “Jeeves conhece o seu lugar: é entre as duas capas de um livro”. P. G. consumou aquilo a que Flaubert aspirava: escrever um romance sobre nada. Nicles. Patavina. Bulhufas. Uma espécie de vórtice do vácuo.

No fundo, ele conta sempre a mesma história, com palavras diferentes. Trata-se de um tardio e derradeiro expoente de uma admirável estirpe de artistas: os praticantes da “commedia dell’arte”, que manipulavam protótipos como o Polichinelo ou o Arlequim. Como Wodehouse observou, “faço algo como uma comédia musical sem música”. A música, claro, pulsava no texto. Modernismo ou anacronismo? Ambos. Evelyn Waugh, que escreveu penetrantes ensaios sobre Wodehouse, é quem descobriu a pólvora: “Jeeves e Berti Wooster habitam um mundo intemporal, como o de ‘Alice no País das Maravilhas’”.

Mesmo na nossa era tão desinibida e exibicionista, não nos importamos com a conspícua ausência de sexo nesta obra. Como realçou um biógrafo, “os gentlemen de Wodehouse não reconheceriam uma cama de casal”. Ora, não se pode ter tudo – e, neste caso, quase tudo é mais do que o suficiente.

publicado por otransatlantico às 01:54
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Domingo, 1 de Agosto de 2010

ENTREVISTA JAVIER CERCAS

 


 

 

«O ESCRITOR NÃO PODE SER COBARDE»

 

Javier Cercas lançou em Portugal «A Velocidade da Luz», o primeiro romance depois do fenómeno «Os Soldados de Salamina», aclamado pela crítica internacional e com mais de um milhão de leitores só em Espanha. Após “A Velocidade da Luz” vieram “A Verdade de Agamemon” e “Anatomia de un instante”, este eleito o melhor romance espanhol de 2009 pelo suplemento cultural do “El País”, o “Babelia”.

 

 

 

 

Apesar da excelência dos livro anteriores, como «O Inquilino», Javier Cercas somente se tornou uma celebridade em Espanha – e a seguir no mundo – com a publicação do romance «Os Soldados de Salamina», em 2001. Esta obra, apadrinhada por Vargas Llosa, conquistou vários prémios cobiçados, vendeu 1 milhão de exemplares apenas em solo espanhol e está traduzida para mais de 20 idiomas. O livro foi também adaptado para o cinema, por David Trueba (o irmão mais novo de Fernando Trueba). Curiosamente, há sete anos Javier Cercas, na condição de jurado, ajudou a atribuir o prémio Cervantes de 2003 a Rafael Sanchez Erlosio, filho de Rafael Sanchez Maza, falangista histórico e personagem principal de «Soldados de Salamina». A publicação do romance seguinte de Cercas, finalmente intitulado «A Velocidade da Luz», gerou em Espanha enorme expectativa. No meio da sua composição, o escritor chegou a pensar em renegar o projeto, questionando a sua própria legitimidade para escrever sobre a Guerra do Vietname (um dos panos de fundo do livro). Foi então que Susan Sontag (autora do ditirâmbico prefácio da edição americana de «Soldados de Salamina») o encorajou a persistir, num jantar em Barcelona. Provavelmente, um dos juízos mais sensatos da falecida ensaísta.

 

 

 

Paulo Nogueira: Depois do sucesso estrondoso de «Soldados de Salamina», sentiu-se pressionado para escrever o romance seguinte? Por si mesmo e pelos outros? Sentiu medo? Talvez de si próprio?

Javier Cercas: Não, medo de mim não senti. Talvez uma certa vertigem… Afinal, este livro se chama «A Velocidade da Luz» (risos). Não, definitivamente não. Quando começa a escrever, o autor está sempre só, e não há nada a fazer senão seguir em frente. Todos os romances são exorcismos, e este não o foi mais do que os anteriores.

PN: Mas creio que chegou a falar em «artilharia da crítica» e em «espadas desembainhadas»...

JC: Na verdade, foi o meu editor quem sugeriu que este romance se intitulasse «Esperam-te Com Toda a Artilharia». Segundo ele, depois de um sucesso internacional há sempre muita inveja, e algumas pessoas, enfim, querem ver sangue… Mas, em última análise, em Espanha a crítica foi muito mais elogiosa em relação a este romance do que a «Soldados de Salamina», que passou quase despercebido…

PN: Apesar do artigo laudatório de Mário Vargas Llosa?

JC: Ah, isso foi mais tarde. Já tinham saído as críticas todas. Mas, claro, os críticos tem que fazer o seu trabalho – e alguns são bons e outros são maus, como os escritores. Quanto a mim, até a «Os Soldados» os meus livros tinham cerca de três mil leitores, e os «Soldados» vendeu centenas de milhares. Daí que tenha surgido uma expectativa normal, mas um escritor deve ser valente. Não pode ser cobarde. Na vida pode ser cobarde, mas diante do computador não tem esse direito. Senão, dedique-se a outro ofício. Um escritor cobarde é como um toureiro cobarde – uma contradição nos termos. Claro que um êxito assim, repentino e inesperado, acentua a nossa tendência a autodestruição. Mas não pretendo ser cabotino a ponto de dizer que um sucesso não é bem-vindo. O nosso banqueiro, por exemplo, fica radiante (risos). A sério: no mínimo, significa que gostaram do seu trabalho, o que é bom. Cada vez que um leitor abre o nosso livro e o lê, o livro cresce. Um clássico é aquele livro que se lê até hoje, que nunca parou de crescer.

PN: - Mas o sucesso nem sempre é sinónimo de qualidade literária…

JC: Claro que não! E depende do que se entende por sucesso. A única forma de se entender seriamente o êxito é a forma como o escritor escreveu o seu livro. Se tem mais ou menos leitores, não passa de uma casualidade. Há autores fundamentais que nunca tiveram nem nunca terão milhões de leitores. Kafka, por exemplo… Ou Joyce. E no entanto também é tolice pensar que só os romances que venderam pouco são grandes obras. Há romances magníficos que foram e provavelmente continuarão a ser amplamente lidos, como os de Dickens. Ou Cervantes - «Dom Quixote» foi um best-seller já no seu tempo. Não há nenhuma regra, e o êxito seguramente não testemunha nem o mérito de um livro nem a falta dele.

PN: Num romance de Italo Calvino, dois romancistas vizinhos, cada um na sua casa, se observam um ao outro, sem o saberem. Um, celebrado pela crítica, inveja o sucesso comercial do segundo. Este, por sua vez, inveja o prestígio cultural do primeiro. Como se sente, tendo obtido ambas as coisas? Bem, suponho…

JC: Sinto-me um privilegiado. Mas você devia completar essa cena, que é magistral, de um livro que admiro e li muitas vezes. Os dois propõem-se a escrever um romance para agradar a uma terceira vizinha, que é a leitora e está equidistante. O escritor de êxito comercial quer escrever uma obra como a do vizinho que tem o apreço da crítica – e vice-versa. Pois ambos crêem que a leitora está a ler um livro do outro. O que Calvino pretende dizer é que se trata de um falso dilema, tal distinção entre o bom escritor que é desconhecido e o mau escritor que é idolatrado pelo público. De novo, não há regras. É uma história perversa.

PN: Nos «Soldados de Salamina», a Guerra Civil espanhola. N ‘«A Velocidade da Luz», a Guerra de Vietname. Mas fala menos dos conflitos que dos seus fantasmas…

JC: Sim. Não são tanto os homens que passam pelas guerras, como as guerras que passam pelos homens. O tema da guerra interessou-me sempre, literariamente – afinal, é o primeiro tema da literatura, com Homero. Os homens julgam que, na guerra, descobrem aquilo que são. Mas quando escrevo um livro é para solucionar um problema que coloquei a mim próprio, como um teorema. Ou seja, por perplexidade. Claro que, no final, não há solução. Ou melhor, a solução é o próprio processo do romance. Porém o essencial escapa-nos sempre.

PN: A questão autobiográfica n’ «A Velocidade da Luz» é labiríntica. «Parece-se comigo, mas não sou eu», diz o escritor-personagem sobre o protagonista de um romance que está a escrever no seu romance. Como no conto de Edgar Allan Poe, «A Carta Roubada», esconde-se mostrando-se?

JC: Perfeito. É exactamente o que eu diria. Nietzsche disse a mesma coisa mas de outra maneira: falar muito de si mesmo é a melhor forma de ocultar-se. Como a personagem dos filmes de Woody Allen não é Woody Allen – acreditamos que sim mas estamos enganados. O protagonista de «Velocidade da Luz» é uma máscara – e uma máscara revela-nos ao mesmo tempo que nos dissimula. Nesse sentido, é talvez mais profundamente eu do que eu próprio… É um Eu concentrado, uma essência.

 

(Entrevista publicada no suplemento Atual, do semanário Expresso)


publicado por otransatlantico às 20:33
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OSLO QUEBRA O GELO

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Gardemoen – o aeroporto internacional de Oslo – começa logo por quebrar o gelo: é um dos mais modernos e bonitos do mundo, e prenuncia que vale a pena visitar a capital da Noruega mesmo no glacial Inverno nórdico. Já nas manobras para a aterragem, descortinamos as encantadoras florestas que rodeiam Oslo, com as copas das árvores polvilhadas de neve, como uma extensa vitrine de algodão-doce.

A Noruega esteve por longos anos integrada quer à Suécia quer à Dinamarca – a independência veio só em 1905. Hoje é uma monarquia constitucional. Ou seja, a Família Real, apesar de estimada e respeitada, tem um papel apenas decorativo (o que não deve ser difícil, já que são sempre loiros, altos e de olhos azuis). Oslo foi fundada pelos Vikings e mudou de nome várias vezes: em 1925 fixou-se no atual.

Os Noruegueses em geral, e os da capital em particular, são de uma hospitalidade irrepreensível. Toda a gente fala um Inglês oxfordiano – excepto os hooligans ingleses, quando lá vão demolir a cidade por causa de um jogo de futebol e umas panças de cerveja. Porém, como os locais são descendentes dos Vikings, aqueles vândalos levam o troco. Aliás, embora tratem a bola como se ela fosse quadrada (deve ser por isso que a letra O deles é cortada ao meio), os Noruegueses adoram o futebol: há 1800 clubes no país. Sempre que revelei a minha origem, ouvia as palavras mágicas, num tom embevecido: “Cristiano Ronaldo!”

Mas o desporto predileto é o esqui, que eles inventaram. Até hoje, qualquer cidadão tem o direito de esquiar através da propriedade alheia, desde que não esteja cultivada. Há na região de Oslo uma área chamada Marka, que abrange nada menos que 2000 km de trilhos largos de esqui – também há trilhos estreitos para quem prefere esquiar sozinho. Confesso que experimentei, mas ia partindo uma perna – felizmente, era a de outra pessoa (talvez por isso toda gente ao pé de mim preferisse os trilhos estreitos).

 

 

Oslo-Museum Vikingships

 

A Noruega é um dos maiores países da Europa, mas tem só 4,5 milhões de habitantes, 500 mil dos quais na capital. São leitores ávidos: em média, cada lar compra 1,7 jornais por dia. Com uma população tão reduzida, já embolsaram três Nobel de Literatura. O mais famoso escritor norueguês, Henrik Ibsen, não foi a tempo de ganhar o prémio, mas revolucionou a dramaturgia mundial e uma peça dele (O Inimigo do Povo), inaugurou em 1899 o imponente Teatro Nacional.

O Teatro Nacional fica na Karl Johans Gate, a principal e mais badalada artéria de Oslo, percorrida diariamente por 100 mil pessoas. Nela situam-se também o Palácio Real, o Parlamento e a Universidade. Ao pé estão a Galeria Nacional e o Museu Histórico – e armazéns, restaurantes, lojas, cafés e ringues de patinagem. Mesmo no Inverno gélido, a vida nocturna ali fervilha (o que não quer dizer que sejam os maiores boemios do mundo: afinal, antes das quatro da tarde já é noite).

A Galeria Nacional é obrigatória. É lá que pontifica O Grito, de Edvard Munch, apelidado de “a Monalisa do século XX”. Depois da II Guerra, o quadro – precursor do Expressionismo – tornou-se um ícone pop e um dos mais reproduzidos da História, não apenas em cartazes como também em canecas, canetas e porta-chaves. Em 1961, foi capa da revista Time, numa edição dedicada aos complexos de culpa e ansiedade. Nos anos 80, Andy Warhol realizou uma série de trabalhos inspirados em Munch, que incluem uma “reinterpretação” d’ O Grito. Em 1991, o muralista Robert Fishbone criou uma versão boneco insuflável, que vendeu milhares de cópias em todo o planeta. No filme de terror O Grito, um assassino psicopata esconde a sua identidade sob uma máscara da criatura andrógina concebida por Munch. Para desopilar, o quadro apareceu duas vezes n’ Os Simpsons. Em 2006, o Google celebrou o seu aniversário alterando momentaneamente o seu logótipo para citar O Grito.

 

 

 

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Em 12 de Fevereiro de 1994, a tela foi roubada da Galeria Nacional em pleno dia. Os ladrões deixaram uma mensagem irónica: “Obrigado pela falta de segurança” – e exigiram um resgate de 1 milhão de dólares. A obra foi recuperada com a ajuda da Scotland Yard. Em 22 de Agosto de 2004, O Grito foi de novo levado por ladrões (na Noruega não existe o ditado “casa roubada, trancas à porta). E de novo recuperado, mas com danos que os críticos consideram irreparáveis (é o costume: os críticos estão sempre a criticar – a mim O Grito pareceu-me bem, isto é, pavoroso). É significativo que o quadro emblemático do Renascimento seja uma beldade com um sorriso açucarado – ao passo que a tela representativa da contemporaneidade mostre alguém a berrar com aquilo que parece a maior enxaqueca de sempre.

Também nas imediações da Karl Johans perfila-se a Câmara Municipal, inaugurada em 1950 para comemorar os 900 anos da cidade. O projecto que ganhou o concurso público, dos arquitectos Arneberg e Poulsson, é um ousado marco modernista – tão audaz que levou muito tempo até que os munícipes o engolissem sem uma careta. A sala principal ocupa uma área de 1,5 quilómetros quadrados, e contém a maior pintura a óleo da Europa, de Henrik Sorensen. É lá que, no mês de Dezembro, ocorre a entrega do Prémio Nobel da Paz.

Distantes do centro, duas atrações imperdíveis. Uma é o Museu dos Barcos Vikings, em Bigdoy. As embarcações expostas foram usadas para transportar os corpos dos chefes supremos na sua última viagem ao reino dos mortos. Os chefes naturalmente não voltaram, mas os barcos sim, quase tão obedientes como bumerangues. E ainda bem: são de uma graciosidade requintada que refuta o estereótipo dos vikings como uns trogloditas glutões. A outra atração é o prodigioso Vigelandsparken, visitado anualmente por 2 milhões de pessoas. O maior parque de Oslo recebeu o nome do escultor Gustav Vigeland, cujas 212 esculturas povoam o eixo central e representam toda a Humanidade. Só o Monolito, de 17 metros de altura, é composto de 121 figuras humanas interligadas. Mas a escultura mais célebre do ciclópico conjunto é A Criança Zangada, a representação mais aterrorizante de uma birra infantil (com a possível exceção das do meu filho).

 

 

 

Northern Lights (Aurora Borealis) in Tromso

 

Quem tiver mais algum tempinho, sugiro um salto a Tromso, a “Paris do Norte”, a 1 hora e meia de voo de Oslo. Já no Círculo Polar Ártico, tem (sem falar no Museu do Pólo) uma das mais fascinantes catedrais modernistas e, sobre ela, com um pouco de sorte você verá um milagre: a Aurora Boreal, esse caleidoscópio celeste.

A Noruega também é famosa pelos seus fiordes, majestosas formações geológicas que são como enseadas longas e estreitas, serpenteando e embrenhando-se pelas montanhas. A capital possui o seu: o Oslofjorden, com uma zona de recreação estival apinhada de barcos. A comida típica norueguesa inclui o nosso familiar bacalhau, salmão, arenque e os ecologicamente blasfemos bifes de rena e baleia. Dos cetáceos me abstive (disseram-me que sabem a fígado, o que para mim foi mais do que o suficiente). Mas – minha culpa, minha máxima culpa – confesso que saboreei um avantajado naco de rena. E repeti. Sim, sim, já sei: este ano o Pai Natal não vai me dar nem um alfinete.

 

(TEXTO PUBLICADO NA REVISTA "ÚNICA", do SEMANÁRIO "EXPRESSO")

publicado por otransatlantico às 11:33
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Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

O APOLO DIONISÍACO

hugh hefner

 

 

Persignemo-nos: aos 81 anos, está com os pés para a cova um dos  responsáveis pela prática do sexo sem culpa – ou seja, da coisa que é mais divertida sem nos rirmos. Mas levou um vidão: na última foto, Hugh Hefner, já octogenário, surge rodeado de uma plêiade de beldades cujas idades somadas não roçam à dele.

A Playboy tão-pouco é uma Lolita, mas uma cinquentona (nasceu em 1953). E a primeira playmate, Janet Pilgrim, já tem bisnetos! Quando HH concebeu a revista, fê-lo para um homem que não existia: independente, liberal, urbano e determinado a sorver a vida não em colherzinhas de chá, mas em conchas de sopa. O perfil incluía apreço pelo jazz e a fina-flor da literatura da época, de Nabokov a Bradbury. E familiaridade com a corrida atõmica ou a era espacial. Enfim, uma mistura de James Bond com príncipe renascentista.

Hugh Hefner quis que este cliente tivesse tudo do bom e do melhor: para textos de economia, contratou J. Paul Getty, o fulano mais rico do mundo; para os de sexo, o casal de médicos Masters & Johnson. E isso com uns tostões que pediu emprestado à sua própria mãe (imaginem: depenar a genitora para lançar a Playboy! O que Freud diria?) Produziu o primeiro exemplar na mesa da cozinha e acabou na Mansão Playboy, uma espécie de Graceland erótica.

Volta e meia, a revista servia um capítulo inédito de Ian Fleming, com o próprio 007. E quando dedicou oito páginas à nudez inefável de Brigitte Bardot, quem assinou as legendas? André Malraux. O VIP mais irascível, que não abria a boca nem para bocejar, nas entrevistas da Playboy falava pelos cotovelos (casos de Sinatra e Miles Davis). Com a sua cama-catapulta, um leitor daqueles nunca precisaria de sexo pago (apesar de este ser com frequência mais barato do que o gratuito). E as playmates jamais pareciam sirigaitas, mas a vizinha do lado (girl next door). A revista chegou a vender 6 milhões de exemplares por mês.

Em 1968, Hefner percebeu que, na calada da noite, algo mudara, ao ouvir uma jovem exclamar: “Agora a gente vai para a cama com um tipo e, bolas!, no dia seguinte ele já te quer levar para jantar!”  Ora, se as damas se tornavam mais acessíveis, não era HH quem se ia queixar. Porém, quando em 1970 a Playboy publicou os seus primeiros pêlos púbicos, a concorrência apelou, estampando monólogos da vagina. Um dos segredos da Playboy era destinar-se a um homem de hipotéticos 25 anos – qualquer que fosse a sua idade: “Se ele tiver 45 anos, gostaria de ter 25 outra vez. E, se tiver 13, também gostaria de ter 25”. Hoje, todos os homens desejam ter 13 – incluindo os de 13. E o sexo da net está aí para os saciar e até enjoar. Sem precisarem de se interessar com o jazz, ou a literatura, ou o que acontece no mundo. Um marmanjo que não sabe o que ouve, nem o que houve. De tanto reduzir o foco, limitou o seu vocabulário a uma expressão: “Foda-se!” Ou “Caralho!”. Pobres mulheres. E pobres homens.

 

(Crõnica publicada na REVISTA DE DOMINGO, do Correio da Manhã)

publicado por otransatlantico às 16:16
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Terça-feira, 27 de Julho de 2010

O PAI DO SNOOPY

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Acaba de ser lançada em Portugal a Obra Completa de Charles Schulz, nuns volumes bem convidativos, prefaciados por grandes escritores e jornalistas americanos (e Matt Groening, o criador dos Simpsons). E saiu nos EUA a biografia definitiva do homem. A vida de Schulz (que morreu em 2000) parece um sonho americano – mas, como todo a vida humana, contém as suas insônias e os seus pesadelos.

Foi mais com estes do que com aquele que o filho de um barbeiro do Minnesota se tornou o cartoonista mais rico de todos os tempos: as suas tiras povoaram 2600 jornais de 75 países, em 21 línguas. Autodidata, aprendeu o ofício por correspondência. “Peanuts” (um nome que detestava e lhe foi impingido pelo sindicato dos desenhadores) despontou em 1950. O estilo das vinhetas, minimalista e de uma ousadia sutil, irritou os seus pares. Numa entrega de prêmios, anos mais tarde, Schulz saiu de mãos a abanar e bramiu: “Fui tratado como um bastardo”.

Hoje, é encarado como o primeiro autor de BD (histórias em quadrinhos) a equipar com miolos as personagens – não é por acaso que Charlie Brown, Lucy, Linus e Schroeder têm a cabeça descomunal. O próprio cão Snoopy está para o Pluto, de Disney, como Einstein estaria para nós outros.

Multimilionário, Schulz continuou – hã – neurótico pra cachorro. E ainda bem, pois foi daí que moldou a sua tribo. Charlie Brown, sempre esperançoso e sempre rejeitado, uma criatura estóica e decente num mundo hostil ou indiferente. Lucy, a sardônica nêmesis de Charlie. O filosófico e introspectivo Linus. O pianista Schroeder, retrato do artista autista. E Snoopy, o cão com uma luxuriante vida imaginária, protótipo do talento nunca devidamente apreciado.

Como Gulliver (de Swift) e Alice (de Lewis Carroll), não são protagonistas infantis. Afinal, em “Peanuts” o amor não é retribuído, os jogos de basebol acabam sempre em derrota e, no Dia das Bruxas, a Grande Abóbora jamais aparece (como Godot). Nascidas na transição dos catatônicos anos 50 para a psicadélica década de 60, as personagens de Schulz tentam se virar na vida quotidiana com o seu fardo de angústias perplexas, sem nunca de fato as resolver.

O que não impediu meninos e meninas de adorarem aqueles baixinhos cabeçudos. Ora, como já Freud indicava, “a criança é o pai do homem”. E da mãe também. Pois, para além do mito da infância seráfica e do verniz civilizado dos adultos, somos todos uns filhos da mãe. Como Lucy resmungaria, Charlie Brown discordaria e Snoopy latiria, antes de empoleirar no telhado da sua casota, e (depois de abater provisoriamente o temível Barão Vermelho) iniciar pela milésima vez o seu romance autobiográfico. “Era uma noite escura e tempestuosa…”

 

(Crónica publicada na REVISTA DE DOMINGO, do Correio da Manhã)

publicado por otransatlantico às 11:17
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Domingo, 25 de Julho de 2010

O CACHIMBO PENSANTE

 

 

 


Esta semana, em Londres, uma ampla pesquisa revelou: 58% dos entrevistados crêem que Sherlock Holmes foi um genial detetive que existiu de verdade. Ora, durante a sua vida (acaba de sair a biografia definitiva e a edição completa da correspondência), Conan Doyle recebeu centenas de cartas a solicitar os serviços da personagem, várias brandindo fortunas mirabolantes como soldo. Não admira a longevidade da criatura, equivalente a de Dom Quixote. Em um Mundo em que a insegurança e a angústia reinam, Holmes é um bálsamo: nem sempre evita o crime ou pune o criminoso, mas sempre nos explica que diabo aconteceu, como e porquê. Foi Pascal quem definiu o Homem como "um caniço pensante" - também quem confessou estremecer de pavor ao imaginar "o espaço vazio entre as estrelas"...

Se Sherlock é a quintessência da lógica indutiva, o doutor Watson corresponde a mais prosaica banalidade – porém, cheia de retidão e lealdade edificante. O par de Baker Street é como aqueles casais felizes cimentados pela atração dos opostos. Ou, para invocar de novo Cervantes, como Quixote e Sancho (neste caso, o delírio substitui a razão). Enquanto Watson lia o horário dos comboios (trens) ou atiçava a lareira, Holmes consumia cocaína, tocava violino ou espremia os miolos.

O próprio Conan Doyle era uma síntese instável daquelas antíteses. Escocês de Edimburgo, licenciou-se em Medicina, mas sem vocação e com fascínio pela aventura: pairou de balão pelo céu e conduziu carros e motos quando estes não passavam de geringonças excêntricas. E fervilhava de ambiguidades: autor do cerebral Holmes (com o seu método cartesiano da navalha de Ockham), converteu-se ao Espiritismo e escreveu livros a defender a comunicação com Gasparzinhos. Lembra sir Isaac Newton, o descobridor da gravitação universal, que dedicou mais tempo a Alquimia do que à Física…

Inopinadamente, Doyle acabou por odiar Holmes (que o enriquecera e imortalizara) e decidiu “matá-lo”, na obra “O Problema Final”. A reação do público foi de histeria coletiva: houve até cortejos fúnebres nas ruas de Londres. O escritor resistiu às pressões por dez anos, mas lá ressuscitou o detetive de lupa desembainhada.

Atenção: a célebre frase “Elementar, meu caro Watson!”, NÃO figura em nenhuma das 70 narrativas protagonizadas por Holmes – só nas miríades de adaptações para cinema e TV.

Ah, agora que o mistério Doyle/Holmes está deslindado, desopilemos. Eis um exemplo paródico da lógica indutiva. Holmes e Watson estão a acampar. De madrugada, Holmes acorda Watson: “Olhe para o céu e diga-me o que vê”. Watson: “Vejo milhões de estrelas”. Holmes: “E que conclui?” Watson: “Que existem milhões de galáxias. Que Saturno está em Leão. Que serão três e um quarto da madrugada. Que amanhã teremos um dia lindo. Que Deus é Todo-Poderoso e nós insignificantes. E você, o que conclui, meu caro amigo?” Holmes: “Watson, sua besta, roubaram-nos a tenda!”

 

(Crônica publicada na REVISTA DE DOMINGO , do Correio da Manhã)

publicado por otransatlantico às 11:40
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Sábado, 17 de Julho de 2010

ÇA VA?

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Sarkozy, com quem até simpatizo (tem muito mais gosto para escolher mulheres que o principe Charles) está em apuros. Como se já não bastasse a lambança económica-financeira da Europa, ele foi engolfado por uma saga que parece novela venezuelana (não veneziana, de Goldoni), em que Chavez fizesse de galã e deus ex-machina. Tudo por causa da dona da L'Oreal, uma mistura de Hebe Camargo com Dercy Gonçalves com Lili Caneças (os meus eventuais leitores que se virem). Só toco no assunto (já que não posso tocar na Carla Bruni) devido ao meu post sobre o Gainsbourg, que suscitou emoção e comoção. De súbito, a adorável libertinagem francesa virou país árabe (onde um Edward Said nunca quis viver, preferindo o enxofre norte-americano). Passa-se o seguinte.

Em 1947, pediram a Sartre que escrevesse um breve PREFÁCIO para uma edição de Baudelaire. Quando Sartre depôs a pena, tinha escrito mil páginas concisas sobre a “alteridade” do poeta – o jeito foi publicarem o texto como um ensaio XXL, e a obra de Baudelaire como “apêndice”… Esta semana os cartazes do filme “Gainsbourg” foram retirados do Metro de Paris, pois o cantor e compositor francês aparece a fumar. Se os exibisse, o Metro seria multado em 100 mil euros, por “incitação ao consumo do tabaco”. Ora, é impossível mostrar Gainsbourg sem uma auréola de fumo - fumava sem parar, excepto quando fazia amor com Brigitte Bardot, Jane Birkin, Catherine Deneuve, Isabelle Adjani e imensos etc, que me deixam marcianamente verde de inveja (bolas, o que é que ele NÃO tinha que eu também NÃO tenho?). Não era propriamente um pão, mas as mulheres salivavam por Gainsbourg, com ou sem nicotina. Tanto que a própria Whitney Houston pirou e degenerou numa versão brega e sem panache - apenas pirada. OK, esses Gauleses são doidos. Eis o dilema deles sobre qualquer novidade: “Na prática, funciona. Mas funcionará na teoria?”

publicado por otransatlantico às 21:28
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TRÊS ALEGRES TIGRES

Apenas um comentário científico: sou muito mais telegênico quando não estou na TV.

 

 

 

 

publicado por otransatlantico às 10:28
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Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

O ARCANJO OBSCENO

 

 

 

 

 

 

Provocador nato, amante irresistível, dono de palavras que semeavam o escândalo mas também o sucesso, o «cabeça de couve» nascido Lucien Ginzburg, morreu há quase 20 anos, e França recorda-o agora com a publicação de uma biografia (definitiva?), a antologia do seu repertório recolhida em álbum duplo e em 18 CD e um biopic nos cinemas. Como dizia Brigitte Bardot, «era uma vez um príncipe louco de um reino demasiado exíguo para ele...»

Há 20 anos, a criatividade francesa perdia um dos seus melhores malditos: Serge Gainsbourg, um descendente legítimo de uma estirpe de delinquentes magistrais, que inclui expoentes como Villon, Lautréamont, Baudelaire e Rimbaud.

Gainsbourg era um virtuoso da autopromoção e um provocador incomparável. Num programa de televisão em direto e ao vivo, queimou uma nota de 500 francos diante de um apresentador embasbacado, para denunciar a ganância tributária do Governo. Compôs uma versão iconoclasta da «Marselhesa», o hino nacional francês, que fez espumar os membros mais chauvinistas da Legion D'Honneur. Noutra emissão de TV (vídeo abaixo), anunciou alto e bom som para uma Whitney Houston de olhos esbugalhados e sentada ao seu lado: «I want to fuck you!»

 

 


 

 

 

 


 

 

Mas engana-se redondamente quem julga que ele não passava de um bufão escandaloso, criado pela imprensa popular. O impacto dele na música francesa é inestimável. Com mais de 200 canções gravadas por vozes que vão de Juliette Greco a Yves Montand, ou de Alain Chamford a Vanessa Paradis, Gainsbourg alcançou uma audiência que transcendeu gerações e eras musicais. Daí que, quando morreu, fosse uma espécie de tesouro nacional - embora um tesouro escabroso como Sade.

Para assinalar a primeira década da sua morte (de ataque cardíaco…), foram lançados em França «Gainsbourg», a biografia definitiva de autoria de Gilles Verlant (ed. Albin Michel, 763 págs.), o álbum duplo «Gainsbourg Forever», antologia de 43 canções, e uma caixa homónima com 18 CD.

Quem era afinal este homem que foi chamado por uns «cabeça de couve» e por outros «apocalipse estável»? Serge Gainsbourg nasceu Lucien Ginzburg, em Paris, no ano de 1928. O pai dele era um judeu russo, que viera para França depois da revolução bolchevista. Durante a ocupação alemã, a família usou primeiro a infame estrela amarela ao peito, mas conseguiu sobreviver graças a documentos falsos. Em tais circunstâncias, o rapaz começou a esgrimir uma visão de mundo cínica e fatalista, cristalizada mais tarde num verso de 1979: «Moralidade: água e gás em todos os seus estados».

Desde a adolescência, ouvia Scarlatti, Bach, Chopin, Gershwin e Irving Berlin no piano paterno. «O meu pai parou em Schumann, Debussy e Ravel, mas eu continuei com Stravinsky, Schoenberg e Alban Berg», explicava. Depois, virão Billie Holiday, Art Tatum, Cole Porter e Dizzie Gillespie.

Nos anos 50, o jovem Gainsbourg ganha a vida como pianista de cabarés da Rive Gauche e como pintor de cartazes de cinema. Na casa nocturna Milord Arsouille (onde se estreara Charles Trenet), conhece Boris Vian, que o encoraja a escrever canções. Ele não se faz rogado, e num piscar de olhos está a compor para as maiores vedetas do chamado grupo de St. Germain-des-Près, onde a boémia era feérica, onírica e oficial. Eis o lema daquele cenáculo existencialista: «Nenhuma pessoa civilizada vai para a cama no mesmo dia em que dela se levantou». Juliette Greco ungiu obras como «Le Poinçonneur des Lilas» e «La Chanson de Prévert» em clássicos instantâneos. Já então Gainsbourg fumava como uma chaminé e bebia como um peixe. Mas não, não foi ele quem exclamou, certa tarde num 'bistrot': «Quem roubou a rolha do meu almoço?» Até porque, naquela tarde, Gainsbourg já estava uns quinze ou vinte copos acima do nível do mar.

Um belo dia, Lucien tomou duas decisões importantes. A primeira: (seguindo um conselho de Jacques Brel) que ninguém podia cantar as suas canções melhor do que ele próprio. A segunda: mudar o seu nome para Serge Gainsbourg. O primeiro álbum, lançado em 1958, entrou por um ouvido do público e saiu pelo outro. Mas os críticos e os seus pares caíram de joelhos e lamberam os beiços. Serge não se importou, pois nem mesmo ele levava a mal um elogio.

No princípio dos anos 60, Gainsbourg dividia irmãmente o seu tempo entre discos pessoais e composições para terceiros. Mas tudo mudou quando encontrou a cantora France Gall, então com 18 verdejantes aninhos. Foi a primeira Lolita deste Humbert-Humbert. Ela projetara-se recentemente, com uma seráfica canção sugestivamente intitulada «Sacré Charlemagne». Porém, quando a pequena despontou na TV, com um tantalizante chupa-chupa (pirulito) na mão, a cantar «Les Sucettes», de Gainsbourg, a carreira de ambos disparou com a iridescência de um cometa. A letra continha um duplo sentido bastante evidente, que só a intérprete não percebeu: «Annie aime les sucettes/ Les sucetts à l'anis/ Les sucetts à l'anis/ D'Annie/ Donnent à ses baisers/ Un goût anis/ Sée quand elle en a sur sa langue/ Que le petit bâton/ Elle prend ses jambes à son corps/ Et retourne au drugstore». Quando lhe explicaram o sentido, ela nunca mais dirigiu a palavra a Gainsbourg.

A partir de então, o pária niilista era uma coqueluche mediática. Após anos como um ícone da empertigada Rive Gauche, o cantor-compositor era recrutado pelo «mainstream», como um artesão de sucessos. Gainsbourg habitou até uma comédia musical na televisão, flanqueado por Anna Karina e Jean-Claude Brialy. Mas o melhor, ou pelo menos o mais bombástico (sejamos precisos: o abalo sísmico) ainda estava por vir.

Naquela época, ele teve um caso com a portadora de um lendário beicinho, uma certa Brigitte Bardot. Na sua autobiografia («BB», ed. Grasset, 1996), a diva evoca o amante com um nó cego na garganta: «Era uma vez Gainsbourg, príncipe louco de um reino demasiado exíguo para ele. Ocultava a sua vulnerabilidade atrás de uma insolente agressividade que, à imagem do seu coração e da sua face, não representava mais do que a parte visível desse iceberg incandescente e generoso.» Bardot e o iceberg incandescente gravaram juntos clássicos como «Bonnie and Clyde» e «Harley Davidson». Contudo, depois de gravarem «Je T'Aime… Moi Non Plus» (que vegetou nas prateleiras da Philips durante 17 anos!), os dois se separaram para sempre.

O que aconteceu? Bom, aconteceu que Brigitte, apesar daquela fachada de pecado capital ambulante, considerou que a tal canção era demasiado ousada e vetou o lançamento. Gainsbourg encolheu os ombros e procurou outra parceira. Que foi, como reza a história, Jane Birkin.

Birkin era uma actriz de cinema inglesa (consta que, quando a viu pela primeira vez, Serge resmungou: «As inglesas são tão finas que não têm peito nem bunda!» - o que era injusto com Jane). Diga-se a bem da verdade que ela já tinha um certo nome, graças à sua participação no mítico filme de Antonioni, «Blow Up», onde aparecia como viera ao mundo (há mundos com sorte).

A segunda versão de «Je T'Aime… Moi Non Plus» foi distribuída em 1968, e imediatamente assumiu o estatuto de hino erótico daquele ano trepidante. A canção foi censurada pelo Vaticano (que implorou ao Governo italiano para a banir) e sumariamente proibida em países que iam do Brasil à Suécia, passando por Espanha. O escândalo atingiu tais proporções que, em Inglaterra, a gravadora Fontana simplesmente renunciou ao disco, não obstante ele estivesse engastado no segundo lugar do «Top 10». Uma pequena companhia, a Major Minor, rapidamente adquiriu os direitos da canção e fez um relançamento, que por sua vez galgou para o primeiro lugar - a única música francesa que até hoje realizou tal façanha em Inglaterra.

Nos Estados Unidos, nem se pôs a hipótese de «Je T'Aime» tocar na rádio - se ainda fosse na Casa Branca de Bill Clinton! Sim, era a época do amor livre, mas não exageremos. Não era tanto a letra que arrepiava os cabelos do Tio Sam (afinal, para a maior parte dos americanos, francês é sânscrito), mas os gemidos concupiscentes de Jane Birkin, que tornavam «visualmente» inteligíveis os seguintes versos lascivos: «Je vais, je vais et je viens/ Entre tes reins/ Et je/ Me re-/ Teins…»

Proliferaram versões de «Je T'Aime» em oito idiomas, incluindo o japonês. Seis meses depois, dois milhões de cópias tinham sido vendidas. Apesar da ausência de divulgação radiofónica e de «marketing» profissional, com aquela canção, Serge Gainsbourg tornou-se o cantor francês de maior sucesso de todos os tempos nos EUA. O êxito foi tanto que a própria Jane Birkin, que gemia esplendidamente mas cantava tão bem como um pato, manteve uma longa carreira de intérprete em França.

Nos anos 70, Gainsbourg experimentou outros caminhos. Realizou até anúncios para a TV e gravou com os músicos de Bob Marley. Num concerto em Estrasburgo, enfrentou coléricos e ruidosos pára-quedistas do exército francês, zangados com a versão impertinente de «A Marselhesa». A situação era tão explosiva que os Wailers de Marley se recusaram a subir ao palco, apesar de toda a erva para ganhar coragem. Gainsbourg foi sozinho e começou a cantar «a capella», o hino francês original, sem acompanhamento musical, perante aquela multidão ribombante. Acabou ovacionado.

Gainsbourg era um misógino incorrigível, tendência que fica clara em canções como «La Femme des Uns Sous le Corps des Autres». Não postulava a «libertação sexual» (seja lá o que isso signifique), mas o hedonismo individual. Todavia, as suas obras foram memoravelmente interpretadas e gravadas por senhoras como Petula Clark, Juliette Greco, Françoise Hardy, Barbara, Dalida, Nana Mouskouri, Anna Karina, Catherine Deneuve e Brigitte Bardot. Com aquela cara de quem abusa do absinto, foi também um feio irresistível, que circulava por anónimos lençóis de prostitutas e seduzia as mais aristocráticas, olímpicas e desejadas mulheres. Como ele dizia: «A fealdade é superior à beleza, pois é permanente.» Por outro lado, sabia gozar de si mesmo, quando era traído. Só se zangou um bocadinho uma vez, ao saber que a namorada não apenas tinha outro, como também cozinhava para ele na sua própria casa: «Corno sim, mas não anfitrião!»

Gainsbourg era contraditório e sardónico o bastante para, quando lhe pediram para escrever uma canção contra as drogas - a ele, o paladino de todos os excessos -, responder afirmativamente. Assim, produziu mais um panfleto lírico e pungente: «Aux enfants de la chance/ Qui n'ont jamais connu les transes/ je dirai en substance/ Ceci/ Touchez pas à la poussière d'ange/ Angel dust/ Zéro héro à l'infini/ Je dis dites-leur/ De casser la gueule aux dealers/ Qui dans l'hombre attendent l'heure/ L'horreur/ de minuit.»

Prismático no seu talento, é também o cineasta «underground» de quatro filmes, entre os quais «Equateur», unissonamente vaiado no Festival de Cannes, e «Charlotte For Ever», tardiamente apaparicado por Jean-Luc Godard. Antes, tinha provocado o enésimo ultraje, com a letra e o teledisco da canção «Lemon Incest», no qual aparece estendido numa cama e vestindo apenas as calças do pijama, e a sua filha Charlotte, então com 14 anos, ajoelhada ao seu lado, vestindo somente a parte de cima do dito pijama. Mas explicou-se: «Disseram que era incesto. Mas não: era a vertigem do incesto.»

A derradeira Lolita de Gainsbourg foi Vanessa Paradis (hoje casada com Johnny Depp), para quem compôs 11 músicas do disco «Variations sur le Même T'Aime» - e de quem dera uma definição tipicamente gainsbourguiana: «Ela emana uma aura de sedução própria das estrelas. Paradis (Paraíso) é o inferno!»

Afinal, qual o segredo da «persona» idiossincrática de Serge Gainsbourg, entranhada quer na sua vida quer na sua obra? No que toca à sua música, é importante realçar a qualidade melódica contagiante, e o humor com que ele zomba das suas próprias atitudes, quase tanto como dos supostos puritanos que tão encarniçadamente tentava ofender. E a sua bufonaria satírica oferecia aos ouvintes uma ferramenta para resistirem aos aspectos mais embotadores de uma vida meramente consumista.

Mas Gainsbourg é, sobretudo, o poeta maldito e o trovador popular-erudito, autor de preciosidades como «La Javanaise», «Je Suis Venu Te Dire que je M'En Vais», «Initials B.B.», «Dieu Fumeur de Havanes», «La Décadence» e tantas outras. É o compositor de canções fáceis, para embolsar dinheiro fácil, mas também o visionário experimentalista. Mestre da colagem inovadora, atravessou todos os sons, do jazz ao hip-hop, passando pelo reggae e o pop, e tornou-se o mentor espiritual de importantes bandas contemporâneas, como os Divine Comedy. Introduziu em França sonoridades então inéditas naquelas paragens: o soul, os ritmos afro-cubanos («Couleur Café»). Musicou e interpretou os poetas rebeldes que amava: Musset, Nerval («Le Rock de Nerval»), Baudelaire («Le Serpent Qui Danse»). Cantando o prazer e a dor, o êxtase efémero e a mágoa visceral, parece às vezes uma combinação de Bob Dylan com Tom Waits e Leonard Cohen.

E, finalmente, é também, como acusam as suas nêmesis crispadas, o corruptor da juventude. Mas convém lembrar que o próprio Sócrates suportou a mesma acusação - e não fugiu (nem pagou o galo a Asclépio). Num daqueles dias em que uma pessoa se arrepende de sair de casa, Gainsbourg gemeu: «Fui bem sucedido em tudo - exceto na minha vida.» Vinte anos depois, a posteridade discorda dele.

 

(Texto publicado no Expresso, revista Única)

publicado por otransatlantico às 17:15
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Quarta-feira, 14 de Julho de 2010

RESORT 1 ESTRELA (NO PEITO)

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Roubaram a inscrição de Auschwitz, “O Trabalho Liberta”, o maior humor negro de sempre. Sei quem NÃO foi o ladrão: o presidente do Irão, para quem o Holocausto nunca existiu (é uma pena, mas ele corrigirá a incúria riscando Israel do mapa, com uma borracha, com cuspo ou empoleirado numa bomba, como o doutor Strangelove).

Tinha uns dias livres-pensadores e pensei: visito o Danúbio Azul ou ouço Mozart em Salzburg (o único lugar do mundo em que Mozart é kitsch). Visitei Auschwitz. Morbidez? Niilismo? Necrofilia? Não. Eis a sua lição: o horror que podemos infligir aos outros nunca terá limites. O que me dá calafrios, na verdade, é – com tal currículo - o nosso próximo horror. Parti de Cracóvia. Os Polacos não são nenhuns santos nessa história. Lech Walesa, a perder a Presidência, chamou ao rival “judeu”, como uma pronúncia excrementícia. Depois tergiversou com um sorriso amarelo: “Quem me dera ser judeu, pois teria mais dinheiro!” E pensar que fui demitido por um jornal de esquerda por defender o Solidarność, na época “evidentemente” um lacaio do imperialismo….

Há um autocarro chique mas não há placas a dizer Auschwitz. Transpomos um prédio com um snack-bar (lanchonete), um quiosque de fotos e uma bilheteira. Aí marcavam os prisioneiros com os números ignóbeis e indeléveis, rapavam-lhes o cabelo e a humanidade, e os oficiais escolhiam as escravas sexuais judias. Interroguei-me por que razão há um pavilhão destinado às vítimas de cada nacionalidade – mas os judeus não aparecem mencionados em lado nenhum. Pergunto a um guarda, com ar afável. Ele aponta o pavilhão 37, trancado com uma corrente. Lá dentro apodrece o espólio torpe dos judeus: os cabelos, as pernas de pau dos veteranos que lutaram  e sucumbiram pela Polónia na I Guerra Mundial, os sapatos desirmanados das crianças (que nunca ficaram apertados), os poucos dentes de ouro dos poucos que podiam pagar dentes auríferos (não, não eram piratas do Caribe).

O autocarro segue, mas não pára em Auschwitz III. Lá, foram escravos, entre outros, Primo Levi e Elie Wiesel. Saio e vou a pé. Chega-se a um portão novo, com arame farpado e guardas a sério com metralhadoras, hospitaleiros como Cérberos. O campo estava a bombear fuligem para o céu! Nunca foi fechado. I.G. Farben, a fábrica de produtos químicos que controlava o “trabalho” em Auschwitz, permaneceu a operar, alegando que tinha de pagar indenizações aos antigos escravos. OK, em termos de humor negro, empatou com a placa da entrada. Em 2004, prestes a ser obrigada a fazê-lo, abriu falência – mas não sem antes tirar da cartola a Agfa, a BASF, a Bayer e a Hoechst.

Vou-me embora com as unhas quase a cortarem as palmas  lívidas das mãos. Pergunto-me: seria eu capaz de limpar as câmaras de gás para me deixarem viver mais um mês? De encher os fornos?

 

(CRONICA PUBLICADA NA REVISTA DE DOMINGO DO CORREIO DA MANHÃ)

publicado por otransatlantico às 18:40
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Sábado, 10 de Julho de 2010

JACQUES, LE FATALISTE

A Bélgica está à beira de uma secessão. Como sabem, tem duas populações, os Valões e os Flamengos, com as suas próprias línguas - e cada vez mais hostis. Estive em Bruxelas há 10 dias e a vitória eleitoral da Nova Aliança Flamenga radicalizou o antagonismo entre a Flandres (norte) e a Valônia (sul). A própria capital é um atol francófono em Flandres. Para terem uma ideia de onde já chegou o extremismo, 99% das livrarias de Bruxelas só têm livros em flamengo (ou em inglês) - em francês, bulhufas (nicles)! E os cardápios (ementas) dos restaurantes vêm em flamengo (dialeto do holandês). É um exemplo arrepiante da crise de identidade - antropológica e filosófica -  de toda a União Européia. Acudiu-me à memória o espírito que era uma síntese transcendente da encrenca belga e um admirável artista e ser humano: Jacques Brel (morto há 32 anos).

Brel era um caleidoscópio militante - e coerente. Filho de pai flamengo, era francófono, mas satirizava tanto a sociedade burguesa de Bruxelas (em "Les Bourgeois") como o chauvinismo novo-rico dos valões ("Les Flamandes"). Amava a Bélgica, a precária harmonia universalista, como explica à filha no vídeo 1. Com saco cheio do maniqueísmo recíproco, marchou para Paris, onde foi descoberto por Jacques Canetti (irmão de Elias Canetti, Nobel de literatura). Canta com Georges Brassens e aí não pára mais. Chega a ultrapassar 365 shows em um ano (em 1974, sete espetáculos em uma noite). Em 77, estava um bagaço: grava o último disco ("Brel"). Apesar de recusar toda a publicidade, o mais de 1 milhão de álbuns estavam reservados antes da edição e mais 700 mil foram comprados no primeiro dia de vendas. Morreu pouco depois, deixando, entre um colar de pérolas musicais, a súplica - sublime/abjeta - do amor como pedinte rastejante que renuncia a qualquer amor-próprio: "Ne me quitte pas" (vídeo 2, versão Maysa). Hoje, os valões juram que ele era valão, e os flamengos que era flamengo (até agora ninguém disse que era Fluminense). Recorda-me a frase de Einstein: "Se a minha Teoria da Relatividade estiver certa, a Alemanha dirá que sou alemão e a França me declarará 'cidadão do Mundo'. Mas, se estiver incorreta, a França dirá que sou alemão, e os alemães que sou judeu".

publicado por otransatlantico às 15:57
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HITLER, MEU AMORZINHO

 

 

 

 

 

Se, como reza o equitativo provérbio popular, «atrás de todo grande homem há uma grande mulher», atrás de um genocida monstruoso como Hitler há quem? Uma sogra daquelas, que quando dá palmadinhas nas costas é para descobrir o melhor lugar onde enterrar o punhal? Nem por isso: afinal, como veremos, o Fuhrer casou-se literalmente no túmulo. Uma coisa ninguém lho nega: foi, sem dúvida, um matrimónio original - ele e a respectiva esposa enviuvaram poucos minutos depois da boda…

Esta semana as livrarias começam a receber um livro cujo título fala por si próprio: «As Mulheres de Hitler», de François Delpla. Não se trata de uma obra sensacionalista – na verdade, o autor assinou uma das biografias canónicas sobre o líder nazi, «Hitler», publicada em1999 pela prestigiosa editora Grasset. Muito judiciosamente (e seguindo a dica da judia Hanna Arendt, a quem não faltavam miolos, exceto na hora de ir para a cama com Heidegger), Delpla finta o clássico alçapão de quem disseca o protagonista do III Reich: demonizá-lo como a sobrenatural quintessência do mal, uma aberração da natureza, singular e irrepetível. Pelo contrário, Hitler «possuía algumas características que todos conhecemos bem demais».  Não se trata, claro, de branquear a besta (e muito menos de negar o Holocausto, como fazem um punhado de energúmenos). Trata-se, isto sim, «de integrá-lo na espécie de que faz parte, e cujas potenciais trevas adensa». Convém assinalar, só de passagem, que o próprio Estaline – aliado de Hitler até que este invadiu a Rússia, com quem tinha dividido irmãmente a Polónia e os Estados bálticos –, matou mais Ucranianos do que Hitler matou Judeus (ver «Gulag, Uma História», de Anne Applebaum, prêmio Pulitzer 2004), e semeou muitos mais campos de concentração. Para não falar em Mao, Pol Pot, e outros monstrengos sortidos.

A tentação de estereotipar Hitler como um avatar de Belzebu, numa metafísica maniqueísta, seduziu o escritor americano Norman Mailer, que, aos 80 anos, descreveu (no seu último romance, «The Castle In The Forest») o líder nazista como um sócio de Satanás (apresentado como «o Maestro»). Ora, claro que o antigo cabo austríaco e pintor canhestro tinha as suas extravagâncias: aquela maneira de discursar, por exemplo, que lembrava um espasmódico polícia de trânsito infestado de pulgas. Mas, mesmo aí, é bom realçar que ele exprimia-se em alemão. E, como observou alguém, «o alemão é uma língua que foi desenvolvida com o único objectivo de permitir a quem a fala cuspir nos outros, sob o pretexto de conversar educadamente».

Bem, como aconselhou um certo judeu vienense viciado em charutos (que Hitler enxotou da Áustria), espreitar a sexualidade das pessoas ajuda a compreendê-las um bocadinho melhor. Também nesse campo, Hitler já foi rotulado de tudo: sedutor, impotente, bicha louca, sadomasoquista, incestuoso – até de escatofilia. O próprio Norman Mailer explica a perversidade da personagem como uma psicopatologia: o pequeno Adolf era o fruto de um casamento incestuoso. Muito jovem, o pai de Hitler, Alois, manteve uma relação sexual com uma meia-irmã, da qual nasceu Klara, ao mesmo tempo filha e sobrinha de Alois. Apesar da diferença de idade, Klara acaba por se tornar a terceira mulher de Alois, e mãe de Hitler. O problema, para a tese de Mailer, é que ascendência do Fuhrer tem pontos obscuros: não se conhece a identidade do avô paterno, e, portanto, tudo não passa de suposição. Ou melhor, de vulgata freudiana colada com cuspo.

Questão recorrente é ainda a da homossexualidade de Hitler, postulada no livro do historiador alemão Lothar Machtan, «A Face Oculta de Hitler». Todavia, todas ligações do ditador, devidamente provadas, foram com mulheres. E há, por fim, a mirabolante versão de que o líder nazi sofria de monorquidia – isto é, tinha apenas um testículo. De fato, o relatório da autópsia do corpo de Hitler, encontrado pelo Exército Vermelho a 2 de Maio de 1945 (naquela época Estaline negou sempre o achado), sustenta que os restos mortais continham só um testículo. Numerosas biografias assumiram, portanto, que o ditador era, por assim dizer, «mono» desde a nascença, negligenciando a explicação mais lógica: o desaparecimento circunstancial do órgão durante a cremação do cadáver.

A propósito de cadáveres, depois de1945 circulou o mito da sobrevivência da Hitler, que terá simulado o suicídio e escapado do bunker de Berlim para um esconderijo (provavelmente, o mesmo de Elvis). E, claro, com a mãozinha de uma mulher, a aviadora Hanna Reitsche, apaixonada pelo Fuhrer e nazista «uber alles». Segundo essa lenda, tal dama aterrou ao pé do Bunker e resgatou o amado sob de uma chuva de obuses soviéticos, no melhor estilo Barão Vermelho. Churchill, em Londres, soltou uma gargalhada apoplética ao ouvir o disparate – mas, pelo sim pelo não, enviou ao local o historiador Trevor-Ropert, que concluiu inequivocamente pelo suicídio.

Que Hitler idolatrava a mãe e levava fenomenais surras do pai (infelizmente, como se viu, não as suficientes), não se discute. Quando Klara estava a morrer de um tumor maligno, o filho não teve coragem de lhe contar que falhara no exame para a Escola de Belas Artes de Viena. Pelo contrário, mentiu-lhe descaradamente, embora não fosse capaz de desenhar nem uma seta. A propósito de escolas, é intrigante recordar que Hitler foi condiscípulo do futuro filósofo Ludwig Wittgenstein, ainda na sua cidade natal, Linz. Pena que Adolf não tenha seguido uma das supremas proposições de Wittgenstein: «Quando não souber o que dizer, o melhor é calar-se». Como é óbvio, Hitler fez precisamente o contrário – e pelos cotovelos. Falava horas a fio e não dizia coisa com coisa.

Tudo indica que a iniciação sexual do líder nazi foi com uma prostituta. Mas a primeira mulher importante na vida dele, ainda numa fase inicial do Nacional-Socialismo, foi Winifred Wagner, casada com o filho do grande compositor Richard Wagner.  A obra de Wagner tem sido constantemente associada ao Nazismo. Mas, em primeiro lugar, trata-se de um anacronismo. Em segundo, se é certo que o músico não era flor que se cheire (como pessoa, era um cacto), o seu anti-semitismo nunca o impediu de colaborar com judeus, e de ter como chefe de orquestra um homem elucidativamente chamado Hermann Levi. Winifred era de outra praia: tão nazi como uma suástica. Depois do fiasco do putsch de 1927, em Munique, Winifred visitou Hitler na prisão, com um volumoso embrulho com cobertores, roupas e livros. Chegou a viajar aos EUA, só para convencer Henry Ford a interessar-se pela ideologia nazista – e conseguiu-o plenamente. Outra da mesma estirpe foi Elisabeth Nietzsche, irmã do filósofo Nietzsche. Reacionária e anti-semita, quando o pensador perdeu o último parafuso e foi internado num sanatório (morreu em 1900, mas estava civilmente incapacitado desde 1889), Elizabeth responsabilizou-se pela edição das obras dele, censurando-as, distorcendo-as e por vezes reescrevendo-as, a ponto de fazer o pobre lunático lembrar um boneco cujo ventríloquo fosse Joseph Goebbels.

Como em certos aspectos os homens são todos iguais, Hitler gostava delas novas. A estonteante Maria Reiter («Mitzi») tinha apenas dezasseis anos quando ele a comeu. Mas foi sol de pouca dura: os rumores ameaçavam prejudicar a carreira política de Adolf (afinal, ela era menor). Resultado: um dos esbirros de Hitler obrigou a rapariga a rubricar um ato notarial segundo o qual não consumaram nenhuma relação sexual. Em seguida, o futuro Fuhrer arrastou a asa por uma sobrinha em primeiro grau, Angelika, mais conhecida por Geli. Quando esta andava pelos quinze anos, iam com frequência a um lago perto de Munique, onde as jovens se banhavam nuas. O tio divertia-se a fazer ricochetear pedras na água (aposto o pescoço como nem no lago acertava). Hitler arranjou um marido para Geli, um certo Maurice, mas continuou a rondá-la como um tubarão rodeia um náufrago numa tábua. Em 1929, passou a viver sozinha com o tio, enquanto o tal Maurice sumia do mapa. Em 1931, Geli matou-se com uma bala no peito, usando um revólver de Hitler. Este não se dignou a cancelar o comício marcado para o dia seguinte, em que discursou com o histrionismo destrambelhado do costume.

De acordo com «As Mulheres de Hitler», Eva Braun é, neste conto «fantástico e cruel», a Cinderela que se apaixona pelo príncipe. Um Príncipe das Trevas, convenhamos. Depois de tal paixão, alguém ainda poderá professar a opinião de que «gosto não se discute»? A seguir às filmagens de «Quanto Mais Quente Melhor», Tony Curtis resmungou que «beijar Marilyn Monroe era como beijar Hitler». Duvido. E duvido ainda mais que beijar Hitler fosse como beijar Marilyn Monroe. Em todo o caso, Eva ia nos 17 anos quando fez o Fuhrer lamber os beiços – e em pouco tempo assumiu a vaga deixada por Geli. E mimetizou a finada sobrinha quase demasiado bem: na noite de 1 de Dezembro de 1932, Eva disparou uma bala sobre o próprio pescoço, depois de escrever ao amante uma carta cujo teor permanece desconhecido. O ferimento foi ligeiro, mas, três anos depois, houve outra tentativa: emborcou 20 comprimidos de Phanadorm, um sonífero – foi salva casualmente por uma amiga. Aos poucos, o estatuto de Eva junto de Hitler prosperou. Já em 1938, o ditador recebia-a com frequência no Berghof, o seu ninho de águia (ou de abutre), onde ela dispunha de um quarto, separado do dele apenas por uma casa de banho (banheiro). Ninguém sabe quão engarrafado era o trânsito naquele lavabo. Depois da guerra, o médico pessoal de Hitler revelou que Eva lhe pedira comprimidos para estimular o desejo masculino. Razões para ciúmes de Eva, havia muitas. A principal chamava-se Leni Riefenstahl.

De todas as mulheres de Hitler, Leni é de longe aquela sobre a qual há mais documentação. Ajudou o fato de  morrer aos 101 anos, em 2003. Em 1987, a própria cineasta publicou umas copiosas (e fajutas) Memórias, e em 1993 estreou-se um filme de três horas sobre a sua obra, «O Poder das Imagens», de Ray Muller. E acaba de sair, nos EUA, «The Life and Work of Leni Reifenstahl», de Steven Bach, que arruma a questão. Dando o nome aos bois (ou melhor, à mulher do boi), Riefenstahl era aquilo a que, outrora, costumava chamar-se (decerto injustamente) uma cortesã. Enfim, e os mais sensíveis que fechem os olhos AGORA! – uma grandessíssima vaca. Sexualmente insaciável, preferia os esportistas vistosos. Mas abria assíduas exceções para qualquer homem que pudesse ajudar a sua carreira. E, em meados dos anos 30, ninguém melhor do que o Fuhrer. Quando acabou de ler o «Mein Kampft», ela ronronou para o amigo no outro lado do lenço: «Este é o tipo!»

Uma vez, na praia, Hitler abraçou a convidativa Leni, que não se fez de rogada. O líder nazi, porém, elevou as mãos ao céu e bradou: «Não tenho o direito de amar uma mulher, enquanto não completar a minha obra». Riefenstahl achou ótimo: teria a fama e o proveito, sem a canseira. Foi convidada para realizar, em Nuremberga, o documentário sobre o primeiro congresso do Partido Nacional-Socialista depois da chegada ao poder, em 1933. O filme, sugestivamente intitulado «O Triunfo da Vontade», obteve o primeiro prémio no Festival de Veneza e a medalha de ouro na Exposição Universal de Paris. Em 1936, ela rodou «Olímpia», sobre os Jogos Olímpicos de Berlim. Com tais obras, modelou quase toda a iconografia e o simbolismo visuais que ainda hoje detemos do nazismo – ou seja, uma estetização romântica e pomposa dos valores fascistas. É significativo que mesmo Susan Sontag, uma inimiga ferrenha de Leni, tenha considerado aquelas duas fitas «os melhores documentários jamais realizados». Para começo de conversa, não eram documentários (como Bach demonstra conclusivamente), na medida em que filmavam uma «realidade» encenada e postiça. Os nazis forneceram à cineasta milhares de extras, para que ela ensaiasse, exaustivamente, as suas geometrias humanas dos corpos arianos. Ou seja, cenas tão espontâneas como as coreografias de Busby Berkeley nos musicais da Metro.

Por fim, e no fim, Eva Braun reconquista a ribalta. Em Outubro de 1944, esta mulher ainda jovem (32 anos), redige o seu testamento. Em 7 de Março de 1945, fecha-se no bunker de Berlim, junto com Hitler. No dia 20 de Abril, há naquela cripta uma festa lúgubre: o quinquagésimo sexto aniversário do Fuhrer. Restava apenas uma via aberta, para sudoeste – mas o líder nazi recusou-a, autorizando os que quisessem partir (o primeiro a sair com o rabo entre as pernas foi Goering). A tímida Eva declarou: «Sabes que fico contigo, não deixo que me afastem!». Então, pela primeira vez, beijou-o na boca em público. No dia 28, Hitler desposou a Fraulein, treze anos depois do primeiro encontro. A noiva assinou «Eva Hitler» na certidão, e cortou o nome de solteira. No dia 30, o Fuhrer apertou a mão de todos os presentes, e o casal se retirou para os seus aposentos. Lá, Eva emborcou uma ampola de cianeto e o marido deu um tiro em cheio nos miolos (foi preciso pontaria). Mais chocante foi o gesto do casal Goebbels: também no bunker, não apenas suicidaram-se como assassinaram os seus seis filhos pequenos.

Hitler afirmou frequentemente que a multidão é uma mulher, e que as massas adoram ser dominadas como as esposas. Para ele, a sua verdadeira cônjuge era a própria Alemanha, uma nação que idealizava como uma donzela casta e pura, protetora e tranquilizadora. Pensando bem, o pior de tudo não foi essa tara funesta. Foi que a Alemanha correspondeu-lhe.

publicado por otransatlantico às 11:57
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Terça-feira, 6 de Julho de 2010

O ETERNO RETORNO DO ETERNO FEMININO

 

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Com mais ou menos floreados, os cosméticos sempre se arvoraram em Ponce de León – o espanhol do século XVI que teria descoberto a mítica fonte da juventude. Anos após ano, cremes e poções prometeram às mulheres beleza, viço, sensualidade e, por implicação, amor. Independentemente dos méritos dos produtos, do ponto de vista comercial a coisa resultou (com trocadilho) …lindamente. Afinal, a esperança é mais difícil de deitar fora do que um bumerangue velho.

Porém, o marketing da Dove reciclou o pregão. Criou a «Campanha pela Beleza Real». Segundo a empresa, trata-se «de uma iniciativa global, ainda no início, para catalisar e a ampliar a discussão e a definição da beleza». Ou seja: a Dove começou a assobiar a ideia (música para os ouvidos de inúmeras mulheres) de que a beleza é uma quimera fabrica pela midia – e tenta aposentar o padrão, delineando modelos plurais de beleza.

Não, não se trata de realçar a formosura interior – como disse o outro, «beleza interior é lingerie». A partir de agora, somos todos belos. Já há meses, a Dove lançara um creme com cartazes de «mulheres autênticas» – atraentes, mas de vários tamanhos (de Liliput a Brobdingnac). E anunciara produtos para os cabelos com centenas de mulheres de perucas louras idênticas (descritas desdenhosamente como «o género que aparece nas revistas»), que arrancavam as jubas artificiais e celebravam o seu cabelo genuíno (meticulosamente penteado e milimetricamente tingido). A revista «Advertising Age» (a bíblia do setor) proclamou que a campanha minava «décadas de publicidade, explicando às mulheres que estas são lindas como são». Mas a Dove aprofundou o safanão no paradigma, com um vídeo on-line de 75 segundos, («Evolution»), que introduz uma mulher aparentemente comum. Em 20 segundos, maquiadores e cabeleireiros fazem por ela o que a fada madrinha fez pela Cinderela: floresce uma beldade de olhos de aurora boreal, cabelos em cascata cristalina, feições esculpidas em mármore e pele de alperce. Depois entram em cena o mouse do computador e o abracadabra digital. Por fim, a Vénus nascida daquela concha postiça povoa outdoors com o carisma mesmerizante da Gioconda. A legenda: «Não admira que a nossa noção da beleza seja distorcida». Até ontem, o vídeo atraíra 10 milhões de visitantes nos YouTube (e no www.campaignforrealbeauty.com).

O conceito de beleza é assim tão fixo – ou, ao contrário, tão camaleônico? Já o grego Hesíodo gemia: «Quem é belo é querido, quem não é belo não é querido». O que desencadeou a Guerra de Tróia? Uma espécie de concurso de Miss Universo, vencido por Helena (claro que houve falcatrua). Outro ponto sugestivo: mesmo com os metrossexuais, a cosmética continua um santuário do segundo sexo – e repleto de alçapões. Como suspirou Agatha Christie: «A vida é dura. Os homens não gostarão de nós se não formos belas – e as mulheres não gostarão se o formos».

A Dove radicalizou a campanha com um anúncio em curso na TV portuguesa (e nos cartazes de rua), que mostra cinquentonas nuas em pelo. O slogan é veemente: «Dove is pró-age, not anti-age». Uma revolução copernicana? Até agora, envelhecer era como ser-se punido cada vez mais por um crime que não se cometeu – e o sonho secreto dos adultos correspondia a uma espécie de adolescência vitalícia. Um anseio aliás recente, como indica uma novela de Ian McEwan, ambientado em 1962: «Aquela ainda era a época – prestes a terminar – em que ser jovem era um estorvo social, uma marca de irrelevância, uma situação ligeiramente embaraçosa para a qual o casamento era o início de uma cura».

Ora, envelhecer não é assim tão mau, quando se pensa na alternativa... (e, quando somos caquéticos e encarquilhados, ninguém nos vem chatear com seguros de vida). E estamos a envelhecer mais. Até 2050, a esperança da vida das portuguesas (hoje de 79,9 anos) saltará para 84,7 anos. (A dos homens, hoje nos 72,9 anos, avançará para os 79.) No passado, a longevidade aumentou devido a progressos básicos, como o acesso universal a vacinas ou à água potável. Agora, será alargada graças a profilaxia através do ADN, ou cirurgias dantes tecnicamente impossíveis. O «papy boom», o choque demográfico que o envelhecimento da população provocará no futuro imediato (contraponto ao baby boom pós-II Guerra), terá um impacto não equacionado na economia, afetando os sistemas de aposentadoria. Comemorar o centésimo aniversário, atualmente privilégio de 0,01 por cento da população lusa, será uma façanha bem mais comum em 2050 (credo, imaginem quantos Manoéis de Oliveira farão filmes chatérrimos aos cento e muitos!). De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o número de centenários no planeta rondará os 2,2 milhões, 15 vezes mais do que hoje. Bom, quando ouço pessoas a discutir o controlo da natalidade, lembro-me sempre de que fui o quinto. Contudo, convém não esquecer de que a ordem divina ‘Crescei e Multiplicai-vos» foi dada quando a população mundial consistia em duas pessoas.

A Dove gera celeuma. Uma jornalista, Alex Kuczynski, publicou um livro-réplica: «Beauty Junkies». Alex defende as cirurgias, o Botox, as lipoaspirações. E ruge que as plásticas são um novo feminismo e um novo acivismo político. A argumentista Nora Ephron (de «Sleepless In Seattle» e «Um Amor Inevitável») contra-atacou com uma sátira: «I Feel Bad About My Neck» (top-ten do «New York Times»), onde, todavia, admite que as mulheres «precisam» de pintar os cabelos.

Haja saúde? Se há poucas gerações o flagelo mais temido era a fome, o maior fantasma dos países ricos é agora a obesidade. As top-models, magras como hologramas, estão a sendo intimadas a se empanturrarem ao menos com uma azeitona por dia – e só se recusam aquelas cujo cérebro é do tamanho de uma ervilha. Para a esteticista Lurdes Jesus, as dietas da moda, que baniam clãs inteiros de alimentos como serial-killers, perderam credibilidade, Hoje, os especialistas aconselham a não descartar carboidratos, gorduras e proteínas. Na hora H, o próprio ovo frito foi salvo da cadeira elétrica.

Em «Survival of the Prettiest», Nancy Etcoff parte a loiça das ilusões: a beleza realmente existe e, pior ainda, a desnaturada Mãe Natureza a distribui de forma desigual. Até os bebês, quando lhes mostram fotos de desconhecidos, fixam as caras que os adultos consideram mais belas. A beleza não é uma mera ficção social, e nem toda a moça é bonita da maneira que é. Como o resto da loteria genética, a beleza é injusta e fortuita. Toda a gente fica aquém da perfeição – mas enquanto alguns são limítrofes, outros jazem nos antípodas. Como grunhiu Freud, «anatomia é destino». Os parâmetros piraram? Umberto Eco, na «História da Beleza», diz que no século XXI reinará o ecumenismo: «Trata-se de ensinar a interpretar o mundo com olhos diferentes, a gozar o regresso a modelos arcaicos ou exóticos». Talvez, mas é provável que continuem a vingar certas regras. Como o paralelo entre o whisky e os seios de uma mulher: um é pouco, três é de mais. Se ficará mais difícil definir o bom gosto? Depende. Como sempre, foleiro é perguntar o que é chique. E chique é não responder. Afinal, a moda é aquilo que seguimos quando não sabemos quem somos. E, como confessou Coco Chanel, «a moda é feita para passar de moda.»

Numa conferência sobre manipulações biológicas, ouvi uma filósofa jurar a pés juntos que jamais faria uma plástica nem pintaria o cabelo. Mas ela admitiu que pagaria qualquer preço para ter mais 15 pontos de QI. Bem, como suponho que esteve implícito neste texto, parece que a verdadeira confiança não depende da beleza, mas exige autoconhecimento – a mais difícil forma de conhecimento…

 

(Artigo publicado na "Única", revista do semanário "Expresso")

publicado por otransatlantico às 19:06
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Segunda-feira, 28 de Junho de 2010

ENTREVISTA: ALI SMITH

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Aos 44 anos, a escocesa Ali Smith é a nova sensação da literatura anglo-saxónica. Depois de dois volumes de contos com títulos provocantes («Other Stories and Other Stories» e «The Whole Story and Other Stories») e um primeiro romance admirável («Hotel  World», também editado em Portugal pela Bico de Pena), «A Acidental» foi saudado como uma obra-prima. O livro açambarcou prémios importantes dos dois lados do Atlântico (como os renhidos e prestigiados Whitbread e Orange), e não ganhou o Booker Prize por um triz .

 

- PAULO NOGUEIRA: Considera que, apesar das idiossincrasias de cada escritor, existe uma ficção escocesa demarcada da inglesa? Por exemplo, Alasdair Gray, Neil Munro, Irvine Walsh e Ali Smith – prosadores tão diferentes entre si – têm algo em comum?

 

ALI SMITH: Sem dúvida. Sou afortunada, enquanto escritora, por beneficiar de uma literatura cheia de vitalidade, e de desfrutá-la ao longo de toda a minha vida, através do século em que nasci. Trata-se de uma literatura que sabe que as vozes muitas vezes provêm das orlas, de qualquer nicho, e podem assumir qualquer forma. E não há nada de mais importante para um escritor, do que saber disso. É também uma literatura produzida pela realidade – pelas circunstâncias da história – e portanto pode ser (na verdade, é) plurívoca.

 

- PN: Foi difícil a transição do conto para o romance? Trata-se, afinal, apenas de uma questão de escala? Por que os editores de hoje não gostam de livros de contos? O tamanho importa?

 

A.S.: (Risos) É somente uma outra forma, com as suas próprias dificuldades. Romances são difíceis porque são longos, contos são difíceis porque são curtos. Mas ambos dependem para funcionar de uma estrutura muito precisa, cuja essência é a própria linguagem. Contos são muito flexíveis, conseguem narrar o que bem entendem, ao passo que na dimensão do romance isso parece menos viável. Mas não é pecado transpor fronteiras, combinar géneros, permitir que os romances adotem formas elásticas, como os melhores contos. É um disparate os editores julgarem que os leitores não apreciam contos, só porque não descobriram como vendê-los. Isso é uma gestão mentirosa.

 

PN: Em A Acidental, há uma conjugação de fantasia e realismo, embora diferente do realismo fantástico. A protagonista pode ou não ser real, mas os interlocutores dela são tridimensionais até à raiz dos cabelos…

 

A.S: A intenção foi essa… Em muitos sentidos, é um romance sobre como as pessoas reduzem os outros a bidimensionalidade. Portanto, são surpreendidas quando aqueles se revelam tridimensionais, contra todas as expectativas.

 

PN: A personagem Michael ensina literatura, e Eve escreve ficção… Como disse T.S. Eliot, cada vez mais livros são sobre livros?

 

A.S.: Livros geram livros. São os livros, não os escritores, que produzem os livros mais apaixonantes. A Acidental realmente se interroga sobre aquilo que um livro faz, o que as histórias fazem, e como repercutem no mundo real. Todos os meus livros se debruçam sobre esta questão.

 

PN: A sua obra reflete uma preocupação intensa com as vozes narrativas. Em A Acidental manipula múltiplos pontos de vistas e correntes de consciência. É uma escritora muito disciplinada na planificação do romance? Reescreve muito, até considerar o livro concluído?

 

A.S.: Uma voz engendra a si própria através das coisas que diz, e a minha responsabilidade – como ouvinte – é atentar para o que ela articula. Tal operação envolve, digamos, 50 por cento de intuição e 50 por cento de carpintaria. O que, aliás, corresponde ao processo incessante de verificar o que esta voz pretende e aonde deseja ir, ao mesmo tempo em que exprimimos a sua forma literária. Não há nada senão vozes numa história. Não há histórias sem vozes. E, claro, não há vozes sem história.

 

 

PN: Em A Acidental reina uma ambiguidade intrigante. A protagonista parece má, mas afinal faz o bem, operando uma espécie de catarse …

 

A.S:: É verdade. Creio que se trata de um livro otimista – para a minha própria perplexidade. De certa forma, o que ele diz é o seguinte: repara que outras coisas, diferentes interpretações, novas estradas podem ser não apenas possíveis mas proveitosas.

 

PN: Durante algum tempo, deu aulas de escrita criativa. O que pensa desta frase: «Escrever não se ensina, apenas se aprende»?

 

A.S: A estrutura da escrita (no sentido de «editing») pode ser ensinada. A confiança pode ser transmitida a um autor. A disciplina pode ser aconselhada. Sugestões podem ser dadas. Eu não remodelaria um livro, mas apresentaria os meus conselhos.

 

PN: Os prémios são úteis para um escritor? Ou ele é um monge, para quem fama e dinheiro não interessam?

 

A.S: Os prémios dão mais segurança ao autor, no mundo selvagem da edição. E ajudam a divulgar uma obra. Por exemplo, a lista de finalistas do último Orange conferiu notoriedade a um romance excelente – Everyman Rules for Scientific Living, da sul-africana Carrie Tiffany -, que de outra forma talvez tivesse passado em brancas nuvens. Mas os livros não são os prémios – e estes podem até resultar em uma distração do verdadeiro trabalho da escrita, situado entre a intimidade e a transgressão. Não me importava nada de ser um monge, na medida em que não conseguimos escrever com uma banda a tocar à nossa porta. Por falar nisso, estou prestes a abraçar outra vez a reclusão. Conhece alguma caverna secreta em Portugal em que eu possa viver? Ou algum convento que me aceite?

 

(Entrevista publicada no semanário "Expresso")

publicado por otransatlantico às 17:21
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Domingo, 27 de Junho de 2010

O BARDO DO FARDO E O TROVADOR DA DOR

 

 

 

 

 

 

Quarta-feira imperiosa: Leonard Cohen canta em Lisboa. Há um entrevista dele fresquinha no YouTube (1º vídeo): um ancião alquebrado, mas sábio e estóico. Surpresas para o concerto? “Burro velho não aprende línguas”, diz o cético ditado luso. Cohen dedicou-se à música trintão, já consagrado como autor de excelentes romances e poesia (entrou na memorável antologia “Rosa do Mundo”, da editora Assírio, que começa com Homero). Como poeta, lembra Lorca (2º vídeo). Na minha modesta opinião de sumidade no assunto, o maior lírico pop, incluindo Dylan. Um típico literato judeu de Montreal, como Saul Bellow.

Mas não vendia o suficiente (onde é que já vi isso antes?) e socorreu-se nas canções. Recorda o percurso de Vinicius de Moraes, do Parnaso para a cultura de massas. Um emblema de Cohen é o lirismo amargo e pungente, por vezes depressivo, mas nunca piegas. Outro é o universalismo – talvez por ter vivido na ilha de Hydra, na Grécia, com a sua então mulher Marianne (sim, da obra-prima “Marianne”). E o terceiro, as mulheres propriamente ditas.

No YouTube: “Não é possível prever o amor, pois o coração está sempre a abrir e a fechar-se. Depois de um certo período de tempo, os fracassos serão significativos. A arena do amor é perigosa, mas ninguém vive sem ele. Podemos nos abster por covardia, julgando que será sempre um inferno – mas também nesse caso podemos estar redondamente enganados”.

Os jovens com miolos e alma reverenciam-no – magistral a versão de Madeleine Peyroux de “Dance me To the End of Love”  (3º vídeo).

 


 

 

 

 

 

Em 1991, os R.E.M., Echo & the Bunnymen e Nick Cave, entre outros, gravaram o tributo “I’m Your Fan”.

 

 

 

 

 

 

 

Aos 75 anos, Cohen cita Tenesse Williams: “A vida é uma peça até que bem encenada, exceto pelo terceiro acto”. Sim, morremos no fim. Mas, como ele realça, “o problema não é tanto a morte, mas as suas preliminares”. Mais explicitamente ainda, no seu humor sarcástico: “Agora dói-me tanto nos lugares onde outrora costumava ter tanto prazer…”

 

(CRONICA PUBLICADA NA Revista de Domingo, do Correio da Manhã)

publicado por otransatlantico às 11:42
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Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

A MÚSICA DAS ESFERAS IV

 

 

FUTEBOL E FILOSOFIA

 

 

                        Sempre que professo o meu apreço pelo futebol, há dois tipos de pessoas (com honrosas exceções) que me olham como se eu fosse uma besta nada bestial. O que está implícito é: "Como um ser inteligente e culto pode perder tempo com uma atividade tão reles?"  Quem são estas pessoas tão seletas? As mulheres e os intelectuais. É verdade que, nas ocasiões de Copas do Mundo (Mundiais), o ex-sexo frágil (atual sexo inexpugnável) adere ao futebol com o fervor de um hooligan. Suponho que seja por causa da empatia nacional que o torneio desperta. Aliás, este patriotismo/nacionalismo é um dos aspectos mais perturbantes da modalidade, precisamente porque um dos mais viscerais, ambíguos e irracionais. E se há um item que ínumeros intelectuais receiam - com razão! - é a irracionalidade. Mas não adianta fingir que ela não existe e, até, que exclua ingredientes apetitosos (a emoção é racional? o amor?). Basta repararmos nas letras dos hinos nacionais, com os jogadores marcialmente perfilados no campo, para percebermos onde mora o perigo. O hino da França fala em armas ("Aux armes, citoyens / Formez vos bataillons"). O de Portugal fala em armas ("Às armas, às armas! / Sobre a terra, sobre o mar, / Às armas, às armas! / Pela Pátria lutar / Contra os canhões marchar, marchar!). O da Itália fala em morte ("Siam pronti alla morte / L'Italia chiamò"). O do Brasil, idem.

                       Quanto aos intelectuais, uma vez um deles troçou: "Fiz um transplante de cérebro. Consegui o cérebro de um jornalista desportivo. Assim tenho a certeza de que nunca foi usado". Ora, um sketch impagável do grupo Monty Python apresentava um jogo de futebol entre Alemanha e Grécia, cujos jogadores eram todos filósofos proeminentes. A sempre formidável Alemanha (robôs cruéis, com um estilo mecanizado que no fim triunfa) tinha como capitão o sintético Hegel, e uma tríade atacante de respeito: Nietzsche, Heidegger e Wittgenstein. Já os Gregos, capitaneados por Sócrates, entravam em campo com um indiscutível dream team: Platão na baliza, Aristóteles como central e o matemático Arquimedes no meio do campo.

                       Depois de um tempão de um jogo chato em que nada acontece (como uma partida entre Grécia e Alemanha na vida real), Sócrates marca um golo de cabeça e os Gregos vencem. Arquimedes grita Eureka! Hegel jura para o árbitro (Confúcio) que Sócrates usou a mão, Marx alega que o ateniense fora comprado pela classe dominante e Kant se conforma com aquele imperativo categórico.

                      Bom, acaba de sair no mundo anglo-saxónico o livro "Soccer and Philosophy" (editado por Ted Richards, Open Court, 408 págs, 19,35 euros), uma coletânea de ensaios sobre estas duas, hã, esferas. Convém lembrar que, na Grã-Bretanha, os puristas do futebol chamam à modalidade "football", e não "soccer". Afinal, é o futebol que se joga com os pés, e não o rugby. Adiante.

                      Já o filósofo e romancista franco-argelino (como Zidane....) Albert Camus (que foi guarda-redes da seleção universitária da Argélia), disse um belo dia que "tudo o que sei sobre moralidade aprendi com o futebol". Num dos ensaios mais divertidos - "The Hand of God and Other Soccer... Miracles?" (A Mão de Deus e outro Futebol... Milagres?) -, Kirk McDerrid cita a lista de São Tomás de Aquino dos elementos cruciais que identificam os "milagres autênticos".

                      Robert Northcott discute o conceito de angústia de Kierkegaard aplicado à cobrança de penaltis, ao passo que outro ensaísta invoca as estéticas platônica e aristotélica para dissecar o estilo de jogo de Cristiano Ronaldo, e pergunta: "Será CR9 um Picasso contemporâneo?" Ao que ele próprio responde (não vou traduzir, pois, como disse o outro, poesia é aquilo que se perde na tradução): "Maybe so. But could Picasso bend it like Beckham?"

                      Ao ler ""The Loneliness of the Referee" (A Solidão do Árbitro), um dos melhores ensaios, de Jonathan Crowe, confesso que corei. Afinal, sou daqueles que insultam a genealogia do árbitro remontando até Eva. Se ao menos eles só errassem a nosso favor... Mas não: os sacanas se enganam aleatoriamente! Por outras palavras, o árbitro é a quinta-essência e o arquétipo do bode-expiatório. Eu disse bode? Cabrão!

                    Crowe também assinala que, na "Critica da Razão Dialética", Jean-Paul Sartre (que, na condição de estrábico, dava um goleiro perfeito, neutralizando qualquer balística) irradiou a sua proverbial sabedoria: "Numa partida de futebol, tudo se complica muito pela presença de uma equipe adversária". Com teóricos assim, alguém se espanta que os franceses já estejam em casa? Bom, eles não podem se queixar muito. A casa deles fica em Paris.

publicado por otransatlantico às 10:24
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Segunda-feira, 21 de Junho de 2010

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA DO CEGO

 

 

 

José Saramago

José Saramago

 

 

(Cronica publicada há cerca de 6 meses na "Revista de Domingo", do Correio da Manhã, no lançamento de "Caim")

 

 

Ao contrário da maioria dos meus pares, literariamente prefiro Saramago a Lobo Antunes – mas, politicamente, Saramago. é um bronco (assim é que se arranja dois bons inimigos de uma cajadada só). Ao promover o romance “Caim”, Saramago disse que a Bíblia é um “manual de maus costumes”. Não discuto a fé, pois ela não é provável cientificamente (o que não impede que o decodificador do Genoma Humano, Francis Collins, seja um tolerante cristão). A birra de Saramago. (cujos argumentos estão ao nível dos de “O Código Da Vinci”) é mais velha que Matusalém: o justo que sofre injustificadamente, o sofrimento inocente. Está na própria Bíblia: Jó. Leibniz chamou-lhe teodiceia (justiça divina). Porque diacho havia Deus de consentir o mal no mundo que Ele próprio criara? A resposta de alguns é o livre-arbítrio: Deus não quer crentes/escravos: só há moralidade na liberdade. O chilique de Saramago lembra o ressentimento do qual Nietzsche fala: não suportamos as adversidades, então culpamos algo (no caso, Deus), e sonhamos com um mundo sem dor (dos homens bonzinhos e virtuosos de Rousseau). Tal crítica é, em si, uma forma de covardia diante da dureza da vida. O escritor ignora que não é o “fator Deus” que cria a besta-fera no homem, mas o “factor homem” que gera as atrocidades históricas de que Saramago, muito selectivamente, se queixa. A civilização ocidental foi erigida sobre 3 pilares: a ética cristã (com a sua inédita noção de que a humanidade é uma só e de que todos somos iguais em dignidade), a filosofia grega e a administração e o direito romanos. Saramago renega-os - crê numa outra Escritura Sagrada (o Manifesto Comunista:  a religião é o ópio do povo). Acusa a Deus de não amar as suas criaturas (hã? E “Ama o teu próximo como a ti mesmo?”), – ao contrário dos seráficos Fidel Castro e Kim Il-Jong, possivelmente.Todas as tentativas de fundar um “Paraíso Terrestre” culminaram em inferno (Gulags, etc). O Nobel não entende patavina da natureza humana: quem nunca, jamais, em tempo algum sentiu inveja (a “marca de Caim”)? O cristianismo diz que devemos escolher o bem – não matar o nosso irmão por causa da dor-de-cotovelo. Depois dos anátemas de Saramago contra a Bíblia, fico à espera das críticas dele ao “Corão” (jihad incluída).

(Cronica publicada há cerca de 6 meses na "Revista de Domingo", do Correio da Manhã, no lançamento de "Caim")

 

 

http://aeiou.expresso.pt/imv/0/322/313/1-jose-saramago-74fc.jpg

 

 

O momento mais raso da biografia pública de Saramago foi quando dirigiu o jornal "Diário de Notícias", no período ideologicamente turbulento de 1975. Ao assumir, anunciou: "Quem não está com a Revolução, é melhor não estar neste jornal". Os editoriais apontavam alegremente para o porvir radioso da sovietização de Portugal. Quando cerca de 30 jornalistas assinaram um documento de protesto contra a falta de pluralismo no diário, foram (eufemismo sinistro usado em Portugal para expurgos) "saneados". Anos depois, em entrevista ao jornal brasileiro "Folha de São Paulo", Saramago assumiu a responsabilidade da decisão.

Não é verdade que Saramago iniciou a sua ficção já sexagenário - mas quase. "Levantado do Chão", um romance importante, foi editado quando ele tinha 58. Porém, mesmo em Portugal só se tornou realmente conhecido após "O Memorial do Convento", a meu ver a sua obra suprema, a par de "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Apesar de romancista serôdio, era um ficcionista nato, com um capacidade de efabulação exuberante, devidamente controlada pela técnica rigorosa mas não esquemática. Derrapou quando, sobretudo depois do Nobel, arvorou-se em sábio oracular, reduzindo o dinamismo lúdico dos romances à alegorias (Borges sempre advertiu contra elas, e sempre com razão) virtuosas e edificantes, ainda que cheias de fúria e ranger de dentes, com "mensagens" encripitadas. Como o pomposo "A Caverna", em que conjuga Platão e críticas panfletárias aos shopping-centers. As narrativas tornaram-se cada vez mais opacas, rectilíneas e unívocas, em vez de prismáticas, sinuosas e polifónicas.

Um depoimento pessoal. É sempre melindrosa a questão "o artista" e "a sua arte", o criador e a criação, a pessoa real e a obra fictícia. Para ficar apenas nos casos de grandes escritores, e em exemplos recentes, biografias definitivas atestaram que V.S. Naipul (também Nobel) e John Cheever não eram flor que se cheirasse - na verdade, eram uns cactos humanos. Conheci Saramago quando ele próprio ainda não era  célebre, embora já fosse conhecido no âmbito luso. Tanto não era célebre que fazia a ronda dos jornais, para divulgar os seus livros. Pois bem: eu acabara de chegar a Portugal, quase imberbe, e tentava a minha sorte no meu primeiro jornal português (um semanário já finado). Um belo dia Saramago lá apareceu, informando que a sua editora patrocinaria uma jornada de dois dias, num autocarro (ônibus), para a badalação do livro "Viagem a Portugal" (não ficção). E lá fui eu na excursão, juntamente com mais uns 20 jornalistas culturais de diferentes publicações, ciceroneados pelo autor (na época, Saramago ainda ia no seu primeiro casamento, e a respectiva mulher também seguia a bordo).

Eu era quase um adolescente, patologicamente tímido e ensimesmado. Estava em Portugal há 2 meses, mais ou menos caído de paraquedas, e aqui acabaria por expatriar-me (coisa que até então jamais considerara). Não conhecia vivalma, nunca tinha visto mais gordo nenhum dos meus colegas. Entrincheirei-me no assento mais recôndito do autocarro, inibido até à raiz dos cabelos, ao mesmo tempo a fingir-me de morto e de translúcido. Pois, em determinado momento da viagem, Saramago sentou-se ao meu lado. Fazia parte do protocolo e da boa educação, claro, no seu papel de anfitrião e maior interessado na publicidade. Mas não se levantou mais até chegarmos ao hotel - e, a partir daquele instante, "adoptou-me". Nas andanças a pé pelos lugares descritos no livro, flanqueava-me e explicava-me coisas. Era muito, muito inteligente e (já nem falo em literatura) um erudito em história e antropologia ibéricas (postulou a integração de Portugal e Espanha numa Federação Ibérica). Naquela noite, vi neve pela primeira vez na minha vida. Muitos anos depois, Saramago já nobelizado, transfigurei aquele encontro numa passagem do meu romance O SUICIDA FELIZ.

Saramago morreu feliz. Claro que um Nobel ajuda. Mas, sobretudo, morrer com a mulher amada (o amor, como a literatura, despontaram tardiamente), a espanhola Pilar, a segurar-lhe a mão e a sussurrar-lhe as palavras que não apenas um escritor, mas qualquer um de nós, quer levar consigo quando chegar o ponto final.

 

 

publicado por otransatlantico às 10:09
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Quinta-feira, 17 de Junho de 2010

SEXO E OUTRAS COISAS EMBARAÇOSAS

 

Agora que vêm aí a pílula dos 5 dias seguintes, a pílula masculina e o preservativo feminino (Deus seja louvado por este último! Um Oscar, um Nobel e a presidência vitalícia da ONU para o inventor, já!), bom, talvez já seja altura de conhecermos as respectivas intimidades. Conhecer no sentido de informação, não no sentido bíblico. Por exemplo, depois de algumas namoradas (não as suficientes) e duas mais do que suficientes ex-mulheres (quer dizer, elas continuam a ser mulheres, não fizeram operação para mudar de sexo - apesar da experiência comigo -, apenas não são mais minhas cônjuges e não se fala mais nisso), bom, apesar disso, confesso que não faço a mínima ideia de como se põe um tampão, um penso higiénico, um modess. Claro que sei (aproximadamente) onde ele é aplicado, mas não, digamos, a posição, o lado, a profundidade, etc.

 

Portanto, talvez seja o momento de dar o nome aos bois (e às vacas? Não, parece mal. Às cabras? Piorou! Às ovelhas? Nem pensar: soa à zoofilia. Às mulheres, pronto). Convenhamos: é ridículo uma mulher adulta chamar o orgão viril "pila" ou "pirilau" (em brasileiro, regressamos ao bestiário: pinto). O jargão obsceno pode ser excitante do momento certo, mas não a torto e a direito. O mesmo vale para os varões (ops), chamarem "pipi" à genitália feminina.

 

Portanto, eis mais um teste. Leitoras e leitores, ordenem na sequência anatómica correcta os seguintes itens do períneo feminino, do ventre para as costas. 1) ânus 2) meato urinário (o ponto donde sai o chichi) 3) clitóris 4) canal vaginal. Desembuchem: qual a sequência correcta? Não, o telefonema não é para vocês. Não, não estão a tocar à campanhia.

 

A sequência certa é: 3-2-4-1. Acertou? Pinóquio! Político!

 

Imaginem se eu tivesse perguntado a diferença entre pequenos e grandes lábios, ou entre vulva e vagina. Para os cavalheiros, é tudo chinês (e, em alguns casos traumáticos - descobertos na hora H - é tudo pirata!). Quantos homens sabem que o pénis é um clitóris crescido? Freud não sabia, senão não falava na "inveja do pénis" - mas ao menos admitiu que a mulher é "um continente desconhecido", embora não necessariamente uma floresta virgem. Ou que todos começamos mulheres e, em 49 por cento dos casos, as hormonas nos transformam em homens (no meu caso, com H ciclópico)?

 

É melhor parar por aqui. Foi bom para vocês?

 

publicado por otransatlantico às 11:59
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Sábado, 12 de Junho de 2010

ALI E ALÁ

 

 

 

(Maomé suspira no divã: "Outros profetas têm seguidores com sentido de humor!...")

 

Recordo a observação de Salman Rusdhie, de que o fundamentalismo islâmico é uma forma de totalitarismo – e, como tal, bruto como um rinoceronte. Já o nazi Goering espumava: “Quando ouço falar em cultura, puxo da minha pistola!” Pois bem: eu, quando ouço falar em pistola, puxo da minha cultura. Falemos da beldade com miolos que é Ayaan Hirsi Ali. Nascida na Somália, há 39 anos, o pai dela era um dissidente. Ali foi uma muçulmana integrista, disposta a imolar-se por Alá. Mas repugnou-lhe lhe terem infligido a ‘circuncisão feminina’ (remoção do clítoris, e por vezes dos lábios vaginais), assim como o casamento arranjado com um marmanjo que nunca vira mais gordo. Em vez do noivo, escolheu o exílio na Holanda, onde devorou filósofos (Popper, Espinoza, Hayek) e se tornou uma apóstata. Para Ali, boa parte das encrencas sociais, económicas e políticas do mundo islâmico derivam de uma visão distorcida da sexualidade: o disparate de que a honra da família reside na ‘pureza’ das mulheres, reduzida à virgindade. E pimba: ela virou a mulher mais odiada pelos radicais maometanos. Em 2005, numa rua cosmopolita de Amesterdão, um deles espetou um punhal no coração do cineasta Theo Van Gogh, com um bilhete cravado e destinado a Ali: “És a próxima”.

Tristemente previsível é que proeminentes intelectuais ocidentais, como Timothy Garton Ash ou Ian Buruma, rotulem Ali de “uma fundamentalista do Iluminismo" (aliás, um oxímoro). Quando ela é a primeira a frisar que as suas ideias devem ser julgadas por si próprias, e não pela sua biografia acossada. Que a alternativa é entre o tribalismo e o universalismo (mas não o multiculturalismo, nem o relativismo). Já é mais compreensível que, num livro recente, Buruma pareça quase amuado com a beleza e o charme de Ali - digna de uma princesa núbia, de uma rainha de Sabá. Uma enciclopedista boazona? É muita areia para a camioneta de alguns rapazes. Esquecem-se de que o terrorismo corresponde precisamente ao medo terrível de que, em algum lugar, alguém seja feliz. Uma banda muçulmana de hip-hop (sim, é incrível, mas existem) compôs um rap com o refrão: “Que se foda Hirsi Ali/Puta maldita, mancha merdosa/Parto-te a cara, corto-te ao meio!” Eis a voz patibular do obscurantismo. “Calem-se!”, explicam eles. Já as últimas palavras de Theo Van Gogh para o seu carrasco foram: “Não podemos conversar sobre o assunto?” Não, não podiam. A mente de um fanático é como uma pupila: quando mais luz recebe, mais ela se contrai.

 

Book Cover - Varadarajan Ali

 

 

 

Saiu há pouco o novo livro de Hirsi Ali, NOMAD. Um professor disse-me uma vez: "As mulheres são a metade da população mundial, e as mães a outra metade" (reflictam um bocadinho). Ali fala disso, e da sua mudança para os EUA, depois que a hospitaleira Holanda avisou-a de que não podia mais garantir a sua segurança. Enfim, lavaram as mãos - menos como Pilatos, do que como alguém que sabe que acabou de fazer algo no WC. Ouçam-na neste vídeo (em Holandês e Inglês) - e leiam-na sempre que puderem.

 

 

E AYAAN DANDO UM CHEGA PRÁ LÁ EM HITCHENS (COM O COPO NA MÃO)

 

 

publicado por otransatlantico às 18:28
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Sexta-feira, 11 de Junho de 2010

VIVA LA MUERTE?

                        Roberto Bolaño é um caso bicudo. Chateia que se torne um best seller post mortem (ou quando desenganado) e pela sua vida errática, errada ou certa. Na actual idolatria em redor dele, há muito de modismo e necrofilia. De fantasia romântica, ao mesmo tempo mórbida e delicodoce, que o chileno apátrida decerto renegaria. Quantos realmente chegarão ao fim de 2666? Por outro lado, não haverá snobismo em repudiar, com pele de galinha, a mera popularidade (neste caso, pelo menos, literariamente justa)? Deixar o veredicto à posteridade é sempre uma decisão judiciosa. Mas, pensando bem, o que é que posteridade já fez por nós?

                         Convenhamos: a auréola de "mártir da literatura" é um bocado pirosa. Porém, milhões de vezes Bolaño vender milhões, do que essas celebridades televisivas (célebres por serem famosas) venderem biliões de exemplares de romances que chegam às editoras com 50 páginas e saem com 500. Sim, claro que há excepções – para citar apenas duas: Rodrigo Guedes de Carvalho (que não precisa de ajuda para escrever decentemente) e José Rodrigues dos Santos (nenhum ghost writer escreveria tão mal).

                        A “biografia” de Bolaño é o material de que as lendas literárias são feitas: nasceu em Santiago, filho de um camionista (pugilista nas horas vagas!) com uma professora. Músculos + Miolos. Saiu apenas à mãe: disléxico, vítima pioneira do que então ainda não se chamava bullying, um ET em qualquer parte do Universo. Há até dubiedades nebulosas: uns (incluindo ele próprio, no conto Cartão de Dança) proclamam que estava no Chile quando Pinochet deu o golpe sem misericórdia, que foi preso e sobreviveu por um triz. Amigos dele confidenciaram ao New York Times que, naquela altura, Bolaño laureava a pevide no México, na boa.

                        Morou em El Salvador (pessoalmente, só vendo acredito na existência de El Salvador). Depois, a montanha-russa - ou comboio-fantasma - do costume: lavador de pratos (o que faço todos os dias, sem falar nos talheres), homem do lixo (que produzo diariamente, sem autocrítica), funcionário de um parque de campismo (eu apenas dou barracas), etc..

                        O nascimento do filho tornou-o “responsável” – o que é um bocadinho, digamos, burguês (mas eu sou o pai mais burguês do mundo, só que sem o capital). Cunhou esta frase tocante mas imprevidente: “O meu único país são os meus filhos” (não contes com a vice-versa, meu caro) . Zangou-se com Isabel Allende, o que é louvável, e foi defendido por Ariel Dorfman, o que é menos meritório. Morreu de uma “doença hepática”, depois de tsunamis de álcool e heroína, diagnóstico que tanto Villa-Matas como a viúva refutam. (Quando morrer, quero que os meus amigos e as minhas viúvas jurem a pés juntos que parti todo pujante!)

                        O melhor é lê-lo. Quanto a mim, apraz-me o pedantismo sardónico de 2666. À páginas tantas, dois personagens tagarelam sobre fobias, e nada menos que 31 delas são meticulosamente catalogadas. Outra passagem ocupa-se de erros canhestros cometidos por escritores, e treze deles são apontados, como este, do francês Alphonse Daudet: “O duque apareceu seguido do seu séquito, que ia à frente”.

                        Já o vídeo que reproduzo vale por si próprio.

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publicado por otransatlantico às 12:17
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Quarta-feira, 9 de Junho de 2010

O BELO MALDITO

 
Quando o herói sorveu a sua última dose de heroína, saltou, caiu ou foi atirado de uma janela do segundo andar de um hotel de Amsterdão, no dia13 de Maio de 1988. Tinha 59 anos, mas aparentava o dobro da idade de Manoel de Oliveira. Ao contrário de James Dean, com quem se parecia fisicamente, não viveu depressa nem deixou um corpo bonito. Na verdade, a queda gravitacional foi apenas a concretização de um tombo artístico - musicalmente, ele já estava morto há muito tempo, conservado criogenicamente na sua cripta pela generosidade um tanto necrófila das plateias europeias. OK, na maturidade até o anjo exterminador Rimbaud se tornara um Rambo, traficando armas e escravos e passando todas as temporadas no Inferno. Mas foi chato que Chet acabasse assim (bem antes de se esfacelar na calçada, traficantes californianos já lhe haviam partido os dentes, dificultando o uso do trompete). A polícia recolheu os destroços no passeio mas não houve autópsia - certamente, esta revelaria que o organismo dele tinha degenerado num "maelstrom" (apud Poe). Idem Charlie Parker, ibidem Billie Holiday. Nos bons e velhos tempos, a voz de Chet era afinada e doce como uma harpa - ou, se ele preferisse, pungente e arquejante como um desespero tranquilo. No fim, cantava como se o Hulk o estivesse a estrangular (reparem na sua interpretação de "Every Time We Say Goodbye", de Cole Porter, com o verso que soa a réquiem/epitáfio: "I die a little"). Triste? De mais. Mas sejamos francos: Chet não era da mesma divisão que Bird, Billie Holliday e Coltrane, os trágicos mais sublimes do panteão jazístico. E, apesar das associações à Bossa Nova (confirmadas por João Gilberto), Chet nunca foi cool, vaporoso, etéreo, rarefeito. Pelo contrário, habitava o reduto mais crispado e neurótico do jazz, como Miles Davis. Merece os versos do bardo: "Não conseguiu firmar o nobre pacto/Entre o cosmos sangrento/E a alma pura/Tanta violência/Mas tanta ternura".
publicado por otransatlantico às 12:19
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Terça-feira, 8 de Junho de 2010

REPERCUSSÃO DESTE BLOG!

http://cms.baens-universe.com/upload/Vol2Num1/Scandals.jpg

 

 

Recebi milhares de e-mails com comentários sobre a estreia mundial deste falso modesto blog. Eis os mais mediáticos. “Comi imensas inglesas graças às dicas do seu blog” (Zezé Camarinha). “Também eu” (Mgumba Gungala, do “Canibal Review of Books”). “Este blog é tão bom que vou usá-lo na minha próxima coluna” (Clara Pinto Correia). “Experimentei mas não gostei. A página devia ter um formato mais anatómico” (Cicciolina). “Li cada post umas 50 vezes. Não tinha mesmo nada para fazer” (Mário Soares). “Parece nice. Mas por enquanto só consegui soletrar a primeira linha.” (Joe Berardo). “O seu blog é uma droga. Sensacional!” (Amy Winehouse). “O blog está tão bem escrito que até parece meu” (António Lobo Antunes). “O blog está tão mal escrito que até parece do António Lobo Antunes”. (José Saramago). “Na minha última escalada aos Himalaias, a coisa mais parecida com uma mulher que vi foi o seu blog” (João Garcia). 

publicado por otransatlantico às 12:51
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DEBAIXO DO VULCÃO

 
Como Malcolm Lowry estava careca de saber, há imensas coisas para se fazer debaixo de um vulcão. Sobretudo se ele chamar-se  Eyjafjallajökull
publicado por otransatlantico às 09:58
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Domingo, 6 de Junho de 2010

PUSHKIN, O EMBAIXADOR E EU

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Há 20 anos, entrevistei o embaixador do Brasil em Portugal (já não me lembro a propósito de quê - afinal, já faz muito tempo: há duas décadas eu era pelo menos 30 anos mais novo. Ele recebeu-me com uma cordialidade fleumática, um nadinha alheada, como se tivesse mais o que fazer (duvido). Mal podia imaginar que, anos depois, eu seria um escritor mundialmente famoso em Caxias. Bom, vida que rola, saiu esta semana a edição brasileira de Eugênio Oneguin - que eu saiba, a primeira tradução portuguesa da obra-prima de Pushkin, depositado por muitos no mesmo pedestal da DIVINA COMÉDIA de Dante, do FAUSTO de Goethe e das peças e sonetos de Shakespeare. Ora, agora adivinhem lá quem é o tradutor? Dario de Castro Alves, o mesmo embaixador (hoje ex) que entrevistei no século passado. Já sabia que ele era um literato, e até um especialista em Lisboa, sobre a qual publicou um livro: ERA LISBOA E CHOVIA. Se fosse sobre Londres, bastava intitular-se ERA LONDRES. Se a tradução é boa? Sei lá, não vi. Li Oneguin numa tradução inglesa, comprada num alfarrabista ao pé do Royal Observatory (foto), em Greenwich, juntamente com uma airosa mas veterana edição de bolso de EMINENT VITORIANS. Sei é que a tarefa não é canja: só em inglês há mais de dez versões do Eugénio Oneguin, nenhuma considerada plenamente satisfatória, incluindo a de Vladimir Nabokov, que era russo e um craque no idioma de Shakespeare (por causa da sua tradução de Puhskin, brigou com o proeminente crítico e até então amigo do peito Edmund Wilson, o qual, por sua vez, também tentou a sua sorte com Oneguin). Sim, mundo pequeno. Mas é o que há. Pushkin morreu em 1837, num duelo (os escritores não têm lá muito jeito para duelos - há vários casos em que dispararam, ou espetaram, demasiado tarde). Borges, como sempre, tinha um ideia intrigante: a de que os países tendem a entronizar como os seus supremos vultos literários os autores que menos espelham o carácter nacional. Assim, um Shakespeare passional numa Inglaterra minimalista e protocolar, um Goethe universalista numa Alemanha nacionalista, um Cervantes espirituoso e tolerante na Espanha monástica e austera da Inquisição. E um Camões o quê? E um Machado idem? Ah, Pessoa está bem, a emborcar a penúltima no Martinho, tristinho da silva. Por falar em Machado de Assis e no ex-embaixador Castro Alves, um dos principais poetas românticos brasileiros chamou-se Castro Alves. No primário, tínhamos um gracejo tontinho: "Quem castrou Alves? O machado de Assis!". Sim, é um mundo pequeno (e não dos melhores).

 

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A ÚLTIMA CEIA DO MODERNISMO

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MARILYN MONROE LENDO O "ULISSES", de JOYCE

 

 

 

Há quase 90 anos, foi celebrada a «Última Ceia» do Modernismo europeu. No dia 18 de Maio de 1922, um «dinner party» no sumptuoso hotel Majestic, em Paris, reuniu à mesma mesa um punhado de duques e duquesas do Faubourg Saint-Germain. Mas os convidados de honra eram plebeus, um quinteto de colossos que marcaram para sempre a arte contemporânea: Serge Diaghilev, Igor Stravinsky, Pablo Picasso, Marcel Proust e James Joyce. Por causa deles, o encontro representou muito mais do que uma mera «soireé» género revista «Caras». Correspondeu, na verdade, ao zénite simbólico de um movimento cultural e até de um modelo de civilização, que tinha em Paris tanto a sua Meca como a sua Babilónia.

O pretexto para o regabofe residia na estreia do bailado «Renard», de Stravinsky, dançado pela companhia Ballets Russes, de Diaghilev, cuja sacrossanta missão consistia em «épater les bourgeois». Os anfitriões eram um casal de judeus ingleses ricos e cultivados, Sydney Schiff (escritor bissexto) e sua mulher Violet, uma «socialite» intelectual. Além dos cinco titãs, havia outros convidados VIP. Por exemplo, a princesa de Polignac, uma «dominatrix» lésbica que, segundo as cascavéis mais venenosas, lembrava um chefe comanche. Ou o bailarino Nijinsky, com os seus músculos de aço a palpitar sob as calças justíssimas. Ou o «enviado especial» do Grupo de Bloomsbury, Clive Bell, sobrinho dilecto de Virgínia Woolf. Violet e Sidney esperavam que, com toda aquela massa cinzenta a bordo, o sarau se transfigurasse num «event». Aptidões não lhes escasseavam: segundo T. S. Eliot, o casal «tinha o condão de arregimentar pessoas muito diferentes e fazer com que elas combinassem como pão e manteiga».

Os acontecimentos mostrariam, contudo, que os Schiff estavam a cometer um erro crasso e fatal: sobrestimar as capacidades gregárias dos artistas, sobretudo dos escritores. Ou seja, alimentavam a expectativa de que os seus comensais (principalmente Proust e Joyce) fossem tão cintilantes e carismáticos em carne e osso como no papel, prodigalizando um manancial de «bon mots» e epigramas imperecíveis. Oscar Wilde de facto era assim, mas a maior parte dos criadores prefere aplicar o seu génio nas suas obras, e quando muito deixar o talento para a vida (se sobrar algum). Afinal, como assinalou Beckett na sua monografia sobre Proust, «a arte é a apoteose da solidão».

À primeira vista, porém, 1922 parecia a altura ideal para uma festança olímpica, para o bem ou para o mal. Fora naquele ano ainda pintado de fresco que saíram o «Ulisses», de Joyce, e «The Waste Land», de Eliot. James Frazer lançara o «clássico instantâneo» da antropologia, «The Golden Bough», e Wittgenstein anunciara ter resolvido todos os problemas filosóficos, no seu recém-nascido «Tractus Lógico-Philosophicus». E, apenas mais uns mesinhos adiante, Marcel Proust pingaria o ponto final no ciclópico «À La Recherche du Temps Perdu». Enquanto isso, lá fora, Nils Borh embolsava o Nobel de Física, Howard Carter exumava a tumba de Tutankamon e Mussolini tomava o poder.

O próprio cenário não podia ser mais aconchegante. Mesmo que o Majestic, situado na avenue Kléber, tivesse sido a segunda escolha dos anfitriões: o Ritz acabou descartado porque não permitia que se tocasse música depois da meia-noite – e àqueles semideuses podia apetecer um pezinho de dança. Quanto à ementa, os cozinheiros sonhavam  agradar tanto aos exilados russos – caviar e entradas moscovitas – como aos proustianos e joyceanos militantes: espargos, «bouef en gelée», «pudding», «bearnaise sauce», tarte de amêndoas com café e gelado de pistache.

Diaghilev, na condição de braço direito dos Schiff, ungiu-se em mestre-de-cerimónias: tomou da palavra e saudou os presentes, enquanto a sua abundante cabeleira, empastada de brilhantina, exalava um intenso perfume de flor de amendoeira. Stravinsky perfilava-se na sua silhueta esguia, de nariz protuberante, cabeça oval, ombros caídos e bigode ralo. Picasso (que já em 1906 convulsionara o panorama artístico com «Les Demoiselles d’Avignon», dando o pontapé de saída no Modernismo), sentia-se como um peixe na água em qualquer ambiente – fosse um aquário, fosse o Oceano Pacífico. Acintosamente à vontade, envergava um cachecol catalão juntamente com o smoking. Todos tinham aguardado ansiosamente a chegada de Proust e Joyce, e agora o sentimento era uma mistura de embaraço e consternação. O autor de «Ulisses» entrou na sala privada do Majestic bastante atrasado. Pior: estava visivelmente com os copos – por assim dizer, torrencialmente enfrascado. Proust, por sua vez, só fez a sua aparição às duas da madrugada, abusando do conceito de «dinner-party». Eis como Clive Bell descreveu a cena: «Joyce manteve-se taciturno, com a cabeça apoiada numa mão e uma taça de champanhe à sua frente. Passado um bocado, simplesmente ferrou no sono, e desatou a ressonar alto e bom som. Proust, uma figura minúscula e janota, usava umas luvas pretas e brancas que pareciam de criança. Quanto a Picasso, exuberante e autoritário como sempre, tinha uma melena de cabelo sobre um olho como uma pala de pirata, e emanava uma energia napoleónica».

Proust estava bem distante dos tempos em que era um alpinista social snobe, conhecido como «o Proust do Ritz», quando chegara  a se declarar feliz e honrado por ter apanhado uma constipação de Lord Derby, na medida em que dessa forma germes brasonados haviam invadido o seu organismo… Quem o vira e quem o via! Dantes, não perdia uma badalação, financiava um bordel masculino, dava gorjetas principescas (de 300 francos) e até desafiava desafectos para duelos (disparou duas vezes contra o jornalista Jean Lorrain, falhando ambas por apenas alguns quilómetros).

Agora, o antigo cortesão jazia enclausurado no seu quarto forrado à cortiça, rabiscando e ditando as derradeiras páginas de «À La Recherche» para a sua criada Celeste. Mais: desenvolvera uma verdadeira fobia anti-social. No Reveillon de 1921, já se preparava emocionalmente para enfrentar o jantar no Majestic, e bombardeava os anfitriões com bilhetinhos pungentes: «O pavor de não conseguir comparecer ao vosso jantar obrigou-me a consumir medicamentos em tal quantidade que irão receber uma criatura afásica e de pernas bambas». Houve mesmo um incidente insólito e arrepiante: no intuito de fortalecer o seu ânimo, o escritor ingeriu uma dose cavalar de adrenalina, que por um triz não lhe estropiou a garganta. Resultado: passou um mês sob uma dieta que se restringia a gelado e cerveja bem fria, que mandava buscar ao Ritz. Antes de seguir rumo ao Majestic, pediu pelo menos dez vezes a empregada que telefonasse aos Schiff, para se certificar de que seria acolhido com «uma chávena de chá a ferver», e de que não existiam ignóbeis correntes de ar no recinto. Em 1921, a hipocondria de Proust chegou a tal ponto que a sua correspondência tinha de ser desinfectada a vapor. Ocasionalmente, os cuidados eram justificados: certa vez, no restaurante Le Boeuf sur le Toit, estalou uma zaragata e o escritor escapou por um triz de ser atingido tanto por um balde de gelo como por um frango assado.

Se no âmbito mundano as coisas para Proust tinham mudado, no aspecto literário o panorama também não era propriamente o mesmo. Depois das dificuldades preliminares para editar a sua obra (para sua eterna vergonha, Gide recusou o manuscrito em nome da NRF), quando o primeiro tomo de «À La Recherche» foi finalmente publicado pela Grasset a genialidade do autor foi ofuscante – o livro ganhou o prémio Goncourt do respectivo ano e Gide escreveu uma carta a Proust com um pedido de desculpas («será para sempre o maior remorso da minha vida»). Todavia, pouco antes do jantar no Majestic saíra o quarto volume, «Sodoma e Gomorra», e franqueza do conteúdo homoerótico estarreceu quase toda a gente. A crítica em geral saudou o romance com um silêncio glacial – mas alguns aproveitaram para desopilar o fígado. O próprio Paul Valéry fez uma careta: «A vida é demasiado curta. Proust é demasiado longo». Louis-Ferdinand Céline esgrimiu a sua proverbial truculência: «Proust explica demasiado para o meu gosto: trezentas páginas para nos explicar que Tutur enraba Tatave, é um pouco de mais». Um pouco mais tarde, até Vladimir Nabokov espetará a sua farpa: «As cenas de amor entre Albertine e o narrador só fazem sentido se o leitor souber que o Narrador é maricas, e que as nádegas de Albertine são na verdade as nádegas de um certo Albert».

Na sua monografia sobre o jantar dos Schiff («A Night At the Majestic»), Richard Davenport-Hines observa agudamente que, naqueles dias, Proust era «um homem a tentar manter a sua alma viva». O cativante livro de Davenport-Hines, ao mesmo tempo conceptual e mexeriqueiro, fornece uma esplêndida definição de «A La Recherche», descrevendo-a como uma obra teológica para um mundo secular, «um romance sobre a eternidade escrito por alguém que não acreditava nem no Céu nem no Inferno».

Patinando em tal contexto, não admira que mesmo uma criatura tão arguta e polida como Proust fosse, naquelas circunstâncias, uma bomba de relógio de gaffes atrás de gaffes. Poucos instantes depois da chegada do escritor, a princesa Violette Murat abandonou a sala majestosamente, esfaqueando Proust com o olhar. O ficcionista nem precisou de abrir a boca: a princesa estava mortalmente ofendida com os boatos de que uma das personagens mais sovinas de «A La Recherche» tinha sido inspirada nela. A seguir foi a vez de Stravinsky, o qual se encontrava sentado, hirto como uma tábua de engomar, numa espera angustiada pelas primeiras críticas ao seu noivo bailado. Pois bem: Proust acercou-se dele e, em vez de o encorajar, desatou a enaltecer os quartetos de Beethoven. Stravinsky limitou-se a espumar: «Detesto Beethoven!» – e virou a cara para o outro lado.

Restava James Joyce, que depois da soneca se recompusera da bebedeira, mas continuava a sentir-se inquieto por causa do seu traje, que considerava inadequado e pindérico. O homérico «Ulisses» acabara de ser publicado, e o autor descobrira que santo de casa não faz milagres, ao ouvir a sua mulher gemer perante aquela prosa abstrusa: «Por que é que tu não escreves livros que as pessoas possam ler?»

A primeira e única conversa entre os dois maiores escritores do século XX é um dos mitos mais acalentados da história literária, quase tão dissecada como o sorriso da Monalisa. Joyce, na frase memorável da Sylvia Beach, «tratava toda a gente igual, fossem crianças, princesas, escritores ou mulheres-a-dias (faxineiras)». Mas o facto é que a inevitável rivalidade entre ambos se mostrava latente, com as respectivas facções proclamando a supremacia de um ou do outro e deitando lenha à fogueira. O diálogo arrancou não exactamente da forma mais profunda: «Gosta de trufas?», perguntou Proust. Joyce encolheu os ombros e respondeu: «Sim, gosto». O pingue-pongue não melhorou lá muito, com uma procissão de anti-clímaxes. «Nunca li o ‘Ulisses’», confessou Proust, compungido. «Não se preocupe», resmungou Joyce. «Eu tão-pouco li os seus livros». A seguir, o francês queixou-se amargamente do seu estômago, e o irlandês dos seus olhos. Anos mais tarde, Joyce evocou o encontro: «Não tínhamos muito em comum. Eu só queria falar de criadas, e ele só queria falar de duquesas. Perguntou-me se eu conhecia uma certa duquesa Fulana de Tal, e respondi que nunca a tinha visto mais gorda».

Mas o convívio ainda prometia piorar bastante. Quando o jantar por fim acabou, um Proust quase exangue apanhou um táxi para regressar ao seu santuário de cortiça. Ao indicar a direcção ao motorista, Joyce invadiu o carro intempestivamente e instalou-se ao lado do escritor francês. Como se não bastasse, abriu a janela do automóvel e acendeu um cigarro. O asmático Proust, pálido como um lírio, lamentou não ter trazido uma pistola para aperfeiçoar a pontaria. Quando o táxi parou diante da sua casa, Proust disse ao taxista que partisse o mais depressa possível, sem convidar Joyce a entrar, como mandava a etiqueta.

Apenas seis meses depois da folia patrocinada pelos Schiff, Marcel Proust morreu. E, como tantas vezes acontece, nada como um último suspiro para que as pessoas reconsiderem as suas opiniões a respeito de um nosso semelhante. Nas exéquias do autor de «La Recherche» – tão concorridas como as de Victor Hugo – toda a França parou. Joyce, Diaghilev, Maikovski e Cocteau, entre muitos outros, foram ao funeral. Pouco antes de expirar, Proust tinha ditado à criada Celeste as derradeiras correcções nas provas da sua obra-prima – uma passagem sobre a morte do escritor Bergotte. Agora, ninguém diria de Proust o que Oscar Wilde dissera no enterro de um compatriota: «Bernard Shaw não tem um inimigo no mundo. Em compensação, nenhum dos seus amigos gosta dele». É que Proust não tinha perdido o seu tempo – o moderno agora era, finalmente, eterno.

 

(Texto publicado no caderno Actual, do semanário Expresso)

publicado por otransatlantico às 12:54
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MAILER, VIDAL, CAVETT

 

 

NORMAN MAILER COM A SEXTA MULHER, NORRIS. SIM, POIS...

 

Só admiro um romance de Norman Mailer, mas admiro muitíssimo: OS NUS E OS MORTOS, escrito aos 25 anos. Mailer morreu em 2007, aos 84 anos, mas está tão saidinho da casca como sempre, com a "Maileriana" a fervilhar. Fundada em 2003, a Norman Mailer Society não deixa nem o defunto nem nós descansarmos em paz. A antiga casa do escritor, em Provincetown, foi convertida num santuário. Excertos da torrencial correspondência de Mailer são publicados, dia sim, dia também, na Playboy, na New Yorker, na New York Review of Books. Uma nova biografia do autor está a emergir do tinteiro de Stephen Schiff, da Vanity Fair. Nada menos que 3 memórias protagonizadas por Mailer saíram este ano: MORNINGS WITH MAILER (do seu assistente e cozinheiro), A TICKET TO CIRCUS (da viúva dele) e LOVING MAILER (de Carole Mallory, uma das inúmeras, hã, amantes do escritor). Mailer foi casado seis vezes e, embora tenha esfaqueado uma das cônjuges, é justo admitir que nunca recorreu aos métodos terminais de Henrique VIII para seguir em frente.

 Herdeiro da persona macho alfa de Hemingway, o chato é que nenhuma das suas personagens femininas (incluindo a medonha biografia que escreveu sobre Marilyn Monroe) é plausível. Mas deixemo-lo momentaneamente de lado. Já ouviram falar de Dick Cavett? É um ícone da TV americana, e a partir dos anos 70 pilotou o mais sofisticado talk show de todos os tempos (mil vezes melhor que Johnny Carson ou Jay Leno). Atenção: nos EUA, os talk show são diários - os astronómicos salários auferidos pelos apresentadores são a compensação por nunca terem tempo de os gastar. OK, tudo isto para que curtam o vídeo abaixo. É uma sessão particularmente memorável do DICK CAVETT SHOW, pois nele relativamente jovens Norman Mailer e Gore Vidal esgrimem insultos epigramáticos e sanguinários, com uma ou outra estocada não menos homérica do anfitrião. HEMORRAGIA!!! Bon apetit....

 

 

 

 

 

 

 

publicado por otransatlantico às 11:44
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Sábado, 5 de Junho de 2010

O REI DESTA SELVA VAI NU

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Se a Europa está de tanga, nada mais urgente do que falar sobre um especialista no assunto: Tarzan. Sobretudo porque o pai de um dos mais populares heróis da ficção universal também morreu com um trapinho a tapar os países baixos. Como é que é possível? Afinal, criar Tarzan era como receber uma licença vitalícia para imprimir dinheiro… Edgar Rice Burroughs urdiu o Rei das Selvas em 1912, sem nunca ter posto os pés em África. O primeiro romance combinava a lenda romana de Rómulo e Remo com Mógli, de Kipling. O autor nunca vira mais gordos o “bom selvagem”, de Rousseau, ou o Ubermensch (Super-Homem), de Nietzsche, antes que alguns cabotinos os invocassem para “explicar” Tarzan. E, se abriu o seu exemplar de “A Origem das Espécies”, de Darwin, foi para o colorir – não, não é maldade minha: um biógrafo examinou esse exemplar e jurou que não fora lido, embora Burroughs tivesse desenhado um macaco na primeira página. Tarzan estreou-se numa revista popularucha e, para pasmo do próprio autor, a idolatria foi instantânea. Seguiram-se 23 romances, a uma média de um a cada dois meses – os quais, apenas em vida do escritor, venderam cerca de 60 milhões de exemplares só nos EUA e foram traduzidos para todas as línguas. Foi então que Burroughs se tornou um pioneiro da actual crise financeira. Deslumbrou-se com a opulência e torrou tudo (incluindo numa inepta Disneylândia, a Tarzana), se endividando mais do que o BPN e o BPP juntos. Morreu em 1950, de pires na mão. No cinema, Tarzan teve imensos cabides, mas nenhum como Johnny Weismuller, nadador e recordista olímpico. Era perfeito para o papel, com o seu ar singelo e simiesco. Quando ele exclamava “Grmmmf!” ou “Afumalakatchumba!” para o seu elefante, o público acreditava nele – e o elefante também. Para engendrar o famoso rugido do herói, a Metro produziu uma miscelânea de vozes e ruídos, entre os quais uma soprano de ópera e sirenes de ambulância. A Jane desse supremo Tarzan foi Maureen O’Sullivan, mil vezes mais bonita que a sua filha, Mia Farrow. Se duvidam, assistam a “Tarzan and His Mate”, com aquela Eva africana a nadar nua no fundo do rio – sequência cortada no cinema mas exumada no DVD. Lição da desgraça de Burroughs? Bem, Hemingway disse um dia: “As três piores coisas na vida de um escritor são: dinheiro, bebida e mulheres. As três melhores, também”.

 

publicado por otransatlantico às 20:34
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QUEM TEM K SEMPRE ESCAPA

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Desde que a crise financeira desembestou, o nome dele tilinta. Quando Obama anunciou um plano para a criação de 2,5 milhões de empregos até 2011, as trombetas rugiram: KEYNES! E, com a nacionalização do BPN, de novo: KEYNES! Quem? John Maynard Keynes (K), um dos maiores economistas da história – mas será que ele brotou do sarcófago como um Tutankamon, ressuscitado pelo fiasco do livre-mercado e o banzé financeiro? Nada. K nunca saiu de cena – os anos 1945-1975 foram mesmo chamados “A Era Keynes”. E antes ele publicou um livro profético, avisando que as reparações impostas à Alemanha após a I Guerra causariam a II (bingo!). Simplificando, K postulava que política fiscal deve ser esgrimida para compensar as oscilações dos ciclos económicos. Foi o mentor do New Deal, de Roosevelt. Muitos políticos adoram o keynesianismo porque acham que ele legitima a sofreguidão deles por torrar dinheiro público (carteiristas do nosso bolso). Parte da Esquerda perfilhou K como meio de manter o credo socialista sem apoiar o totalitarismo soviético. Mas K não era de esquerda, socialista ou estatista, nem aqui nem na China (aliás, sabem porque os chineses são tão parecidos uns com os outros? Porque são todos cópias piratas!). Ora, a ideia de que os mercados são totalmente desregulados é besta. Há normas para quase tudo: abrir o capital de empresas, operar bancos, produzir medicamentos ou pôr um táxi na praça. Quimeras à parte, o Estado é indissociável do capitalismo. Raios, é dele que emanam as garantias de direitos de propriedade e de respeito aos contratos, assim como a defesa da concorrência (é ele quem coíbe os cartéis). Sem regras claras e ajuizadas pelo árbitro estatal, não há pontapé de saída no futebol do mercado. Nem a Internet existiria sem o Estado. K integrou o Grupo de Bloomsbury, uma plêiade de artistas e intelectuais britânicos em que pontificava Virginia Woolf. Foi inabalavelmente gay até conhecer a bailarina Lydia Lopokova, dos Ballets Russos de Diaghilev, onde Niijinsky dançava conforme a música e Picasso pintava o caneco. Lopokova (na foto, a saracotear com K.) devia ser feérica – Picasso retratou-a muitas vezes e J.M. Barrie (o criador de Peter Pan) dedicou-lhe uma peça. Mais assombroso ainda, ela converteu K às maravilhas da heterossexualidade: casaram e foram felizes para sempre (ao contrário dos outros membros daquele cenáculo – e da maioria de nós –, infelizes no amor). Resumindo: Keynes não voltou, porque nunca foi. Ah, um dia, ele – supostamente estatizante e planeador inveterado – ouviu alguém falar em “longo prazo”. Grunhiu: “Ora, a longo prazo estaremos todos mortos”.

 

(Texto publicado na revista de Domingo do Correio da Manhã)

 

 

publicado por otransatlantico às 20:28
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ENTREVISTA UMBERTO ECO

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NÃO CONVIDARIA UMA MULHER DE RUBENS PARA JANTAR

 

Em Outubro passado, Umberto Eco serpenteava pelos labirintos da Feira do Livro de Frankfurt com uma beata de cigarro apagada a pender dos lábios, como um lúgubre chupa-chupa. Tratava-se de um protesto mordaz ao recentíssimo anti-tabagismo vigente. Um mês antes, a Alemanha era um dos raros países da UE onde ainda podia fumar-se até em comboios. Daí o incongruente ar ensimesmado do semiólogo-romancista, em tantos aspectos um italiano típico – os italianos não se limitam a falar pelos cotovelos: fazem-no como se tivessem uma batuta invisível na mão.

Aos 75 anos, é redundante assinalar o prestígio de Eco. Em Itália, é consensualmente considerado o herdeiro de Benedetto Croce – uma espécie de mentor e consciência da nacionalidade. Tanto que, em 1992, foi dele a palavra definitiva sobre a “Operação Mãos Limpas”, que meteu na cadeia 300 personalidades públicas, entre deputados e senadores, e levou à renúncia nove ministros. “Eis o nosso 14 de Julho de 1789”, sentenciou Eco. Em 2005, foi eleito pela revista inglesa “Prospect Magazine” o segundo intelectual vivo mais influente do planeta (desgraçadamente, o destrambelhado Noam Chomsky, um Michael Moore alfabetizado, ficou em primeiro).

Director da Escola Superior de Ciências Humanas da Universidade de Bolonha (a mais antiga do mundo), está a lançar simultaneamente em 20 línguas o tratado “História do Feio”, uma espécie de outro lado da moeda de “História da Beleza”, de 2004. A meu ver, ambos correspondem a uma réplica muito tardia (mas inexorável) à acusação lançada a São Tomás de Aquino, de não reflectir sobre a estética, especialmente sobre o belo. Ora, toda a primeira fase da ensaística de Eco é devotada àquele doutor da Igreja…

PAULO NOGUEIRA: Porquê agora um livro sobre o Feio? Uma questão de simetria – portanto, de Beleza?

ECO: (Risos) Nem por isso… A resposta previsível seria a de que a minha dissertação de douramento foi sobre a estética, e a beleza e a fealdade são o meu trabalho. Por outro lado, uma resposta mais pormenorizada é a de que, em 1961, iniciei “A História da Beleza” para o meu editor (Bompiani), e a minha assistente era a rapariga com que depois casei, Renate Ramge. Então, e como frequentemente acontece nas editoras, por razões orçamentais decidiram suspender a elaboração da obra. Meti os meus ficheiros numa gaveta e desposei Renate. Quarenta anos mais tarde, um amigo que produz CD-ROMs pediu-me a sugestão de um tópico para um novo projecto, e propus-lhe “A História da Beleza”, de modo a reabrir aquela gaveta, mesmo que após quatro décadas toda a investigação tivesse de recomeçar da estaca zero. Passado algum tempo, a Bompiani resolveu transformar o CD num livro e – contrariando todos os prognósticos – um dispendioso volume sobre arte se tornou um sucesso e foi traduzido para 27 idiomas. O editor solicitou-me em seguida um novo livro do mesmo género. Respondi-lhe: “Ouça, ‘A História da Beleza’ vendeu tanto por causa do seu título apelativo, independentemente do conteúdo. E não há outro título tão apelativo”. Pouco depois, porém, ocorreu-me a ideia de virar a coisa toda de pernas para o ar, e exclamei: “A História do Feio!” Foi assim que tudo aconteceu, sem tirar nem pôr. Subsequentemente, descobri como era excitante explorar o imenso continente da Fealdade.

Considere que, ao longo da história, houve infinitas teorias da Beleza, mas muito poucas teorias da Fealdade. Tratou-se de uma das experiências mais emocionantes da minha vida. No caso da Beleza, bastava examinar os filósofos que a definiram, e a antologia era fácil de compilar. Com a Fealdade, na medida em que existiam tão escassos textos, foi necessário desbravar um imenso território de descrições literárias de experiências com o feio, e a pesquisa acabou por ser bastante divertida.

PN: As definições da fealdade parecem ter mudado no curso dos séculos. O senhor tem a sua própria?

ECO: Não. Caso contrário, este livro seria ou inútil ou redundante. Como a noção da Beleza, a da fealdade varia consoante as eras, e de cultura para cultura. No que diz respeito a Beleza, certos aspectos básicos permaneceram constantes (ao menos na tradição Ocidental): por exemplo, a ideia de que a experiência da Beleza requer sempre um certo distanciamento, no sentido de que o objecto deve ser contemplado sem qualquer anseio de posse ou consumo. Ora, se a Fealdade consistisse simplesmente no oposto da Beleza, diríamos que aquela suscita mais envolvimento emocional. O que até é correcto para aquilo que é repelente, repugnante ou obsceno, mas podemos também experimentar a Fealdade em situações cómicas ou grotescas, nas quais o objecto ou a pessoa feias são contempladas com curiosidade ou divertimento, sem qualquer sensação de rejeição. Pense nos Sete Anões da Branca de Neve; em comparação com George Clooney são certamente feios, mas consideramo-los deveras simpáticos. A noção de Fealdade abarca mais fenómenos do que a de Beleza. Por esta razão, para mim foi mais interessante editar este livro do que o anterior.

PN: Dir-se-ia que os monstros sempre existiram, dos demónios marinhos dos Gregos Antigos aos filmes de terror contemporâneos. Há algum de comum entre eles?

ECO: Uma das mais clássicas definições da Beleza fala diz que as suas características são a proporção e a integridade – e integridade significa que um objecto acima de tudo deve apresentar todos os aspectos que cada objecto da sua respectiva espécie apresenta. Neste sentido, uma pessoa mutilada jamais era considerada bela, um anão era demasiado pequeno e um gigante demasiado grande para serem “normais”. Assim, em todas as culturas, os monstros ou não tinham o que deveriam ter (como o monocular Cíclope), ou tinham em excesso (duas cabeças, inúmeros braços, e assim por diante). Mas isso não quer dizer que os monstros foram sempre considerados repulsivos. Muitos deles foram considerados feios porém interessantes, e a Idade Média inteira sustentou que eles participavam da harmonia universal. Com frequência, foram mesmo encarados como símbolos benevolentes de valores e virtudes espirituais. Em geral, os monstros tendiam a expressar o gosto humano pelo Maravilhoso.

PN: O senhor não aprofunda o conceito de Fealdade nas culturas não-Ocidentais – asiáticas ou africanas, por exemplo. Alguma razão especial?

ECO: Adoptei o mesmo critério usado n’A História da Beleza. É bastante difícil afirmar que algo que nos parece feio inspira o mesmo efeito num membro de outra cultura. Para a cultura ocidental, podemos comparar imagens artísticas ou descrições literárias com textos teóricos, e concluímos se naquela época um dado objecto ou uma determinada pessoa eram considerados feios ou não. Muitas vezes o contexto histórico ou a referência a outros textos pode auxiliar-nos: por exemplo, é evidente que se um quadro representa a Paixão de Jesus os seus flageladores são seguramente concebidos como feios. Não dispomos de garantias semelhantes nos casos oriundos de outras culturas.

PN: Admite que, no curso da história, o feio tem sido tão apaixonante para os artistas como o belo – ou até mais?

ECO: Ao colectar material visual ou literário para a minha antologia, fiquei com a sensação de que as representações das coisas belas seguiram sempre um certo cânone, deixando um espaço limitado para a imaginação do artista. Com o Feio, os artistas podem ser mais inventivos. Tente imaginar a descrição literária de uma mulher bela: depois de enaltecer os olhos, o perfil, os lábios ou os cabelos, resta muito pouco a acrescentar (excepto no caso em que o escritor não descreve simplesmente qualidades físicas, mas sugere uma espécie de misterioso glamour, ou um apelo impalpável). Pelo contrário, na representação do horrível e do repugnante a fantasia do artista pode ter rédea solta. A Beleza tem limites canónicos. A Fealdade é ilimitada nas suas possibilidades.

PN: Existem belas representações artísticas do Feio. Há uma diferença entre a Fealdade na arte e a Fealdade na natureza?

ECO: Devemos sempre distinguir entre ambas. Um mau artista pode fazer uma horrível representação de Vénus, assim como um grande artista pode representar Polifemo esplendidamente. Do mesmo modo, eu não convidaria uma mulher de Rubens para jantar, mas reconheço que do ponto de vista artístico elas são muito belas. Na história da arte há fascinantes representações ou criações de seres monstruosos – basta pensar em Hieronymus Bosch.

 

(Entrevista publicada no caderno Actual do semanário Expresso)

publicado por otransatlantico às 20:22
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CONCEITO E CONFEITO

 

 

 

Certo, a filosofia já se debruçou antes sobre o humor. Até mesmo para definir ontologicamente o ser humano. Aristóteles (cujo tratado sobre a comédia se perdeu, como Umberto Eco participou ao mundo) proclamou que o homem é o único animal que ri (negligenciando a hiena, que ri-se como Eddie Murphy). Mais até: no seu livro especificamente sobre o cómico – Le Rire -, Bergson observou que todo o humor tem uma conotação humana, caso contrário não tem graça. Uma paisagem pode ser bela ou soturna, nunca cómica.

Todavia, os filósofos não se celebrizaram propriamente por serem tipos impagáveis. Lembremos que num acesso de neura, Wittgenstein chegou a atirar um atiçador de lareira à cabeça do seu colega Karl Popper. E um Schopenhauer propôs que os homens parassem de procriar, de modo a que a insuportável humanidade se extinguisse.

Há histórias da filosofia ocasionalmente espirituosas, como a (esplêndida) História da Filosofia Ocidental, de Bertrand Russell. Mas Platão e um Ornitorrinco entram num bar vai muito mais longe: percorre os sistemas filosóficos através de anedotas que os exemplificam e elucidam. É uma ideia encantadora, sobretudo por que a esmagadora maioria das piadas são hilariantes – e de facto pedagógicas, ainda que de uma maneira derrisória para os respectivos pensadores.

É quase impossível escolher uma delas, tal a abundância e a graça. Mas, já que falei acima de Wittgenstein, selecciono uma sobre a filosofia da linguagem e a sua ambiguidade. Bill foi visitar o amigo Bob, que estava a morrer no hospital. À cabeceira do amigo, a saúde de Bob piorou e ele gesticulou freneticamente a pedir algo onde pudesse escrever. Bill deu-lhe uma caneta e um papel e Bob rabiscou algo. Mal acabou, morreu. Bill guardou o bilhete no bolso, incapaz de o ler naquele momento. Durante o velório, junto da pesarosa família de Bob, Bill apercebeu-se de que o bilhete estava no bolso do casaco e anunciou: “Bob entregou-me um bilhete mesmo antes de morrer. Ainda não o li, mas conhecendo-o como o conhecia, sei que serão palavras inspiradoras para todos nós.” E leu em voz alta: “ESTÁS A PISAR O MEU TUBO DE OXIGÉNIO!”

Espero que tenham apreciado. Se não, cito a epígrafe do livro, de Groucho Marx: “Estes são os meus princípios. Se não gostarem, tenho outros”.

 

(Texto publicado no caderno Actual do semanário Expresso)

publicado por otransatlantico às 20:11
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GAGAÍSMO

http://blogs.radarurbano.com.br/enyce/wp-content/uploads/2009/08/lady_gaga.jpg

 

 

Eu, na minha santa e senil ingenuidade, achava que a tal Lady Gaga cantava por causa do nome. Ou seja: nascera com uma deficiente fonética e, como muitos gagos, quando canta não gagueja. E por isso é que canta tanto. Qual quê! Li uma crónica do Ivan Lessa sobre a lambisgoia e fui espreitar o YouTube. Ela canta simplesmente porque aquilo é música para milhões de ouvidos, incluindo os dela (e, fisicamente, parece o fantasma de uma bruxa que caiu da vassoura). Na Grécia Antiga, o sábio Demóstenes era gago. Para vencer a deficiência, enchia a boca de pedrinhas e, à beira-mar, apostrofava o oceano. E assim venceu a gaguez. Mas aposto que, mesmo com a boca cheia de pedras e a vociferar contra Neptuno, era muito mais afinado que essa lady. Ó Gaga, posso pedir-te uma canção? O canto do cisne.

publicado por otransatlantico às 17:17
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Ricky Martin e o armário em hora de ponta

         oscar_wilde_02                

 

 

                             Recentemente, Ricky Martin deu um salto na corda bamba: afastando-se das gavetas e dos cabides, abandonou definitivamente o armário. O intérprete de “Livin’ la Vida Loca” postou um texto explosivo no seu site oficial: “Hoje aceito a minha homossexualidade como uma prenda que a vida me deu”. Para os mais atentos, esta bomba foi um quase um estalinho: o cantor nunca foi fotografado com namoradas e mantém em segredo de Estado o nome da mãe dos seus filhos (dois gémeos, desenvolvidos numa barriga de aluguer). Ainda assim, há um risco óbvio ao “assumir-se”, já que Ricky enfeitiçava as fãs com a sua aerodinâmica de amante latino, “caliente” como um macho alfa.

                        Consta que a música, o cinema e a TV estão entre as áreas profissionais mais abertas à diversidade, pelo menos hoje em dia. Tanto que um maestro há pouco tempo resmungou: “Tchaikovski pensou em matar-se por medo de ser desmascarado como homossexual. Mas agora, se um compositor clássico não for gay, convém meter desde já uma bala na cabeça”. A verdade, porém, é que o assunto é bem mais complexo, uma espécie de coexistência entre o 8 e os 80. Eis o dilema pragmático: para uma personalidade pública, vale a pena revelar a sua vida intimidade minoritária, ou é melhor varre-la para de baixo do tapete persa? OK: o sexo, desde que consensual e entre adultos, é uma questão privada. Mas, sem singelezas seráficas, há matizes em cada caso: para um profissional que sempre vendeu uma imagem de galã incandescente, o adeus ao armário pode chocar e desiludir milhares de fãs – que sempre sonharam, consciente ou inconscientemente, conquistar o ídolo, na acepção real da palavra. E a homossexualidade continua controversa, como atestam, por exemplo, as perseguições aos gays no Irão ou Cuba, ou a associação feita por um hierarca do Vaticano (que depois recuou) entre pedofilia e homossexualismo - ainda que Bento XVI, com clareza inédita, tenha reconhecido os actos pedófilos cometidos por representantes do clero como criminosos e puníveis pela Justiça secular.

                        A atitude de Ricky Martin desencadeou uma campanha nos EUA: “Give a Damn” (“Dane-se”): inúmeros artistas apareceram em vídeos a assumir ou a reforçar a sua opção sexual. Um deles foi Anna Paquin, a segunda actriz mais jovem da história a receber um Oscar (por “O Piano), quando tinha onze anos. Hoje com 28 e noiva do actor Stephen Moyer, ela professou-se bissexual. Outro a dar a cara foi T. R. Knight, um engatatão heterossexual na badalada série “Anatomia de Grey”. Já em 2006 ele enviara uma carta à revista “People”, assumindo a sua homossexualidade e alegando que assim pretendia acabar com “rumores desnecessários”. Aludia, nas entrelinhas, ao incidente com Isaiah Washington, colega de Knight na série, que chamou-o “bicha” – e por isso foi demitido. O próprio Knight abandonou o programa no ano passado, desapontado com o rumo da sua personagem.

                        Como às vezes acontece com as radicalizações, a campanha também gerou exageros. Elton John chegou a informar o mundo de que “Jesus Cristo era gay”. Só faltou acrescentar que foi por isso que Bach compôs “Jesus, Alegria dos Homens”. Certo, Dan Brown embolsou milhões a proclamar que Jesus terá casado com Maria Madalena e gerado filhos estigmatizados pela Igreja Católica – do que não há a mais ínfima evidência histórica. Mas pelo menos Brown não se cansa de repetir que o que escreveu é pura ficção e ponto final. Ignora-se a amplitude da erudição teológica de Elton John. Todavia, na sua condição humana, Jesus era um judeu religioso, seguindo escrupulosamente a lei fundamental deste povo: os dez mandamentos, entre os quais o sexto, que prega a castidade. A homossexualidade é condenada no Antigo Testamento, e o Novo, a partir do próprio Jesus, confirma tal desaprovação.

                        Claro que muitos dos grandes expoentes da história foram homossexuais praticantes. E depois? Não precisamos de corar. Mas é a tolice atribuir, sem nenhum fundamento científico, a homossexualidade a vultos proeminentes da crónica humana, para legitimar a opção pessoal de cada um. Daqui a bocado, até um Humprhey Bogart entrará na dança (ballet).

                        O próprio Shakespeare, de cuja vida não sabemos quase nada, já foi arrolado como um gay militante. Tudo por causa dos seus deslumbrantes “Sonetos”, 154 poemas divididos em duas partes, a primeira dirigida a um “belo rapaz” (fair youth) e a segunda a uma dama escura (dark lady). Como nota um biógrafo, “o facto extraordinário é que Shakespeare, criador das mais ternas e comoventes cenas de afecto heterossexual, peça após peça, com os sonetos foi convertido no poeta gay mais sublime da história da literatura”. Uma das poucas coisas que sabemos sobre Shakespeare é que ele foi casado com Anne Hataway e teve dois filhos - um deles chamado Hamnet, que morreu precocemente e é apontado como a matriz de Hamlet. Embora tenha deixado quase 1 milhão de palavras de texto, dispomos de só 14 palavras do seu próprio punho – ele nunca assinou sequer o seu nome da mesma maneira. Daí a tese de que Shakespeare não passava de um pseudónimo. O que não quer dizer que o autor de “Romeu e Julieta” NUNCA tenha bebido de outras águas. Quer dizer apenas que não sabemos e pronto.

                        Tão-pouco quer dizer que os escritores, por serem teoricamente mais cultivados (e menos mundanos), tenham gozado de maior liberdade. Já em meados do século XX a revista “Time” cancelou uma capa prontinha com o grande poeta W. H. Auden, quando o editor soube que ele era gay. Mesmo nos irreverentes anos 60, a “Time” torpedeou o dramaturgo homossexual Tennesse Williams, colando a cada uma das suas peças um selo indefectível: “Lamaçal fétido”.

                        Parece que a resposta ao tal dilema é um ambíguo e reticente “depende” – muito aleatório. O actor inglês Rupert Everett, por exemplo, fez um beicinho: “Desaconselho a qualquer dos meus colegas a saírem do armário”. Desde que assumiu-se como gay, Everett ficou limitado a papéis de… gays – ou de ingleses snobs. Até no desenho animado “Shrek 2” ele dobra um amaneirado e afectadíssimo príncipe. Ora, o ofício do actor consiste basicamente em fingir ser quem não é – mas ainda há resistências a ideia de um gay interpretar um heterossexual.

                        Mas realmente não existe um padrão. O idoso actor britânico Ian McKellen (“O Senhor dos Anéis”, “O Código Da Vinci”, etc), que tem o título de “Sir” – é par do reino, com uma brilhante carreira teatral -, acredita que nos EUA o preconceito é maior, por causa do alegado puritanismo americano. No entanto, se é certo que um Rock Hudson só saiu do armário quando estava velho e a morrer de sida (aids), hoje há numerosos casos opostos. Neil Patrick Harris, que “assumiu-se” em 2006, no ano passado apareceu na capa da revista “New York” a passar batom nos lábios (e não era contra o cieiro, mas escarlate fluorescente). E a carreira dele está em alta – até faz de garanhão na série “How I Met Your Mother”.

                        Ficar no armário comporta outro risco: escancararem a porta e ser apanhado lá dentro, numa posição comprometedora. Em 1998, o cantor George Michael foi detido em Los Angeles, depois de tentar fazer sexo oral numa casa de banho pública, com um polícia disfarçado (o que um agente da autoridade não faz para cumprir a lei!). Ele nunca tinha assumido e a sua imagem caiu a pique (claro que as drogas e estapafúrdias escolhas musicais também não ajudaram nada). Contudo, depois de regressar aos palcos dez anos mais tarde e lançar um novo CD, Michael facturou 150 milhões de dólares de 2006 a 2008, só com a digressão “25 Live”. Se calhar num acesso de amnésia colectiva, as fãs voltaram a babar-se por ele. Sim, é complicado decifrar a relação alquímica ídolos/idólatras. Ainda nos sisudos anos 50, o pianista americano Liberace era passionalmente adorado por uma legião de circunspectas matronas. Não obstante, ao pé do espalhafatoso visual dele, José Castelo Branco pareceria um John Wayne.

                        E para as mulheres – sair do armário é mais fácil ou mais difícil? Jodie Foster, que começou a carreira artística ainda criança, assumiu-se apenas em 2007. Foi numa gala em Hollywood. Ao recolher mais um prémio, Jodie agradeceu: “Devo-o à minha linda Cydney, que está comigo nos bons e maus momentos”. Ninguém ligou – mas Jodie tem um currículo inexpugnável: foi a primeira mulher a receber dois Óscares de melhor actriz antes dos 30 anos. E, afinal, talvez alguém tenha ligado: coincidência ou não, a longa relação dela com Cydney Bernard acabou pouco depois.

                        O que não impediu Cynthia Nixon – a Miranda de “O Sexo e a Cidade” – de aderir à actual campanha. Há mais de cinco anos, Cynthia (que foi casada com um cavalheiro que não vem ao caso e tem dois filhos) vive com Christine Marinoni. E elas pretendem dar o nó este ano.

                        Um dos episódios mais instrutivos é o de Ellen DeGeneres. A sua carreira quase descarrilou depois que ela saiu do armário, em 1997. Uma série que protagonizava foi imediatamente cancelada. Mas Ellen deu a volta por cima. Primeiro, como jurada do “American Idol”. Em seguida, apresentou a cerimónia do Oscar em 2007 – grande comediante, arrasou. Hoje, casada com a estonteante Portia de Rossi, comanda um dos talk shows mais vistos no mundo (em Portugal, é emitido pela SIC), significativamente intitulado apenas “Ellen”.

                        Seja como for, é evidente que já lá vão os tempos de um Oscar Wilde, um dos maiores epigramáticos da história da literatura. Escritor e dramaturgo, Wilde seguiu à risca um dos seus aforismos: “Devemos resistir a tudo – menos às tentações”. Com 1,90 metro de altura e uma língua que era uma navalha de ponta-e-mola, dava nas vistas na Inglaterra vitoriana. Talvez demasiado. Teve a sua primeira experiência homossexual já com 32 anos. Antes, fora noivo de uma jovem que o deixou para casar – imaginem! – com Bram Stoker, o futuro autor de “Drácula”. Wilde, provavelmente, assustava-a ainda mais. Depois, o escritor desposou Constance, que lhe deu dois filhos. O escândalo rebentou quando Wilde, nos píncaros da fama, apaixonou-se por um rapaz chamado Alfred Douglas, que não era flor que se cheirasse. Além disso, o pai de Alfred era o marquês de Queensberry, simplesmente o homem que sistematizou as regras do boxe. Que pontaria!

                        O marquês acusou publicamente Wilde de homossexual – e este, confiante na sua retórica aguçada, processou o acusador. Uma série de prostitutos desfilaram pelo tribunal, lavaram cada trapinho de roupa suja, e o escritor foi condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados. Ao chegar à penitenciária, raparam-lhe a cabeça e cuspiram-lhe na cara. Quando cumpriu a pena, era um farrapo humano. Refugiou-se em Paris, onde às vezes interpelava os transeuntes na rua: “Sou Oscar Wilde e estou a pedir-lhe dinheiro!”. Agonizou num hotel parisiense que não passava de uma pocilga. Mesmo assim, não perdeu a graça. As suas últimas palavras: “Morro como vivi: acima das minhas posses”.

                        Moral desta história toda? Nas suas “Memórias”, o romancista Gore Vidal, gay assumido há séculos, observou: “Nos EUA, actualmente, qualquer homossexual consegue ficar famoso como escritor. Pois não basta ser bicha para escrever. Por incrível que pareça, é preciso talento também”. Este último item – o talento - devia ser o único critério para avaliar um artista – independentemente da sua opção sexual.

 

(Texto publicado na revista DN/JN Notícias)

publicado por otransatlantico às 16:59
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Uma folha de parra, sff

http://www.geos.ed.ac.uk/homes/s0456225/Tromso.jpg

 

TROMSO: OBSCENAMENTE LINDA

 

 

Dentro de dias, vou a Tromso (Noruega), 300 kms acima do Círculo Polar Árctico, ver a aurora boreal (se ela não der uma nega aos mirones, como às vezes acontece). Mais um avião, agora com as novas medidas anti-terror. Será que brutamontes irão apalpar-me as partes e exibir nos plasmas do aeroporto os meus países-baixos, em Alta Definição e 3-D? (Não, não é que eu tenha algo a esconder, ou pelo contrário!) Como disse B. Franklin, “quem deita fora a liberdade essencial para obter uma pequena segurança não merece nem liberdade nem segurança”. Mas a maioria de nós apoia o endurecimento (salvo seja) – afinal, para usufruir de direitos como a liberdade e a privacidade, é necessário estar vivo. O problema é o limite: onde o ónus excede o bónus? O “racial profiling” ofende o nosso senso de justiça. Há algo de execrável em suspeitar de milhões de cidadãos como criminosos só por causa de características étnicas. E, como mostrou o quase atentado no Natal passado e em Times Square mais recentemente, não há vigilância 100% infalível em 100% do tempo. Como observou Hobbes, “o mais fraco dos homens tem força bastante para matar o mais forte”. A partir de determinado nível de segurança, dependemos da sorte. E ninguém mais sortudo do que Tsutomu Yamaguchi, um japonês que morreu na semana passada, aos 93 anos. Ele sobreviveu à explosão da bomba atómica em Hiroxima, em 1945, voltou para a sua casa, em Nagasaki – e sobreviveu também à explosão nessa cidade, dois dias depois. Nas duas bombas, estava a menos de 1 km do epicentro da explosão, e sofreu apenas ruptura dos tímpanos. Dos 200 mil mortos nas duas cidades, milhares estavam mais longe do “marco zero” – e sucumbiram ao calor, intoxicação, desmoronamentos ou desenvolveram algum cancro. Yamaguchi gozou de tanta saúde pelos quase 60 anos seguintes que nunca participou de manifestações antinucleares – não se sentia com a legitimidade de quem foi “realmente atingido”. OK, mas eu, se fosse ele, tinha ao menos ido a correr jogar no Euromilhões.

 

(Texto publicado na revista Domingo, do Correio da Manhã)

publicado por otransatlantico às 16:54
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ENFIM, S.O.S.!

 

 

Primeiro e único aviso: oxalá não sejam monoglotas, pois este é um blogue bilíngue: aquecido no microondas e servido no português de Portugal e no do Brasil (às vezes separadamente, às vezes ao mesmo tempo, às vezes nogueiristicamente colado com cuspo). Estamos de acordo contra o acordo ortográfico. Porque mais um, se já há mais blogues do que leitores? Corre por aí um mito urbano segundo o qual já há mais blogues até do que telemóveis (celulares). Por causa, parafraseando o romance Transatlântico (nome do blog e minha condição - mil perdões, não se repetirá! - ontológica), do meu destino inédito, daquela coisa que bem ou mal, boa ou má, sou eu e mais ninguém, nem antes nem depois, nem agora nem nunca.

Como sei quase tudo sobre quase nada, falarei de muito, e de mais alguma coisa (livros, cinema, Megan Fox, séries de TV, música, Megan Fox, pintura, teatro, Megan Fox, futebol). Enfim, aquelas matérias que um homem do Renascimento considerava o pão nosso de cada dia (especialmente TV e Megan Fox). Falarei da vida antes, durante e depois da morte (para estes dois últimos temas aceito colaborações de correspondentes e enviados especiais). Só não falarei de apicultura e críquete, por motivos óbvios. Falarei de mulheres, apesar de - não obstante anos de pesquisa laboriosa, sofrida e sofrível- admitir que não entendo patavina do assunto. Porém, como nós também somos chineses para elas, estamos quites (em tempo: para as chinesas, nós somos gregos). Aliás, se calhar é precisamente por isso que gostamos uns dos outros (aqueles que gostam, claro) - devido à incompreensão perplexa e recíproca. É o único caso em que aceito o obscurantismo e, até, a média luz (o black-out não, pois gosto de ver os olhares, ainda que eventualmente de consternação).

De vez em quando, encherei o chouriço (ou a linguiça, em brasileiro) com textos que publiquei na imprensa. São os ossos do ofício, sempre duros de roer (e quase nunca me lembro donde os enterrei). Com uma pitada de sarcasmo para condimentar, serão os ossos do ofídio. Divirtam-se às minhas custas, até porque, infelizmente, não custa nada.

publicado por otransatlantico às 12:11
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